A Greve dos Carroceiros

03/06/2018 18:22:51 por Kleber Santos em Coluna José Lima
José Lima Santana
Professor da UFS

Cidadezinha diminuta, de vidinha besta, sonolenta, devagar quase parando. Todavia, os seus habitantes eram orgulhosos do seu berço natal. Chapadão das Onças, eis o nome do pequeno burgo. Trinta anos de vida autônoma, separada do município de Barro Preto, cidade que tinha até cinema naquelas lonjuras do sertão brabo. Um progresso e tanto! Em Chapadão das Onças, onde não se via onças há mais de um século, talvez, o novo prefeito, Miguelzinho de João Pururuca, herdeiro, como vice-prefeito, do mandato da prefeita Doralice Ancas Duras, casada com o dono da padaria da cidade, mas, que deixou marido e filhos para fugir com um caixeiro-viajante, largando também, claro, a Prefeitura Municipal. Paixão tresloucada, nascida de uma troca de olhares no meio da rua. Diziam as más e soltas línguas que o então vice-prefeito, amigo do tal caixeiro-viajante, teria sido o alcoviteiro do namoro proibido e da fuga da prefeita, dado o seu olho gordo em cima do cargo de prefeito, que ele acabaria herdando. 

Miguelzinho de João Pururuca viúvo pela segunda vez, era casado de novo com Marsitela de Zé Gordinho, uma loiraça de parar o trânsito e de fazer o vento dar voltas e vira voltas. Vereador há seis mandatos, ele conseguiu a vaga de vice-prefeito na chapa de Doralice, após gestões do seu partido, comandadas pelos vereadores Zito Cunha, Madureira Franco e Zé de Chico Padilha. Um trio de velhacos da política local. Doralice nunca se deu bem com Miguelzinho, que sempre foi um sujeito ardiloso, ao passo que ela era ruim de tanger. E como diz o povo, dois bicudos não se beijam. A prefeita e o vice não se beijavam. 

Pouco tempo depois que assumiu o comando da Prefeitura, Miguelzinho viu-se cercado de denúncias junto ao Ministério Público da Comarca de Barro Preto. Compras superfaturadas de rapadura para a merenda escolar, abastecimento com óleo diesel no trator do sogro do novo prefeito por conta da pobre viúva, bem como o fato de um assessorde Miguelzinho, J. B. Lima, cabo reformado da briosa Polícia Militar, que andou com uma sacola de dinheiro, arrotando nos bares que era um presente do empreiteiro Marcelo Odevaldo, que tinha feito o calçamento de algumas ruas da cidade. E outras patifarias mais que foram denunciadas. O prefeito vivia na corda bamba.

Segunda-feira. O dia amanheceu afogueado. Desde cedo, o sol fazia estripulias. O padre Justino terminou mais cedo do que de costume o seu banho de sol matinal, para carregar de vitamina “d” a bateria do corpo já meio gasto pela ação do tempo. Anabela do finado Zuza de Martinho Chega Mais desde cedo esperava a carroça do lixo, para coletar umas palhas de bananeira, que ela tinha cortado na tarde anterior. Esperou em vão. Oito horas. Nove horas, Dez. Onze. O quengo de Anabela fervia. Por onde andaria Nando Carroceiro, contratado, com outros três, para recolher o lixo da cidade? Dia sim, dia não, ele nunca faltava, nem chegava com muito atraso. Alguma coisa teria acontecido. A mãe dele, Dona Catarina, não andava bem de saúde. Teria esticado a canela?

Na Rua do Carrapicho, Andrade de Figueirinha esperava a entrega de dois toneis de água. A cidade não tinha água encanada. A água era vendida pelos aguadeiros e era transportada por alimárias carregadas com ancoretas, ou transportada por carroceiros, que entregavam o precioso líquido, barrento no verão, em pequenos toneis de matéria plástica, contendo cem litros cada um. Nada da água esperada. 

Dona Julinha, mãe de André Buliçoso, fiscal da Prefeitura, tida e havida como a melhor doceira da cidade, cuja cocada-puxa e os manauês de milho, macaxeira e arroz eram iguarias de festejada finura, esperava a entrega de uma carrada de lenha. Ah, tornando aos doces, e o que dizer das saquaremas, que se desmanchavam na boca? E das queijadas? Manjares dos deuses. Deu meio-dia, mas, nem sinal da lenha, que seria transportada por Cidinho Carroceiro. A filha de Dona Julinha esperou em vão, enquanto a mãe estava na feira, vendendo preciosidades. 

Ora, por onde andavam os carroceiros de Chapadão das Onças? Estariam em greve? Greve de carroceiros? Onde já se viu? Pois estavam, sim. E o estopim da greve foi um ato do prefeito Miguelzinho. Com licença dos leitores, uma cagada contra as cagadas.

No Sertão dos Angicos, Chapadão das Onças era conhecida como a cidade das carroças. No calendário municipal tinha até o Dia dos Carroceiros, instituído através de um projeto de lei do vereador Humberto de Altamiro da Carroça. 

O prefeito Miguelzinho de João Pururuca baixou um decreto obrigando os carroceiros a colocarem uma espécie de fralda nos animais que puxavam as carroças. Os cavalos e muares sujavam em demasia a cidade. Era um montão de carroças transitando para lá e para cá. Tudo, ou quase tudo, era transportado pelas carroças. A loiraça primeira-dama, terceira mulher de Miguelzinho, de sapato novo, atolou-se numa ruma de cocô de cavalo. Ou de muar, sabia-se lá! A primeira-dama azucrinou a cabeça do marido. Daí veio o malfadado decreto. E pior, bem pior, foram as faixas colocadas na Praça da Matriz, na Praça do Camaleão e nas Ruas do Melão e das Porteiras: “Carroceiro Sujão Não Tem Vez no Chapadão”.Greve.

Segunda-feira. Dia da feira semanal. Água potável, lenha, material de construção, bois abatidos para a feira, frutas e hortaliças etc. Tudo era transportado pelas carroças. A feira estava quase vazia de produtos para a comercialização. Nem as bancas, em grande número, estavam armadas. Um fuzuê na cidade. Lá pelas tantas da manhã, por volta das onze horas, o prefeito decidiu ouvir os carroceiros. As pressões eram grandes por parte de todos os segmentos. A fala do prefeito foi desastrosa. Ameaçou confiscar as carroças paradas. Defendeu o direito da primeira-dama de percorrer a cidade sem ter que sujar os sapatos em cocô de animais. Acionaria a polícia para fazer as carroças voltarem aos fretes. Cosme Corcundinha quase pegou na abertura do prefeito. Foi um bafafá danado. 

A roda de conversa nada rendeu. Ao contrário, acirrou mais ainda os ânimos. Na cidade inteira o povo zombava da autoridade municipal. “Onde já se viu botar um calçolãonos animais?”, indagavam as pessoas nas ruas. Só mesmo na cabeça de Miguelzinho de João Pururuca. Os grevistas não arredaram o pé da paralisação. Não queriam servir de chacota nas outras cidades. A tarde findou. A greve ganhou mais adeptos. Carroceiros dos povoados mais próximos chegaram para dar um adjutório aos companheiros. O padre Justino Freire apoiou o movimento paredista. Aos poucos, as pessoas, homens e mulheres, iam ficando ao lado dos grevistas. Colocar um calçolão nos animais deporia contra os seus direitos. Animais também os tinham. A Liga Fundamentalista em Defesa dos Animais foi acionada, na capital. Um telegrama chegou à mesa da presidente Maria Nazária A. Rocha, que, de pronto, berrou numa entrevista na Rádio Cocota: “Vamos botar um calçolão é na cabeça desse prefeitozinho desmiolado”. 

A greve, enfim, duraria quine dias. O decreto foi revogado e a primeira-dama procuraria ter mais cuidado, doravante, para não pisar onde não devia. 

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