O Painel de Porto da Folha: Além dos traços e das cores

27/05/2018 14:18:19 por Kleber Santos em Colunas
José Paulino da Silva
Professor Emérito da UFS

Há cerca de duas semanas fiquei sabendo pelas redes sociais e agora, mais recentemente pela imprensa sergipana que o padre Melchizedeck, atual pároco da Igreja de Porto da Folha, município mais antigo do sertão sergipano, está querendo destruir um painel existente no fundo do altar-mor daquela Igreja.  O painel, datado de 1970, é de autoria do franciscano Frei Juvenal Vieira Bomfim. A obra de arte retrata a vida laboriosa do povo sertanejo: vaqueiros tangendo o gado, homens carreando carro de bois, outros trabalhando na enxada, mulheres fazendo renda, pessoas trabalhando em lagoas de cultivo de arroz, professora dando aula. Cenas da vida interiorana que tem como centro a representação do Espírito Santo e Jesus com o seu Coração Santo e Amoroso. Enfim, o artista traduziu com muita beleza uma importante ideia: Igreja, mais do que quatro paredes, é o povo de Deus que caminha em meio aos seus afazeres cotidianos e assim constrói um mundo melhor. 

O contexto histórico em que aquela obra foi feita, início da década de setenta, era um dos momentos em que a Igreja Católica se encontrava mais engajada na defesa do povo pobre e oprimido da América Latina. Com a realização do Concilio Vaticano II (em 1962) e a Conferência Episcopal dos Bispos da América Latina, ocorrida na cidade de Medelín (Colômbia) em 1968, a Igreja Católica consolidou  sua pregação e sua prática pastoral focada na opção preferencial pelos pobres. Esta opção acarretava um profundo compromisso transformador para o cristão como membro mais atuante na sociedade em que vivia. Como diz Leonardo Boff “para o cristão não é suficiente a pura fé, mas a fé que se mostra libertadora das servidões aqui na Terra”.

Em nenhuma época da história da Igreja desde o descobrimento das Américas, esta instituição religiosa reuniu em suas fileiras tantos bispos e padres comprometidos com a defesa do povo pobre e oprimido do continente latino americano. Dom Helder Câmara (PE), Dom Evaristo Arns (SP), Dom José Maria Pires (PB, Dom Pedro Casadaglia (TO), Dom Fragoso (CE), Dom José Vicente Távora e Dom José Brandão, ambos de Sergipe, são alguns nomes do episcopado que acreditavam e pregavam que a salvação do cristão não é assunto para depois da morte. A salvação começa com a libertação de tudo aquilo que o oprime aqui na Terra.

O painel em questão permite que se veja além de suas formas e suas cores. Segundo analistas, aquela obra artística traduz toda uma época de efervescência da Igreja inspirada nas Comunidades Eclesias de Base. Na década de 1970, o governo brasileiro mantinha com mãos de ferro uma forte repressão coa o povo e seus líderes populares. Era um período nebuloso que envolvia numa espécie de manto de trevas, a sociedade com suas instituições. Neste período, as dioceses daqueles bispos corajosos tornaram-se fortalezas de esperança para os que eram perseguidos. A diocese de Propriá fazia parte da ala corajosa e atuante da Igreja Católica do Nordeste. Quantas vezes o bispo Dom Brandão se posicionou firmemente em defesa da justiça social e dos direitos humanos do seu povo! Quero crer que os religiosos que pretendem demolir o painel não estejam devidamente conscientes da história de luta do povo daquela diocese na qual se insere a Igreja de Porto da Folha.

É de se perguntar: Naquele ano em que o painel veio à lume, onde estariam estes religiosos que querem destruí-lo? Mas, certamente, fizeram seu curso de Teologia como exigência de sua formação seminarística. Tanto o padre quanto o bispo, quando estudaram Direito Canônico devem ter aprendido que, uma paróquia não é propriedade de um pároco e nem a diocese é propriedade de um bispo. O painel da Igreja de Porto da Folha, portanto, não é propriedade do padre Melchizedeck, nem  pertence ào bispo Vitor Menezes. Trata-se de um bem material e imaterial que constituiu um patrimônio histórico-cultural do povo de Porto da Folha.

Afinal, por que querem destruir o painel? Informações que têm chegado até ao meu conhecimento, querem destruir o painel porque não gostam daquela pintura. Melhor dizendo, não concordam com a mensagem explícita nas imagens ali contidas. Destruir uma obra de arte porque não concordam ou não gostam de sua mensagem é um péssimo exemplo de obscurantismo. Uma ofensa grosseira à história da fé comprometida de um povo que teve à frente um bispo respeitado como Dom |José Brandão. Imaginem se cada papa que não concordasse ou não gostasse de alguma obra de arte da Capela Sistina mandasse destruir aquela obra, por exemplo, o painel do Juízo final!

A destruição do painel da Igreja de Porto da folha, não é uma querela paroquial que acabará se o painel for extinto. Se tamanha ofensa ao povo de Porto da Folha vier a se concretizar, o que não acredito que aconteça, esta atitude dos eclesiásticos abrirá um profundo fosso entre eles e o povo da região sertaneja, incluindo os fiéis da diocese de Propriá. Não há castigo pior para um pastor do que sentir-se só em meio ao seu rebanho!

Aprendi com minhas leituras sobre problemas que afetam a vida dos padres e bispos, que se eles não tiverem a humildade e a coragem de caminharem junto ao seu povo, mais cedo ou mais tarde a solidão virá ao seu encontro. Cairão no ostracismo que pode leva-los ao vazio espiritual e a outros problemas de degenerescência humana. Por uma questão de humanidade e de piedade cristã torço para que esta município de Porto da Folha, o Conselho de Cultura e o Departamento de Patrimônio do Estado, o Departamento de História da UFS, cada um dentro de suas competências se somem para salvar o painel em questão. E assim ajudem a estes religiosos a remover suas decisões, deixando intacta aquele painel, que pertence ao patrimônio cultural, histórico do povo de Porto da Folha.

Doutor em Filosofia e História da Educação

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