Um ganho coletivo

05/08/2018 14:56:24 por Kleber Santos em Colunas
Angelo Roberto Antoniolli
Reitor da UFS

No decorrer da semana que se finda, a imprensa e as redes sociais deram ênfase à história de um aluno do curso de Medicina da Universidade Federal de Sergipe, no Campus de Lagarto, que chegou à conclusão da etapa do ensino superior. Prepara-se, pois, para a colação de grau. Trata-se de João Santos Costa, cuja história comoveu quem dela teve conhecimento. João é negro, natural do interior de Simão Dias, vem de uma família pobre e recentemente fez uso da internet para contar a sua história e tudo que enfrentou até chegar ao término do curso, cuja formatura dar-se-á no mês de setembro. Aplausos para João e votos de muito sucesso na vida profissional que se avizinha. Bravos, João! Bravos, Doutor! 

A história de João Santos Costa repete-se por centenas ou milhares de histórias. Muitos jovens pobres, rapazes e moças, podem contar uma história parecida com a do João. Nos mais diversos cursos e nos vários Campi da UFS. Eles vêm das chamadas cotas reservadas para os alunos das escolas públicas e para determinadas minorias ou camadas sociais até bem pouco tempo excluídas do ensino superior. Por exemplo: quantos egressos da escola pública conseguiam lograr êxito nos vestibulares realizados pela Universidade Federal de Sergipe? Quantos negros, pardos, índios ou portadores de necessidades especiais o conseguiam? E quantos adentravam nos cursos de mais procura ou mais cortejados pela sociedade, como Medicina, Direito, Engenharias etc.? As estatísticas mostravam números residuais. E assim o era nas demais Universidades federais ou noutras públicas, como as estaduais, onde elas existem. 

As famílias mais pobres, que não podiam pagar escolas mais qualificadas para os seus filhos e filhas estudarem, não conseguiam vê-los (as) portando facilmente um diploma do ensino superior. A exclusão era grande e absolutamente injusta. Afinal, as escolas públicas de ensino superior são custeadas pelos recursos públicos que advêm dos tributos que todo o povo paga. Mas, nem todas as camadas da população, no geral, viam os seus jovens nas universidades públicas. Todos pagavam e pagam tributos, mas, nem todos podiam deles usufruir em termos de educação superior. 

As camadas mais abastadas da população, que podiam pagar as melhores escolas para os seus filhos, viam-nos acabarem ocupando a maioria esmagadora das vagas nos cursos superiores mais concorridos. “Aos melhores, o melhor”.  Esse era o jargão. Melhores, não. Mais preparados pelas boas escolas do ensino básico, fundamental e médio. 

As cotas causam urticária em muitas pessoas. Estas requerem as vagas das cotas para os seus filhos que estudam nos colégios “top” de linha. Os que nasceram em berços de ouro ou de parta, que têm tudo, ou quase tudo, do bom e do melhor, seriam os legítimos ocupantes das vagas nos cursos mais conceituados ou mais procurados. Porém, de onde brotaria essa legitimidade? Do poder econômico? Da condição social mais acalentada? 

Anos de exclusão dos mais pobres, por exemplo, não causavam a menor compreensão dessa dura realidade por parte dos mais favorecidos. Uma sociedade desigual em que os desiguais de cima não conseguiam enxergar os desiguais de baixo, mesmo que os olhassem com lupas. 

As cotas nas escolas superiores públicas ensejaram a inclusão de muitos e muitas jovens, que se arrastavam nas periferias, nos subúrbios das pequenas cidades, nos povoados mais distantes, sem que pudessem vislumbrar oportunidades de terem uma vida digna através do trabalho profissional qualificado. 

Numa democracia, a luta pela igualdade, e, mais ainda, pela igualdade proporcional, deve ser uma finalidade do estado. É isso que se pode chamar de justiça social. Dar mais é quem menos tem e dar menos a quem mais tem. E assim, aos poucos, a sociedade vai se ajustando, isto é, vai-se tornando mais justa. Quão triste é vier numa sociedade injusta!

No país inteiro são milhões de jovens, rapazes e mocas, que percorrem os corredores das Universidades públicas, que adentram em suas salas de aula, para se lançarem na busca do conhecimento, da afirmação da dignidade humana, da cidadania e da oportunidade de enfrentar o mercado de trabalho em condições de disputar com todos os outros. 

A história comovente, sim, do jovem João Santos Costa, negro, quilombola, disposto, lutador, digno de sua conquista, é a história de muitos jovens dos dois sexos, parecidos com ele. Que muitos outros tenham a coragem e a firmeza de mostrar a sua face, de mostrar o seu valor. A belíssima vitória de João não é um ganho individual. É, deveras, um ganho coletivo. São muitos os Joãos. São muitas as Marias. Parabéns ao João de Simão Dias. Parabéns aos outros e às outras que ainda estão no anonimato. O ganho é coletivo. É de toda a sociedade sergipana. 

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