Ódio e Inveja

26/03/2018 21:18:33 por Kleber Santos em Coluna Clóvis Barbosa
Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE

François de La Rochefoucauld é um cronista moralista que viveu na França de 1613 a 1680. É dele a máxima que “A nossa inveja dura sempre mais tempo que a felicidade daqueles que invejamos”. Já existem estudos que indicam onde a inveja é processada em nosso cérebro. Segundo uma pesquisa científica, é na região do córtex cingulado anterior, ou seja, uma parte de massa cinzenta logo atrás da testa, local onde também é identificada a dor física. O estriado ventral, região do cérebro onde se processa a sensação de prazer, também opera a chamada shadenfreude, palavra alemã que dá nome ao sentimento de prazer que o invejoso experimenta ao identificar o sofrimento do invejado. Esses estudos foram desenvolvidos pelo neurocientista japonês Hidehiko Takahashi, do Instituto Nacional de Ciência Radiológica de Tóquio, sob o título “Quando a sua Conquista é a minha Dor e a sua Dor é a minha Conquista: Correlações Neurais da Inveja e do Shadenfreude”. Através de ressonância magnética realizada em 19 voluntários (dez homens e nove mulheres), na faixa etária dos 20 anos, foi possível descobrir que, ao sentir inveja, a região do córtex cingulado anterior era automaticamente ativada. Durante a pesquisa, os voluntários foram induzidos a imaginarem uma situação que envolvia outros três personagens do mesmo sexo, faixa etária e profissão idêntica às deles. Hipoteticamente, dois deles seriam mais qualificados e inteligentes. Dessa comparação é que o estudo foi desenvolvido. A partir do momento em que se fixa na pessoa a sensação de inferioridade, nasce a inveja, sentimento difuso que ninguém admite. Mas, é preciso que se diga que inveja e ódio são irmãos siameses.

A matriz da inveja está naquilo que a gente deseja, mas muito além do nosso alcance. Elisa Cintra, em Melanie Klein Estilo e Pensamento (Ed. Escuta), sintetiza: ‘Quem desdenha quer comprar’, diz o ditado: a inveja é quase sempre detectável na vida cotidiana por esse trabalho de desvalorização do outro, o que também foi narrado pela fábula da raposa e das uvas. Impossibilitada de ter acesso às uvas, a raposa começou a tecer considerações sobre a falta de valor dos frutos, o fato de estarem verdes… A inveja dirigiu-se aos frutos, isto é, à criatividade da árvore, àquilo que ela pode oferecer e criar. A ideia de ‘frutos’ permite que se lembre a inveja da obra do outro, de suas ideias, de seu trabalho e de sua capacidade de criar obras de arte ou científicas. Entretanto, a inveja vai mais longe: além de depreciar os frutos, ela tenta diminuir o prazer da própria situação de gratificação, como na expressão popular ‘não dar o braço a torcer’, admitir o poder do outro. O escritor irlandês, Oscar Wilde, dizia que A cada bela impressão que causamos, conquistamos um inimigo. O Novo Dicionário Aurélio conceitua a Inveja como o desgosto ou pesar pelo bem ou pela felicidade de outrem. Um desejo violento de possuir o bem alheio. Já o Dicionário de Psicologia Dorsch afirma que a inveja pertence aos sentimentos intencionais. É uma insatisfação, um aborrecimento com a alegria do outro. Allan Kardec, o pai do espiritismo, explicita que, com a inveja e o ciúme, não há calma nem repouso para aquele que está atacado desse mal: os objetos de sua cobiça, de seu ódio, de seu despeito, se levantam diante dele como fantasmas que não lhe dão nenhuma trégua e o perseguem até no sono.

Ciúme, inveja e ódio são sentimentos que existem desde os primórdios da civilização humana, estando a Bíblia repleta de exemplos. A inveja tem até traços físicos, como os pintados por Ovídio em As Metamorfoses, II: lábios lívidos, esquálidos e descarnados como um cão; seus olhos são vermelhos e não encara ninguém de frente. Aliás, a personificação da inveja teve como protótipo a figura da deusa Invídia. Veja a estória: a gananciosa Aglauro, filha do rei de Atenas, sentia grande ciúme de sua irmã Herse. Por isso, foi punida pela deusa Invídia e transformada em pedra mais tarde por Mercúrio. Todos conhecem a estória de Atreu e Tiestes, cujas trajetórias de traições e crimes preenchem uma lista enorme. Ainda jovens, mataram seu meio-irmão Crisipo. Adiante, Tiestes torna-se amante de sua cunhada, Aérope, levando o irmão Atreu a matar três filhos de Tiestes e a servi-los a ele numa bandeja. Para vingar-se, Tiestes, seguindo as instruções de um oráculo, emprenha a sua própria filha, gerando Egisto, que mais tarde viria a assassinar Atreu. A inveja entre irmãos é um dos temas bastante explorados pela Bíblia. Nos Livros Históricos – 2º Livro de Samuel - está a história dos filhos de Davi, Absalão, Amnon e Tamar. Absalão revoltou-se com a atitude de Amnon que, num ato insano, estuprou a própria irmã, Tamar. Isto fez com que Absalão armasse uma emboscada e matasse Amnon. Mas há quem diga que, independentemente deste fato, muito antes, havia uma briga de foice entre os dois envolvendo o criatório de ovelhas. No Livro dos Juízes, Abimeleque, para se tornar rei, mata os seus setenta irmãos de uma só vez. Enfim, o caso de Caim, que matou o irmão Abel, episódio bastante conhecido de todos.

O psicanalista Mario Quilici diz que a inveja dá-se em quatro fases específicas: (I) Primeiramente, o indivíduo olha um objeto, situação ou um traço de alguém, que imediatamente admira e compreende a importância para ele. Ou seja, vê, admira e deseja; (II) No momento seguinte, faz uma comparação entre o que o outro tem e o que o indivíduo não tem. Ele toma consciência de uma falta sua porque já discrimina. Aqui o processo cognitivo é importante; (III) Aí se dá o terceiro momento da inveja, que é a percepção – e ao mesmo tempo a vergonha – de uma falta nele do que foi admirado (e valorizado) no outro. Surge aí, também, a constatação de que aquilo que desejou é impossível de ser obtido por ele; (IV) Logo estamos na quarta e última fase: A inveja é disparada pela percepção de uma falta no indivíduo. Essa insuficiência faz com que ataque e, consequentemente, espolie o objeto invejado, para fazer desaparecer a diferença que foi percebida. Numa luta secreta e constante, aquele que se sente insuficiente tenta esconder sua vergonha de ser incapaz. Assim, procurando evitar qualquer situação que o faça sentir mais humilhado, ele ataca antes de ser atacado. Isto é, ele compete sozinho. A competição é um hábito do invejoso, pois ele tem dificuldade de receber ajuda, fazer junto e cooperar. A inveja é um dos sete pecados capitais e percorreu todas as fases da história da humanidade e encontra-se presente hodiernamente. Foi protagonista do holocausto, das teorias de Freud, da morte de Sócrates e tantos outros acontecimentos históricos. Mas, como dizia Bob Marley, tudo que me desejar de negativo, baterá no peito e voltará pra você em forma de amor e paz.
    

POST SCRIPTUM
Palavreando com Ismar Barretto
Memórias de um gordo

Eu já disse aqui que ganhei um presente que me fez conhecer, mais amiúde e intimamente, um dos maiores talentos da música sergipana. Através de um pendrive, estou compartilhando com os leitores a obra dessa fascinante figura, Ismar Barretto, que já teve a sua história contada num belo livro do escritor Marcelo da Silva Ribeiro. Entre os seus panos de bunda, encontro uma crônica muito bem construída, sarcástica e cheia de humor, denominada Memórias de um Gordo. Ei-la: A única camisa que tenho no armário que não está apertada é uma de Vênus. As outras estão que nem minhas contas: faz tempo que não fecham. Aliás, nunca entendi direito porque só engordo na barriga, nos braços, nas pernas e no rosto, mas nunca lá no “dito cujo”. Logo ele que preciso tanto. Só tenho uma explicação viável para o fato: o meu “dito cujo” come bem menos do que eu. Admito que, por causa do meu corpinho, tenho comido mais estrogonofe do que mulher. A vida é cruel com os gordos. Sério! Gordo não namora. Vira amigo. Só pra você ter uma ideia, o último brotinho que comi foi de calabresa, na Pizzaria Guanabara. É barra ‘pesadaça’. Gordo só consegue comer uma gatinha quando encara um churrasquinho na porta do Maracanã. Só pega o maior avião quando faz viagem internacional. O pior é que quando o gordo faz regime e perde uns 30 quilos, continua sem comer ninguém. As mulheres que não davam porque ele era gordo, agora não dão porque acham que ele ficou com cara de aidético. Não tem jeito. Se correr você não pega. Se ficar você não come. Sobra pro gordo comer uma vagabunda ou uma bunda vaga (aquela que ninguém come). Alias, gordo quando chega no puteiro, vira Brad Pitt. É um tal de ‘Vem cá meu fofinho’, ‘essa tua barriguinha é um charme’, ‘que pauzão que você tem’, ‘Oh God!!’. (que traduzindo quer dizer: Arrrgh!, Gordo). A única frase verdadeira que uma puta fala pra um gordo é: ‘Aí não, assim você me mata’, que geralmente é balbuciada quando o gordo está por cima. Como toda mulher sabe, gordo não faz amor, dá um amasso. Gordo não transa. Dá uma barrigada. Mas a conclusão a que cheguei depois de anos de estudo foi a seguinte: quanto mais você paga, mais magrinho você fica. Não existe regime mais eficaz do que ser rico. Eu tenho um amigo obeso que tem uma tática infalível. Não interessa se é puta ou mulher de família. Ele sempre dá um ‘presentinho’ pra moça depois do acasalamento. A ideia é simples: sempre que a moça estiver precisando de dinheiro, vai ligar apaixonada, morrendo de saudades do gordinho. O pior é que dá certo. E como!

Clóvis Barbosa escreve aos domingos, quinzenalmente.

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