O acaso do acaso

27/05/2018 13:43:00 por Kleber Santos em Coluna Clóvis Barbosa
Clóvis Barbosa
Blogueiro e Conselheiro do TCE/SE

Em 1727, ou 1729, numa noite fria de sexta-feira santa, Leipzig, uma pequena cidade alemã, situada na região da Saxônia, iria testemunhar a apresentação da obra de Johann Sebastian Bach, Paixão Segundo São Matheus, que tratava do sofrimento e a morte de Cristo. A Igreja de São Tomás estava repleta e curiosa para ver e conhecer mais uma obra daquele que era um homem dos sete instrumentos da música erudita da cidade. Bach foi compositor, cravista, regente, kepellmeister, organista, professor, violista, kantor e violonista, mas nunca reconhecido fora dos limites de sua cidade. Muitos deixaram a igreja antes do término do espetáculo e o pequeno público que ficou até o final aplaudiu com cara enfadonha. Também, com mais de três horas de duração, tinha que ter muita paciência para aguentar as duas partes da peça, constituídas de 68 números alternados por coros, recitativos, ariosos, árias e corais. A obra teve mais algumas revisões e duas ou mais apresentações, sem qualquer repercussão. Mais uma vez ficava constatado que santo de casa não faz milagres. Bach morreu em 1750 sem ver qualquer reconhecimento ao conjunto do seu trabalho musical. Em 1829, 79 anos após a sua morte, o compositor, pianista e maestro alemão Felix Mendelssohn, o grande autor da suíte Sonho de uma Noite de Verão, interessou-se pela composição de Bach, tendo-a apresentado em Berlim uma versão abreviada da obra. Foi um sucesso estrondoso de público e de crítica. A partir daí a vida musical de Bach passou a ser escarafunchada, sendo descobertas extraordinárias peças de sua autoria, como O Cravo bem-Temperado, A Arte da Fuga, Concertos de Bradenburgo e tantas outras, que o levou ao patamar de o maior nome da música barroca de todos os tempos. E qual a lição de moral desse exemplo? É que nada foi planejado e o sucesso de Bach adveio de um acaso. 

Em 1968 a França era presidida por Charles De Gaulle. Um pequeno incidente sem maiores preocupações ocorreu na Universidade de Paris, em Nanterre, cidade próxima da capital francesa. Ao invés de dialogar com os estudantes, a direção da escola resolveu radicalizar com a meninada. Não deu outra, a reação foi violenta e daí iniciou-se uma série de conflitos no campus. Com os nervos à flor da pele, a administração resolveu fechar a escola e começar um processo de caça às bruxas para expulsar os líderes da insurreição acadêmica. Resultado: as medidas adotadas pelos dirigentes universitários resultaram numa das maiores ondas de protestos ocorridas em Paris, liderada inicialmente por estudantes da Universidade de Sorbonne, uma das mais tradicionais e respeitadas escolas do mundo, que de uma simples reivindicação, por reformas no setor educacional, culminou com uma greve de operários que teve a participação de mais de 9 milhões de pessoas. As chamadas passeatas de maio de 1968, com as suas barricadas, repressão violenta do aparelho policial, batalhas campais, e participação ativa da população, colocou Paris em pé de guerra. A vida parisiense só voltou ao normal a partir da renúncia de Charles De Gaulle à presidência e as eleições convocadas para o mês subsequente, junho de 1968. O simbolismo representado por maio/68 é o de que o mundo mudaria completamente a partir daquele momento. Aquele foi o ano que não terminou e que teve uma grande influência nos movimentos de transformação social que varreram a humanidade, ora avançando, ora retroagindo. A verdade é que tudo aquilo poderia ser evitado acaso a linguagem e a argumentação preponderassem entre o Reitor da Universidade de Paris e seus estudantes. Muitas vezes, no entanto, como foi maio/68, o acaso veio contribuir para um acontecimento que viria revolucionar o mundo contemporâneo.

Em 1922, um grupo de artistas brasileiros resolveu iniciar um movimento que propunha uma nova visão de arte, “a partir de uma estética inovadora inspirada nas vanguardas europeias”. Comemorávamos o centenário da Independência quando o poeta, escritor, crítico literário, musicólogo, folclorista e ensaísta Mário de Andrade, o grande autor de Pauliceia Desvairada, junto com outros intelectuais, sem maiores intenções, fazia surgir um dos acontecimentos que revolucionaria o cenário cultural brasileiro e que ficou conhecido como a “Semana da Arte Moderna”. Realizada no Teatro Municipal de São Paulo, entre os dias 11 e 18 de fevereiro de 1922, tinha como características a ausência de formalismo, a ruptura com o academicismo e tradicionalismo, crítica ao modelo parnasiano, influência das vanguardas artísticas europeias, ou seja, com o futurismo, cubismo, dadaísmo, surrealismo e expressionismo, valorização da identidade e cultura brasileira, fusão de influências externas aos elementos nacionais, liberdade de expressão, aproximação da linguagem oral, com utilização da linguagem coloquial e vulgar e a exploração de temas nacionalistas e cotidianos. Resumindo, a Semana de 22 constituiu-se no início da consolidação do modernismo em nosso país, rompendo completamente com os eventos anteriores. Evidente que o acontecimento chocou grande parte da população e o academicismo existente nas discussões artísticas até então. Para Di Cavalcante, um dos idealizadores dessa festa, seria uma semana de escândalos literários e artísticos, de meter os estribos na barriga da burguesiazinha paulista. Mas nem tudo foram flores. A Semana de 22 sofreu forte reação de setores da inteligência brasileira de então, a exemplo do manifesto furibundo de Monteiro Lobato, e mesmo assim a Semana de Arte Moderna tornou-se um dos marcos mais importantes da história cultural brasileira. Um acontecimento sem maiores ambições que se transformou numa revolução.

Em 1956 um grupo de jovens fundava uma banda de rock na cidade de Liverpool, Inglaterra, com o nome de Silver Beetles. Eram eles: John Lennon (guitarrista e vocalista), Paul Mc Cartney (baixista, compositor e vocal), Ringo Starr (baterista) e George Harrison (guitarrista e vocalista). Mais tarde, a banda mudaria o nome para The Beatles e, a partir de 1960, uma verdadeira revolução tomou conta do mundo. Estava implantada uma nova forma de interpretar. As letras com temas marcantes e o estilo visual agradaram os jovens, influenciando todo o planeta. Ainda hoje, suas músicas são reverenciadas por todas as faixas etárias, numa prova cabal da supremacia do talento que nasce sem maiores pretensões. Para se tornar o mais bem-sucedido e aclamado grupo da história da música popular, foram agregados ao simbolismo representado pelos meninos de Liverpool os ideais de um mundo revolucionário e de transformação. E realmente a sua influência foi intensa nos movimentos sociais e culturais a partir da década de 60. O surgimento desse fenômeno chamado de The Beatles foi tão importante que os seus membros foram coletivamente incluídos na compilação da revista Times das 100 pessoas mais importantes e influentes do século XX. O que estou tentando demonstrar com esses exemplos é que os fatos ocorridos nem sempre são motivo de nossa aspiração. Eles acontecem, muitas vezes, pela conjunção de vários elementos influenciadores, conhecidos e desconhecidos, sentimentos bons ou maus, que se apossam dos nossos momentos. A rivalidade criativa entre John Lennon e Paul Mc Cartney, por exemplo, durante os anos da beatlemania, rendeu as mais belas músicas da discografia da banda. A vida é assim, cheia de encontros e desencontros. Um dia sofremos perdas, doenças, em outro, usufruímos conquistas, alegrias. O importante é aprender a suportar aquilo que não podemos evitar.  

A bossa nova foi um movimento musical que surgiu no Brasil na segunda metade dos anos 50 do século XX. Na década de 60 fez muito sucesso nos Estados Unidos. Os estudiosos consideram sua batida como uma mistura do jazz norte-americano, do samba, choro, blues e a moda de viola. A sua principal característica é o ritmo calmo e suave, músicas cantadas em tom baixo, como se fosse uma fala ou uma narração. João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Moraes são considerados os pais desse ritmo que revolucionou a música popular brasileira. Um dos grandes hits da bossa nova é uma canção composta em 1956 por Vinícius de Moraes e Tom Jobim, Chega de Saudade, que após passar por vários intérpretes consagrou-se na voz de João Gilberto, um baiano de Juazeiro que estudou em regime de internato numa escola aracajuana. Era um homem excêntrico. Foi retratado no livro Ho-ba-la-lá, do alemão Marc Fischer, como uma pessoa que desde jovem tinha dificuldades em cumprir acordos financeiros, vivia com dores de dente e perdia empregos por não respeitar horários. O fim de vida de João Gilberto não tem sido fácil. Recentemente, foi despejado do apartamento onde vivia e foi morar de favor em outro local. Ao lado disso, uma dívida impagável com um produtor, com um banco e com seu ex-senhorio. Isso tudo nos leva a refletir sobre as barreiras que temos de ultrapassar no dia-a-dia. Os ventos favoráveis e desfavoráveis na vida de João Gilberto são frutos do acaso? Segundo Maquiavel, metade de nossas ações é guiada pela fortuna, metade pela virtù. A fortuna é o acaso, a sorte, o azar, o fato positivo ou negativo. A virtù significa o agir de forma viril, varonil, determinada. Explico: metade do que somos se deve à sorte ou azar, à fortuna ou ao infortúnio. A outra metade depende de nossas ações, do nosso empenho. Estamos, portanto, dependendo diuturnamente do embate entre o acaso e a razão. A questão é saber quem vai ser o vencedor nesse duelo.     

Clóvis Barbosa escreve aos domingos, quinzenalmente.

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