Tragédia

12/11/2017 11:59:15 por Kleber Santos em Coluna José Lima
José Lima Santana
Professor de Direito da UFS

Maria Zilda de Maneco Pé Ligeiro estava no roçado, fazendo a terceira limpa do pequeno mandiocal, após as últimas chuvas. O inverno veio danado de bom. A fartura na lavoura foi grande. Milho, feijão e fava à vontade. A mandioca prometia. Uma trovoada no fim do ano, outra em fevereiro, garantiriam boas raízes tuberosas que os nossos índios delas contavam preciosa lenda, e que dava a farinha nossa de cada dia, sustento para gerações de nordestinos. 

Mais da metade do roçado já estava limpa. Terra frouxa, fácil para o manejo da enxada. Maria Zilda parou um instante para limpar o suor da testa com o lado externo da mão esquerda. O tempo já começava a levantar com força. O sol abrasava cada pedaço de chão. Primavera? Que nada! Verão antecipado. Era sempre assim. O marido de Mariz Zilda, Maneco Pé Ligeiro, tocador de sanfona, vivia de canto em canto, por aí, puxando o fole e namorando quem aparecesse. E mulher pronta para um xodó não faltava em lugar nenhum. 

Ultimamente, coisa de dois meses mais ou menos, o pé tornou-se ainda mais ligeiro para o lado de uma zinha do Tabocal dos Pretos Forros, depois da Timbira de Jorjão. Aboletara-se de casa sem dar notícias até aquela tarde. A Maria Zilda restava a filhinha, Doralina, de nove anos, a casa em regular estado e o roçado. Para a filha, ela almejava um futuro bem diferente do seu. Por isso, a menina estava no estudo pela manhã e pela tarde, na escolinha do povoado. Porém, Maria Zilda não sabia o porquê, mas o seu coração tinha um pressentimento que ela não conseguia entender. Alguma coisa estava para acontecer. Pensou logo no marido farrista e de asa arrastada por aquela zinha do Tabocal. Ocorreu-lhe também a filha, Doralina. Não. A filha estava bem, na escola, estudando para ser gente. 

A tarde andava a meio. Maria Zilda ouviu um grito. Um chamado. Era para ela. Agora, sim, ela ouvia bem: “Maria Zilda! Maria Zilda!”. Era voz de homem. Desembestado, montando um cavalo cai, mas não cai, bamboleando sobre o animal como se fosse o último dos espantalhos, João Balaio aproximou-se, berrando: “Maria Zilda, minha filha, pelo amor de Deus, corre para casa. Uma desgraça acaba de acontecer”. Ela viu, então, o rostinho de sua filha estampado na lâmina d’água da última poça que o sol sorvia gota a gota, devagarzinho. “E o que foi, João? É Doralina?, perguntou a mãe aflita. O cavaleiro respondeu: “Corre, filha de Deus! Corre!”. Alvoroço. Pranto incontido.

Uma caixa d’água postada nas cercanias da escola onde Doralina estudava, aliás, a única do povoado, acabara de desabar sobre a escola, partindo-a ao meio, ferindo muitas crianças e deixando sem vida duas delas. Uma das duas era, sim, Doralina. Nove anos. A outra criança era só um pouco mais velha. Ou melhor, mais velho. Era um menino. Quanta tristeza! Quantas lágrimas derramadas por todos que ali se aglomeravam. Era um povoado pequeno, unido na dor de duas perdas que tinham sido feitas sementes esmagadas. Sementes que deveriam germinar e florir, abrindo-se para a vida. Porém, a morte prematura as colhera, esmagando as corolas de suas inocências. 

Uma mãe e um pai em prantos. Um corpo esmagado. Ferragens retorcidas. Ferrugem à mostra. Muita ferrugem. Concreto rachado. Olhos lacrimejantes. Solidários. Um povoado atônito. Uma tragédia anunciada. Há muito tempo, havia rebuliço dos moradores por causa da caixa d’água, que parecia entortar. Ninguém dava ouvidos ao povo. Moucos eram os ouvidos dos governantes, dos dirigentes, de quaisquer pessoas que detinham um naco de poder e de responsabilidade. 

O outro corpo ensanguentado, destroçado era, sim, o de Doralina, a filhinha de Maria Zilda e Maneco Pé Ligeiro. A mãe desesperada jogou-se sobre o corpo da filha. Nove anos. Uma flor esmagada pela fúria do descaso, da omissão. Fúria mais devastadora do que um furacão. Choro, grito dilacerante. Lamentação. Dor que cortava o coração de todos. Dor somada à outra dor. Duas mães que, por certo, experimentavam a dor de Maria diante do seu Filho vergado na cruz. Dor excruciante. Que rasgava os véus do coração como a dor de Maria pareceu rasgar s véus dos céus, naquela sexta-feira que o mundo jamais esquecerá. Porém, a dor daquelas duas famílias seria em pouco tempo esquecida, em especial pelos omissos. Omissos. Omissos. Omissos. 

Maria Zilda não tinha mais lágrimas para juntar a tantas lágrimas, para juntar à água derramada. Duas mães unidas pela dor, pela perda, pelo desespero de ter nos braços o filho e a filha que guardaram nos respectivos ventres por nove meses, e por quem elas choraram a cada choro daqueles filhos quando ainda eram bebês, no tempo do sarampo, da coqueluche, da caxumba, das gripes constantes, das diarreias. Ás vezes, por causa do pão minguado ou pela falta de médico ou de medicamentos, tudo quase sempre faltante pelo descaso dos poderes públicos. Vidas pobres. Era tão difícil viver, mas, a esperança era um raio de sol a se libertar todo dia das nuvens carrancudas e passageiras. 

Ali estavam dois ventres de mães rasgados no seio da terra. A caixa d’água fez chorar duas famílias. Fez chorar um povoado inteiro. Uma cidade. Lágrimas e indignação. Notícia nos telejornais nacionais. Responsabilidades a apurar. Dois corpos. Duas vidas ceifadas no meio da tarde. Duas vidas que ainda engatinhavam no alvorecer da existência. Alvorecer sangrento. 

Maria Zilda beijou a face sangrenta da filha. Da filha única. Da filha que lhe fora arrancada. Da filha que nunca mais lhe tomaria a bênção. E que ela nunca mais abençoaria. 

De repente, o corpo de Doralina escorregou dos braços de Maria Zilda, que desmaiou. Socorreram-na. Duas estrelas cadentes riscaram o céu e pairaram sobre o aglomerado das pessoas daquele povoado em pranto. Dois anjos pareceram descer do céu. Depois, pareceram subir. Já não eram apenas dois. Eram quatro. E as estrelas cadentes fizeram a viagem de volta. Estavam mais brilhantes. Era evidente que quatro anjos brilhavam mais que dois. 

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