Pregos e Cacos de Vidro

20/05/2018 18:48:55 por Kleber Santos em Coluna José Lima
José Lima Santana
Professor da UFS

Manoel Vaselina, mais escorregadio do que muçum, do que gosma de quiabo e sei mais lá o quê, não sabia em quem votar nas eleições que se aproximavam. Quando perguntava “Manoel, em quem você vai votar?”, ele coçava a cabeça, cuspia longe e respondia: “Home de Deus, sabe que eu num sei? Oio prum lado, vejo prego; oio pro outro, vejo caco de vidro. E assim, portanto, vou ficando em riba do muro”. Era um sábio. Nunca, jamais, desagradava ninguém. Era firme em não declarar o voto. Fosse qual fosse a eleição. 

Naquele ano, a eleição era geral, ou seja, para todos os cargos federais e estaduais. Isso foi lá nas quebradas de mil, novecentos e cinquenta e tantos. A UDN bufava para um lado e o PSD bufava para o outro. Tudo apontava para uma eleição demasiadamente esquentada. Como se alguma eleição em Brejão dos Ventos tivesse sido ao menos morna, porque fria nunca haveria de ser. Eleições quentes sempre foram as do Brejão desde que o município se separou de Pedra Azul, cidade que já tinha dado dois deputados federais, quatro estaduais, um senador e dois vice-governadores. “Qualquer dia desses, vamos ter daqui destas terras brabas um presidente da República”, vivia a gozar Pedro Palito, o carpinteiro mais hilário do hemisfério sul, dos trópicos tristes e pobres. 

Naquele ano, um sujeitinho de Brejão dos Ventos, que tinha virado um cheira-peidos de Jardelino Mão Seca, primeiro prefeito do lugar, e, com isso, fora agraciado com um cargo federal de fiscal não sei bem de quê, andava dando com a língua nos dentes e afirmando que seria candidato a deputado estadual pelo Partido do Dr. Getúlio, que, fazia poucos anos, tinha passado desta para melhor, dando ele mesmo um tiro lá no peito dele. Dizia-se que o sangue jorrou do seu peito como se um riacho fosse. O pai dos pobres se foi, mas, tinha deixado um magote muito grande de admiradores, dentre eles o tal sujeitinho, que atendia pelo nome de Jerônimo Rosas de Oliveira e pelo apelido de Jero Dente de Ouro.

Trabalhando na capital, não sei lá em qual repartição federal, Dente de Ouro passou a ir a Brejão dos Ventos todo fim de semana. De bodega em bodega, pagava cachaça para quem quisesse uma bicada. E bons de bico por ali não faltavam, sempre prontos para uns goles de água que passarinho não bebia. As pessoas começavam a falar em votar no sujeitinho. Pelo menos uma meia dúzia ou mais de votos ele haveria de obter por ali. 

Num dos fins de semana em que Dente de Ouro andejou pelo Brejão, eis que deu de cara com Manoel Vaselina, seu amigo de infância, nascidos e criados na mesma rua tortuosa, empoeirada ou lamacenta, a depender da estação do ano. Era a Rua do Cavaco, que, lá no seu final, abrigava uns casebres de atividades suspeitas, em cujas frentes as mulheres de bem não se atreviam a passar. Ah, foi uma festa, o encontro de Dente de Ouro e Vaselina! Festa para o primeiro. Já para o segundo, um aperto de mão morno e um sorriso cabreiro. “Tu já sabe, Manoel, meu irmão, que eu sou candidato a deputado?”, indagou Dente de Ouro, em cuja dentadura superior faiscava um belo dente de outo maciço do tempo em que ele andou pelo Rio de Janeiro, tocando zabumba no Trio Sabiá, nos baixios do mangue. 

Manoel Vaselina, barbeiro de maquininha enferrujada, de tesoura e pente, mas, sobretudo, de língua afiada, respondeu: “Não me diga! Pois não é que ninguém ainda não me tinha dito tão monstruosa notícia! Então, tu vai ser deputado?”. E Dente de Ouro retrucou: “Vou ser, não, meu amigo! Pelo que estou sentindo dos eleitores, já posso comprar o terno da posse. É eleição garantida. E mais garantida ainda porque eu sei que posso contar com o voto do amigo”. 

Manoel Vaselina, o que sempre estava em riba do muro, olhando para os lados, onde havia pregos e cacos de vidro, de um e de outro lado, apontou o dedo indicador para o amigo de infância e disse: “Você vai me sair um grande deputado. De tanto cheirar os peidos de Jardelino Mão Seca, há de precisar de um cheira-peidos seu próprio. E aqui estou eu para lhe servir. Cheirarei com gosto. Vá que eu me eleja, um dia, pelo menos vereador. Conte comigo”. 

Dente de Ouro soltou uma baita gargalhada, daquelas de acordar urubu com sono. “Você num tem jeito mesmo, Manoel. Continua o mesmo Vaselina”, disse o pretenso futuro deputado. 

Chegou a eleição. Dente de Ouro obteve trinta e dois votos em Brejão dos Ventos. Em todo o estado, foram sessenta e oito votos. Um fracasso. Ele passou um ano sem pisar os pés na terra natal. Ao cabo disso, compareceu ao enterro de um tio nonagenário. No cemitério sem muros da cidade, encontraram-se Dente de Ouro e Manoel Vaselina. “Olá, Jero! Que pena, que você não conseguiu a eleição. E eu que esperava ser o seu cheira-peidos e virar vereador com o seu apoio! Você naufragou e eu fiquei a ver navios”. Dente de Ouro respondeu meio desalentado: “Volte pro seu muro. E, de lá de cima, veja se tu mesmo é um prego ou um caco de vidro. Eleitor é bicho mais manhoso do que político, Manoel. Não é atoa que tu se chama Vaselina. E um cabra escorregadio como tu num serve nem pra cheirar peidos de políticos”. 

Na verdade, Manoel Vaselina não votou mesmo não em Jero Dente de Ouro. Não votou em ninguém. Eram muitos os pregos e os cacos de vidro. 

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