Crueldade Bestial: Crimes que abalaram Sergipe

22/07/2018 12:39:22 por Kleber Santos em Coluna Clóvis Barbosa
Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE

O cometimento de atos infames e horrendos é, de forma geral, da essência da natureza humana. O mundo está moldado, portanto, à imagem e semelhança dos sete pecados capitais que, para o bem e para o mal, estão tatuadosno mais profundo das nossas mentes. Ira, cobiça, preguiça, luxúria, gula, vaidade e inveja são ingredientes que sempre estão de alguma forma por trás de um crime. Existindo desde os primórdios, o crime faz parte da história de todos os povos. Em Sergipe também houve delitosque abalaram a sociedade e que são lembrados pelos mais velhos ou recontados daquilo que souberam dos antepassados. Na primeira metade do século XIX, anos após a emancipação política do nosso Estado,em 1841,ficou célebre o crime do Padre Manoel da Silva Porto, juiz de Neópolis, que mandou matar o juiz de paz de Capela, José Álvares Pereira, que teve o coração arrancado. A justificativa para tal bestialidadefoiprovar que a vítima não era cabra-macho, pois, se o fosse, o seu coração seria cabeludo. A motivação para o crime teria sido de natureza política, uma vez quepretendia o padre Porto candidatar-se a deputado e a vítima estaria obstaculizando a sua pretensão. Registre-se que o Padre Porto era um homem culto, formado em Direito e em Cânones pela Universidade de Coimbra e foi professor catedrático da Faculdade de Direito de Olinda.

Poucos anos antes,em 1837, um crime bárbaro já havia enchidode horror e espanto o nosso Estado. Vivíamos a primeira metade do século XIX, onde a lei do mais forte predominava. Um pacato cidadão, José Francisco da Silva, residente no sítio Capunga, em Itabaiana, ainda se restabelecendo de um tiro dado pelo seu irmão, teve a sua casa invadida porseu cunhado e pelo pistoleiro Antônio José Dias, conhecido por Mata Escura, que lhe desferiu dois tiros de espingarda. Não satisfeito, com uma espécie de sabre, o bandoleiro desferiucontra a vítima agonizante mais de vinte pontadas no seu corpo. Também, com a mesma arma, trespassou o corpo da mulher do sacrificadopor mais de seis vezes, tombando-a sobre o corpo do marido. Depois de algum tempo, pelo cometimento de outros crimes, Mata Escura foi preso e levado a júri em Itabaiana. Condenado à morte na forca em praça pública na Vila de Itabaiana, antes da execução da pena, passou a confessar outros crimes praticados, como o do filho de Tobias do Socorro, proprietário de Salinas, o de Estácio Furtado, senhor de engenho de Capela, o de Manuel Florêncio, feitor do sítio Bonfim, em Divina Pastora, e tantos outros. Finalmente, antes de cair sem vida no patíbulo, disse: “Meus irmãos, vejam a minha desgraça. Os ricos foram a causa do meu fim”. Um pesado silêncio envolveu a multidão.

Outro crime de grande repercussão foi o assassinato do deputado Fausto Cardoso, em 1906. Historiador, jornalista, tribuno que empolgava, poeta e revolucionário, Fausto foi um dos talentos mais importantes da história de Sergipe. A sua morte ocorreu nas dependências do Palácio de Governo, hoje Museu-Palácio, tendo uma bala desferida por soldados chefiados pelo general Firmino Lopes Rego acertado mortalmente o seu peito. Neste mesmo ano, no mês de novembro, um novo delitoviria aabalar Sergipe. Olímpio Campos, então senador, ao deixar o Senado Federal no Rio de Janeiro, foi alvejado e morto pelos filhos e sobrinho de Fausto Cardoso.Já em 1961, um ex-Cabo do Corpo de Bombeiros e sapateiro, Antônio F. Macedo, conhecido por La Conga, com a ajuda da sua companheira Edite M. de Jesus, matou o menor Carlos Werneck, enterrando o seu corpo num areal das proximidades do hoje Instituto Rui Barbosa, no Bairro Siqueira Campos. O crime chocou toda a população aracajuana, principalmente pela forma brutal como aconteceu. A criança foi atraída para a residência dos criminosos onde, após receber uma cacetada, foi estrangulada e escondido o corpo num armário. À noite, enrolado numa esteira, a inditosa vítima foi enterrada no areal. La Conga foi condenado a 30 anos de prisão e morreu de um ataque cardíaco em 1976.

No ano de 1988,um crime e um atentado marcaram a memóriada elite sergipana. O primeiro foi o assassinato do empresário e usineiro Fernando Luiz de Melo Barreto, ocorrido na porta do escritório da Usina Santa Clara, na Rua de Siriri. Foi uma comoção geral em Aracaju, pois se tratava de uma pessoa que fazia parte da fina flor da sociedade sergipana. A motivação, segundo as especulações da época, teria sido uma briga de parentes pelo controle do patrimôniofamiliar. O acusado do crime de mando, sobrinho da vítima, Carlos Augusto, chegou a ter a sua prisão preventiva decretada, contudo, fugiu para o sul do país. Dois anos mais tarde, após um habeas corpusconcedido peloSuperior Tribunal de Justiça, Carlos Augusto retornou a Sergipe. Logo depois, ao sair do bar e restaurante Cacique Chá, no centro de Aracaju, e entrar no seu carro, que se encontrava estacionado na porta da hoje Procuradoria Geral do Estado, um tiro de escopeta foi disparado contra o mesmo. Se o crime perpetrado contra Fernando causou grande comoção, este atentado muito mais. Socorrido no momento por frequentadores do Cacique, foi levado para um hospital onde se submeteu a uma série de cirurgias. Carlos Augusto conseguiu sobreviver, tendo mais tarde se mudado para São Paulo, onde faleceu anos mais tarde.  

Em 1938, na Fazenda Angicos, em Poço Redondo, o famoso bandoleiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e parte do seu bando, incluindo sua companheira, Maria Bonita, foram assassinados pela volante do Tenente Bezerra. Todos tiveram as cabeças decapitadas e colocadas em latas de querosene. Neste mesmo ano, o cangaceiro Juriti, que não se encontrava presente na Fazenda Angicos, foi preso e, em seguida, na cidade de Canindé de São Francisco, lançado numa fogueira e queimado vivo.Na esfera política, além de Fausto Cardoso, mais quatro deputados foram assassinados na vigência dos seus mandatos: Euclides Paes Mendonça e seu filho, o também deputado Antônio Paes Mendonça, em 1963; Antônio Torres, em 1967; e Joaldo Barbosa, o Nego da Farmácia, em 2003. Outro crime de bastante repercussão, inclusive nacional, foi o do médico Carlos Firpo, em 1958.Viviam-se momentos difíceis na vida sergipana, onde a disputa política entre os partidos PSD e UDN era acirrada e o crime praticado pela elite campeava abertamente. Tentaram de todos os modos acusar como mandantes a mulher da vítima, Milena, e o Tenente-Coronel aviador Afonso Ferreira Lima, amigo da família Firpo. Teve de tudo no processo de apuração desse crime, desde confissões forjadas a torturas no intuito de esconder da sociedade os verdadeiros motivos e autores do assassinato.

Fyodor Dostoievsky, o grande escritor russo, autor do clássico Crime e castigo, era um homem descrente com a humanidade. Para ele,de fato, às vezes se fala da crueldade “bestial” do homem, mas isso é terrivelmente injusto e ofensivo para com os animais: a fera nunca pode ser tão cruel como o homem, tão artisticamente, tão esteticamente cruel. 



Post Scriptum - Paulo de Carvalho Neto: Vida & Obra

O soteropolitano-sergipano Gilfrancisco está de volta e dá um valioso presente à cultura sergipana: a trilogia denominada “Vida e Obra”, onde disseca sobre três nomes importantes da nossa cultura, Ranulfo Prata, volume I, Paulo de Carvalho Neto, volume II e Bernardino José de Souza, volume III. Bisbilhoteiro contumaz e amante da pesquisa, após o primeiro volume, já no prelo, “Paulo de Carvalho Neto – Vida & Obra”, edição comemorativa pela passagem dos 15 anos de sua morte (2003-2018) e 95 anos de nascimento (1923-2018), presta homenagem a um dos mais importantes intelectuais sergipanos. Possuidor de um currículo invejável, Paulo de Carvalho Neto, apesar de pouco conhecido em Sergipe, era filho de um dos mais talentosos juristas brasileiros, Antônio Manoel de Carvalho Neto. Mudou-se na adolescência para Salvador e posteriormente para o Rio de Janeiro, onde construiu uma das mais sólidas carreiras na diplomacia brasileira. Viveu fora do país por muito tempo, tendo se destacado no campo literário, na antropologia e no folclore, com obras publicadas na América Latina e na Europa.Neste trabalho, Gilfrancisco reúne uma série de textos, publicados na imprensa,que mostram a repercussão de sua morte em 2003. São notas, homenagens e vários artigos, inclusive abordando sua relação com os intelectuais de Sergipe, com os quais se inteirou na juventude. E tem mais: entrevistas, análises críticas sobre a sua obra – com destaque para aquelas que tecem encômios aos seus romances Vila do Príncipe, de 1950, Meu Tio Atahualpa, de 1972 e Soumi, de 1986 –, contos, ensaios sobre o folclore de Sergipe, do Brasil e do Equador. É possível, também, imergir em seus estudos antropológicos no folclore e na cultura afro, o que demonstra se tratar de uma inteligência plurifacetada. A vida e obra desse grande sergipano é um convite oportuno para conhecermos o talento da nossa gente, tudo isso graças a este trabalho de pesquisa de Gilfrancisco. Aliás, há uma frase do político e intelectual Marcelo Dédaque poderia ser apropriada por Paulo de Carvalho Neto: Não me esqueço de onde venho porque eu sei quem eu sou. Quem sabe de onde vem e cultua as suas raízes não corre o risco de se perder quando quer chegar ao objetivo das suas conquistas.

Clóvis Barbosa escreve aos domingos, quinzenalmente.

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