O encontro

17/06/2018 09:29:26 por Eugênio Nascimento em Coluna José Lima

José Lima Santana - Padre, advogado e professor da UFS

 
Kleber Jordão, mais conhecido como Cara de Bunda e Bolo Fofo, presidente do Clube do Norte, era metido a ditador. Mandava e desmandava no Clube sem ouvir ninguém. E, ainda por cima, desafiava o outro clube da cidade, o Clube do Sul. Os dois presidentes não se davam. Muitos torcedores dos dois clubes almejavam a unificação, para, assim, poder fazer frente aos adversários de outras cidades. A união seria benéfica para a cidade, para as pessoas, mas Cara de Bunda era belicoso e não admitia que os seus sócios devidamente filiados sequer opinassem sobre a unificação, sob a pena de expulsão ou algo muito pior. Os torcedores não filiados arriscavam dar palpites nas redes sociais. Na presença de Kleber Jordão, silêncio. Manifestavam-se anonimamente. Temiam as reações de Cara de Bunda.

O presidente da federação de clubes, denominada União Sportiva Alvorada (USA), Daniel Trampo, chegou a ameaçar Kleber Jordão de varrê-lo do mapa dos esportes, caso ele não parasse com o estado de belicosidade contra o Clube do Sul e outros clubes das cidades circunvizinhas. Trampo era tão ou mais truculento do que Kleber Jordão. Eram, por assim dizer, farinha do mesmo saco. E que péssima farinha! O maluco do Cara de Bunda soltou umas bombas que assustaram os adversários. Bombas verborrágicas para fazer pirraça contra todos, mas, sobretudo, contra Daniel Trampo. E este, mais doido ainda, tuitou ameaças e maldições contra Kleber Jordão. Durante vários dias, os dois bateram boca, ao longe. Se os dois estivessem frente a frente, cada um com uma faca afiada na mão, certamente um cortaria a língua do outro, se pudesse. Eram, sim, dois sujeitos ruins de tanger, como jegues amuados.

O dono da empresa Ginga Pura, amigo de ambos, tomou a iniciativa de oferecer a sede da sua empresa para um encontro dos desafetos. As redondezas não acreditavam na realização do encontro. Demasiadas eram as divergências entre os dois malucos. Umencontro entre ambos poderia resultar em duas mortes, nem que fossem motivadas pela raiva. Era arriscado que os dois, depois de muito discutirem, caíssem tesos, batessem a caçoleta. Muita gente vibraria. O mundo se tornaria bem melhor.

Depois de marchas e contramarchas, tudo ficou acertado para a reunião mais importante e esperada do ano. Apostas eram feitas, de que o encontro não se realizaria. Ou de que se realizaria, mas acabaria no primeiro momento, com cada um dos desafetos soltando os cachorros no outro. O apocalipse poderia estar ali naquele encontro, pronto para soltar fogo pelas ventas como um dragão daqueles das histórias mirabolantes da Idade Média. Na verdade, ainda havia dragões no mundo. Ali estariam dois deles.

Toda a imprensa da região entrou de prontidão. Nada deveria escapar dacobertura. Todos esperavam saber de tudo que ocorreria no encontro entre os dois. E a imprensa da região eram o tabloide “O Fuxico” de Zé de Ferreirinha e o carro de som de Chico Pinote. Este alardeava nas ruas da cidade que o mundo esportivo esperava que a paz fosse selada entre Jordão e Trampo. Se os dois não se entendessem, o mundo esportivo poderia entrar em polvorosa de uma vez por todas, pois seria uma guerra declarada entre os dois esquizofrênicos.

 

Enfim, os dois chegaram à sede de Ginga Pura. Cara de Bunda chegou primeiro.  Com um dia de antecedência em relação ao outro, que, diga-se de passagem, era também conhecido nos meios esportivos como Galo de Briga. Vermelhão que o era, a cabeleira pintada parecia uma crista de galo de briga. Deu-se o encontro. Primeiro, as indefectíveis fotos de mãos dadas para a imprensa. “O Fuxico” estampou em sua edição vespertina uma foto com ambos tentando um sorriso forçado, que não saiu. Caras ainda muito amarradas. Mas, era o primeiro aperitivo. Certamente, outras fotos viriam mais amenas, com a paz selada. Ah, mas como tinha gente que não acreditava nessa paz! Que não acreditavam que os dois estivessem de fato querendo um entendimento. Arriar as armas? Quem? Cara de Bunda? Nem pensar, dizia-se pelo mundo afora. O ditadorzinho haveria de esconder as armas para soltá-las mais tarde. Afinal, as armas verborrágicas eram o trunfo do dirigente do Clube do Norte.

O encontro continuou sob a ansiedade de todos. E, contrariando as expectativas da maioria das pessoas, tudo parecia correr muito bem obrigado. Uma ponderação daqui, outra dacolá, uma testa franzida aqui, outra acolá. Assessores dos dois lados tentando amenizar certas palavras. Enfim, um acordo a ser assinado. A lavratura do acordo demoraria um pouco, pois os assessores divergiam sobre esta ou aquela expressão. Tudo acertado.

Na hora da assinatura, Cara de Bunda curvou-se um pouco sobre a mesa com a caneta na mão. Ao lado dele, Galo de Briga, de bico crescido, como era do seu estilo, aguardava a sua vez de assinar o tal documento, que, por certo, não haveria de valer muita coisa. De repente, Cara de Bunda fez uma cara feia. Parecia que ia estourar. Naquele instante, o outro apelido do tal sujeito pareceu ganhar força. O Bolo Fofo tinha, como por encanto, crescido. Fora fermentado. Ele espremeu-se um pouco. E eis que soltou uma bomba atômica. A sala com decoração folheada a ouro parecia que ia desabar. A fedentina espalhou-se como a mão do anjo da morte na noite que antecedeu a saída do povo hebreu do Egito. Galo de Briga deu um pulo, tapou as ventas com um lenço, afastou-se e gritou em sua língua enrolada: “Um desrespeito! Um despropósito! Vou responder à altura! É guerra? Pois vamos à guerra!”.

A flatulência de Cara de Bunda pôs fim ao encontro e ao acordo. O que viria depois era preciso aguardar. Boa coisa não poderia ser. O mundo dos esportes tremeria. A paz estaria por um fio. E tudo por causa de uma flatulência. A que ponto o mundo dos esportes tinha chegado!

Quanto vexame! O todo-poderoso Daniel Trampo acabou cedendo a uma bufa. Que coisa, hein?


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