Arrumações políticas e futurologia

05/08/2018 14:52:10 por Kleber Santos em Coluna José Lima
José Lima Santana
Professor da UFS

As candidaturas estão postas. Arrumações tão comuns entre os partidos políticos foram costuradas. Algumas costuras são péssimas para os eleitores e para o país. Forjam-se a partir de interesses individuais deste ou daquele político, ou partidários, mas, jamais se levando em conta os interesses da nação. Coligações nem sempre são coligações na essência da palavra. Afinal, etimologicamente, o que vem a ser coligação? Vejamos. Coligação significa o “ato ou efeito de coligar; união, ligação; associação, liga ou aliança de várias entidades ou pessoas para um fim comum”.

Muito bem. Aliança para um fim comum. Porém, nem sempre para o bem comum. Na vida político-partidária as coligações têm em vista facilitar o alcance do poder. Todos os políticos e todas as agremiações políticas objetivam alcançar o poder. Alcançado o poder, todos têm em mente lutar pelo bem comum? Ora, o que é o bem comum? Ensinou-nos o mestre Miguel Reale, o pai, e não o filho, que o bem comum é a composição harmônica do bem de cada um com o bem de todos. Será que é isto mesmo que os políticos e os seus partidos levam em consideração? Seria muito bom que assim fosse. 

É inegável que no meio do turbilhão da política, alguns políticos trabalhem para o bem do povo, para o engrandecimento do seu município, do seu estado e da nação. Repito o que disse no artigo da semana passada: estes são poucos, mas eles existem. E se não existissem, seria o caos definitivo na vida pública. 

Entretanto, há políticos em todos os escalões que esbravejam, que arrotam laivos de honestidade, de trabalho em prol do povo, mas, tão somente, da boca para fora. Quantas vezes eu vi e ouvi isso. Quantos eu conheci ao longo dos meus 45 anos de vida profissional! Na minha cidade, no meu estado e no país. Acredito que todos os leitores e todas as leitoras conhecem políticos desse tipo. São os piores. Os travestidos de “santos”. São horríveis. Conseguem posar de bons moços e de boas moças. Derrapam feio. Fazem dos eleitores, ou de muitos deles, massa de manobra. Descaradamente, compram votos, e, às vezes, sob o argumento de que os outros também compram. Quando não o fazem diretamente junto aos eleitores, fazem-no junto aos chamados cabos eleitorais. Se eles compram os votos, cometendo crime eleitoral, fazendo uso do abuso do poder econômico, não se sentem no dever de assumir compromissos em favor do bem estar da coletividade. Compraram, pagaram, tchau e bênção, como se diz no vulgo. Uma vergonha. 

O país necessita ser reerguido. Não dá mais para suportar os desacertos morais, econômicos, sociais e políticos, sendo que estes últimos têm, em grande parte, causado os demais. Já passou da hora de pegarmos a vassoura para fazer uma exaustiva faxina na política. No mínimo, para reduzir o quadro dos maus políticos, dos maus administradores públicos, eleitos ou nomeados, dos devastadores dos recursos públicos, encastelados no Legislativo e no Executivo. 

Houve um tempo, e não faz tanto tempo assim, que se dizia que havia um bloco político essencialmente ético no país, que se erguia contra o bloco antiético. Hoje, sabe-se que não há, se é que realmente houve, esse bloco político ético. Todos os blocos caíram na vala comum. Ainda é possível que se salvem algumas pessoas nos diversos blocos, ou partidos políticos. Pessoas individualmente consideradas. Todavia, blocos ou partidos, na sua inteireza, não. 

As pessoas e entidades da sociedade civil organizada precisam estar atentas ao desenrolar do processo eleitoral. As enganações estarão à vista. Será preciso considerá-las, analisá-las, para, enfim, combatê-las.

O que acontecerá com O Brasil e com os brasileiros a partir de janeiro de 2019? Algum leitor ou alguma leitora arrisca-se a fazer um exercício de futurologia? Eu não me arrisco. Especialmente, diante da “bagaceira” que virá por aí, na campanha eleitoral. Federal e estadual. 

Uma coisa, porém, é certa: precisamos melhorar como pessoas, como sociedade civil organizada, como povo, como nação. Melhorar eticamente. Melhorar no processo de alta estima. Melhorar nas cobranças, ou seja, no controle social da administração pública. Sem tréguas. 

Como padre, eu tenho o dever de alertar os fiéis para a necessidade de votar em candidatos que defendem os valores cristãos, que se põem contra práticas e ideias que contradizem o Evangelho de Jesus Cristo.

Como advogado e professor de Direito, eu tenho o dever de não me calar diante das sem-vergonhices e das mentiras de muitos candidatos. Não induzo ninguém a votar nestes ou naqueles candidatos. Todavia, toco o sino, faço soar o alarme, alerto. Afinal, como diz minha mãe, eu não queimei a língua com papa quente (mistura de leite com farinha, ou seja, mingau de criança pobre). Fui alimentado tão somente com o leite materno até os seis meses de vida. Depois disso, com o mesmo leite e outros alimentos próprios para a idade. Se a língua não foi queimada, está firme. Não posso me calar. Não devo. Nem quero. 

O futuro do nosso estado e do nosso país está em nossas mãos, nas mãos de todos nós eleitores. Se não podemos fazer exercícios de futurologia, podemos ao menos fazer com que o nosso voto não sirva para ser causa de arrependimento. Escolher o que pensamos ser o melhor. Ou, no mínimo, o que provavelmente parece ser o menos ruim. É duro ter que dizer isso, mas é preciso dizer. O voto é um risco. Por isso, devemos ser ariscos na hora de votar. 

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