Mulheres de Atenas

08/04/2018 14:36:24 por Kleber Santos em Coluna Clóvis Barbosa
Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE

Chico Buarque e o teatrólogo Augusto Boal escreveram Mulheres de Atenas, que foi tema musical da peça Lisa, a Mulher Libertadora, de autoria do segundo. Não vi nem conheço a peça, mas tudo leva a crer que trata da mesma personagem de Aristófanes, em sua comédia satírica, burlesca, obscena, mas, sobretudo, revolucionária, de nome Lisístrata, escrita em 400 AC. A este título, o tradutor acrescentou o termo A greve do sexo. Voltando à peça, o apelo é feito na música a todas as mulheres do mundo: “Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas. Vivem pros seus maridos, orgulho e raça de Atenas. Quando amadas, se perfumam, se banham com leite, se arrumam e quando fustigadas, não choram, se ajoelham, pedem, imploram. Sofrem por seus maridos, poder e força de Atenas. Quando eles embarcam, soldados, elas tecem longos bordados. E quando eles voltam sedentos, querem arrancar violentos, carícias plenas, obscenas. Quando eles se entopem de vinho, costumam buscar o carinho de outras falenas, mas, no fim da noite, aos pedaços, quase sempre voltam pros braços de suas pequenas Helenas. Geram pros seus maridos os novos filhos de Atenas. Elas não têm gosto ou vontade, nem defeito nem qualidade, tem medo apenas. Não têm sonhos, só tem presságios, o seu homem, mares naufrágios. Lindas sirenas! Temem por seus maridos, heróis e amantes de Atenas. As jovens viúvas marcadas e as gestantes abandonadas. Não fazem cenas, vestem-se de negro, se encolhem, se conformam e se recolhem às suas novenas, serenas. Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas”.

A música não fez justiça a essas mulheres. Tudo bem que elas fossem tudo isso que foi poetizado. Acredito que até mais. Aliás, em 1976, data do seu lançamento, houve acusações sérias a Chico, uma vez que a letra da música seria uma ode à submissão feminina. Buarque retrucou, justificando que a idéia era exatamente a contrária: “Eu disse: mirem-se no exemplo daquelas mulheres que vocês vão ver no que vai dar”. Mas me interessa aquelas mulheres atenienses, mesmo sendo ficção, representadas pelo texto de um dos maiores dramaturgos da Grécia antiga, Aristófanes. Através da peça “Lisístrata” ou “A greve do sexo”, usa a abstinência sexual como fator determinante do fim de uma guerra. E quem aguenta ficar muito tempo sem sexo? A coisa viaja à estratosfera e acaba por ganhar a tonalidade da escuridão. Mas, também, burrice tem que ser tratada com brutalidade. Enquanto a grande ameaça para as cidades-estado gregas (Atenas e Esparta) estampava a bandeira Medo-Pérsio, os patetas pelejavam entre si. Foi necessário que uma ateniense, de nome Lisístrata, conclamasse todas as mulheres gregas a fazerem uma greve de sexo, forçando seus maridos a suspenderem a batalha. Deu certo. Mas antes ela teve que demonstrar todo o seu talento. Em um diálogo com um comissário, chamado pelo Corifeu-Velho para interrogá-la sobre a inusitada rebelião feminina, Lisístrata discursa: Trancamos as portas da Acrópole prá dominar o tesouro. Onde está o tesouro está o poder. Sem dinheiro não há guerra. O dinheiro que é usado na guerra, falta na paz. Por isso a guerra é opulenta e a paz é miserável. Pisandro, o oligarca, vive pregando mil rebeliões, e a cada uma aparece mais rico e mais potente. Pois resolvemos acabar com isso. Nem mais uma dracma do povo será gasto na guerra.

Lisístrata teve um trabalho árduo para colocar em prática a sua revolução sexual. Primeiro, fez uma lavagem cerebral nas mulheres, que até então viviam entornadas nas festas de Baco, nos usuais bacanais. Foi um trabalho diuturno de persuasão, mostrando a necessidade de se deixar por um tempo os prazeres para se dedicarem aos interesses da comunidade. E delas próprias, pois as ausências dos pais de seus filhos duravam muito tempo, isso quando voltavam vivos das guerras. Pacto fechado, perante Afrodite juraram: Eu não deixarei que nenhum homem do mundo, marido, amante, ou mesmo amigo, se aproxime de mim de membro em riste; se for tentada, reagirei, me transformando na própria tentação; me farei provocante, usando minha túnica mais leve, pra que meu homem se queime no fogo do desejo, mas jamais me entregarei a ele voluntariamente; e, se abusando da minha fraqueza de mulher, quiser me violentar, serei fria como o gelo, não moverei um músculo do corpo, nem mostrarei ao teto a sola das sandálias, nem o ajudarei me botando de quatro como as leoas dos relevos assírios; e porque manterei meu juramento, me seja permitido provar desta bebida. Todas beberam do vinho e selaram o compromisso. A segunda parte do plano, então, foi concretizada. Invadiram a Acrópole e expulsaram os burocratas, ocupando todo o prédio. A terceira, era a de convencer as mulheres de Esparta, ao tempo, também, que se livravam dos velhos e do seu Corifeu.

Ainda no diálogo com o comissário, Lisístrata dá uma aula de política: se vocês tivessem um pouco mais de bom senso, iriam, como nós, buscar as grandes soluções nas coisas simples. A tecelagem é uma lição política. Quando pegamos a lã bruta, o que fazemos primeiro é tirar dela todas as impurezas. Pois faremos o mesmo com os cidadãos, separando os maus dos bons a bastonadas, eliminando assim o refugo humano que há em qualquer coletividade. Aí pegamos os que vivem correndo atrás de cargos e proventos, e os classificamos como parasitas do tecido social.

O curioso na comédia é que, à época, para incentivar o crescimento da população ateniense, o governo estimulava os cidadãos a terem vários filhos com mulheres diferentes, o que seria crucial para as autoridades e população masculina, se a ficção tivesse sido realidade. Mas, diferentemente das greves dos dias de hoje - essa presepada de burgueses anticapitalistas - Lisístrata, na sua insurreição, criou o matiz da paz. Ou para se ter amor é preciso ter paz. Todos deveriam lê-la para entender que quem não dialoga perde. E vendo e conhecendo Lisístrata, pensarão menos na escuridão da guerra e mais na brancura do amar. 


POST SCRIPTUM
Palavreando com Ismar Barretto
Fonsecão Chifre de Ouro

Continuo compartilhando com todos vocês o humor de um dos mais talentosos artistas sergipanos. Sigo palavreando com Ismar, mostrando a Sergipe um pouco mais do que já se disse dele e também do que produziu em vida. Ele não deixou somente um monte de música guardada, mas artigos, crônicas, pilhérias, piadas (homofóbicas?), tiradas, sarros e muita, muita provocação. Dizem que Hemingway, quando viveu em Paris, nos anos 20 do século passado, odiava gente chata. Ele tinha uma frase certa para essas figuras: - Me larga, cara! Você não dá para andar com Ernest! Ismar era diferente, adorava um chato, pois era uma vítima ideal para os seus chistes e gozações. O chato é que odiava andar com Ismar. O saudoso escritor e jornalista baiano-sergipano Cleomar Brandi dizia que Ismar é rima, quem sabe solução. É resistência musical, muralha e pó, mar, salitre e sertão. Hoje, apresento mais uma obra inédita de Ismar, escrita, conforme anotação no final da crônica, em 22 de março de 1989, sob o título “Fonsecão Chifre de Ouro”: “Fonsecão vendeu uns terrenos que tinha à beira mar pra se ver livre dos passeios dominicais com a ‘patroa’ e as crianças, pois lhe cortava o barato das suas conquistas pela praia. Comprou para ela um Karmanghia conversível, vermelho Michigan, a coisa mais linda. Segundo ele, uma teteia. Pronto. Tava livre. Um belo dia, Fonsecão encontra com o Betão, no Bar do Gordo, ali na Praia dos Artistas e já começa a mandar uma das suas: ‘- Pô cara... nem lhe conto! Comi um prato que num tá no gibi! Loura, elegante paka, papo meio besta, mas eu não janto papo, né? Precisava ver o tamanho do Boing. Cara...!!! Aí me mandei logo pro matadouro (ele se referia, mui poeticamente, a um motel) e subi aquela rampa na maior fissura, com aquela dor de barriga nas pernas, e depois cê já sabe, né...? Foi quatro de cara...! ’ O resto, o ilustre leitor já sabe. É o que (quase) todos contam. Depois contou duma morena, duma ruiva, duma negra, duma sueca, o skambau. E tome caipirinha, cerveja, amendoim, queijo assado. Aí, o Betão, cansado de só escutar, mandou também uma das suas: ‘- É, Fonsecão...! Você é demais. É o cão chupando manga com aratu! Eu vou mais devagar. Deixe eu lhe contar uma. Tô em Salvador, ali na Barra dando um bordejo, (papo de Sergipano na Bahia sempre começa na Barra) me surge uma coroa. Grannnnnde coroa! Aí cê sabe. Comigo, ajoelhou tem que rezar.’ E o Betão contou o diabo que tinha feito com a coroa. Garganta Profunda era programa educativo da TV Aperipê. ‘-Bom, a folia foi até as cinco da manhã. Ainda me levou pro hotel no carro dela. Um Karmanghia conversível vermelho. Lindão o carango da coroa! E olhe a coincidência... placa de Aracaju!!!’"
 
Clóvis Barbosa escreve aos domingos quinzenalmente                                        
 
 
 

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