Darcy Ribeiro: O corsário do rei

19/08/2018 14:55:47 por Kleber Santos em Coluna Clóvis Barbosa
Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE
 
A primeira vez que vi Darcy Ribeiro foi numa palestra que ele veio fazer na Universidade Federal de Sergipe, onde eu exercia o cargo de Procurador Federal. Após o término de seu compromisso, ao lado de alguns professores e estudantes, fomos todos a um restaurante na praia de Atalaia. Passamos aproximadamente quatro horas juntos, tempo necessário para ele se apaixonar perdidamente por uma estudante que estava conosco e para o conhecermos como uma figura fascinante. A mim, impressionou seu talento, seu raciocínio rápido e a capacidade de discutir todo e qualquer assunto. Toquei num tema tabu dentro do meio acadêmico de então, que era o livro do filósofo José Arthur Gianotti, publicado alguns anos antes pela Editora Brasiliense, “A Universidade em ritmo de barbárie”. Este ensaio foi uma crítica feroz ao processo de degradação por que passava a universidade brasileira, chegando o autor a afirmar que um pacto da mediocridade havia sido firmado na comunidade de ensino superior, onde o professor fingia que ensinava, o aluno fingia que estudava e o servidor fingia que trabalhava. Gianotti dizia que "Se não se apostar no poder acadêmico, se não se lhe abrir um espaço próprio, a universidade será enervada por suas convulsões. E como o país não pode dispensar institutos de pesquisa que alimentem o desenvolvimento tecnológico, e escolas que formem suas elites, ela será marginalizada e posta em banho-maria, enquanto uma burocracia ilustrada, apoiada no estado, tratará de criar centros de excelência destinados a cumprir as tarefas que a universidade não soube desenvolver. Uma enorme rede de ensino universitário servirá para enganar a demanda das massas, enquanto o verdadeiro conhecimento tomará outros rumos”, profetizava.

Quem esperava que Darcy fosse de encontro às teses de Gianotti quebrou a cara, pois, além de ratificar, em parte, os argumentos, levantava outros, como o pagamento de salário igual aos professores independentemente de sua produtividade, a falta de extensão e pesquisa, o despreparo dos docentes, o péssimo percentual de doutores, etc. Darcy falava sem parar, ao tempo em que investia, com palavras dóceis e poéticas, na beleza juvenil que aflorava em uma das estudantes que nos acompanhava. Fui levá-lo ao hotel e no caminho ele enaltecia as maravilhas da encantadora jovem que acabara de conhecer. Falava da boca gulosa, dos olhos tristes, do sorriso e do seu charme. No dia seguinte, fui levá-lo ao aeroporto. Ele não se esquecera da estudante da noite anterior. Queria um telefone, um contato. Prometi que conversaria com ela, mas não falei. Ela namorava um colega estudante e ambos militavam num partido de esquerda. Depois, tive uns 3 ou 4 contatos pessoais com ele, em reuniões do PDT em Brasília e Rio de Janeiro. Sempre se lembrava de perguntar de sua musa “sergipense”. Era gostoso conversar com Darcy. Todas as vezes ele deixava uma dúvida, uma frase de efeito, uma tese que a gente carregava para reflexão. Era um homem tremendamente preocupado com o Brasil. Por que o Brasil ainda não deu certo? Era a pergunta que fazia ao chegar ao exílio, no Uruguai, em abril de 1964. Com essa ideia na cabeça, começou a pensar numa forma de responder à pergunta. Trinta anos depois produziu, talvez, a sua maior obra, com o título de “O povo brasileiro – a formação e o sentido do Brasil”, que, para ele, foi a melhor forma de influenciar as pessoas que aspiravam a ajudar o Brasil a se encontrar como nação. Mas, infelizmente até hoje, sua pergunta continua sem resposta.

Na manhã do dia 18 de fevereiro de 1997 soube de sua morte em Brasília. Imediatamente segui para o Rio de Janeiro, local do enterro, para lhe dar o meu último adeus. Na viagem – e antes de chegar à Academia Brasileira de Letras, no Castelo, onde seu corpo foi velado – um filme passou em minha mente e lembrava-me das nossas conversas durante os parcos momentos de convivência. Desde 1995 que ele enfrentava um câncer nos ossos. No nosso último encontro até falamos sobre o assunto e eu disse de alguns amigos que tive e também sofriam desse mal. Depois da doença, conheci um Darcy que tinha pressa em terminar alguns projetos, como a fundação que levaria o seu nome e que teria a sede na sua residência, em Copacabana. Lá estava eu, anonimamente, no Salão dos Poetas Românticos da ABL observando as pessoas e autoridades que tinham ido prestar a última homenagem. O escritor Dias Gomes foi quem melhor traçou o seu perfil: “O Darcy era um homem feito só de amor. Ele não tinha ódio no coração”. Enquanto o som de Bach contribuía para a nossa melancolia, chegava uma coroa de flores mandada por Fidel Castro com a frase “ao eterno amigo”. Era um cenário de tristeza, principalmente quando a presidente da ABL, escritora Nélida Piñon, fez o discurso de despedida. Na hora do enterro, ainda na sede da Academia, um quiproquó foi marcado pela falta do veículo que levaria o caixão. Foi o que bastou para ataques e xingamentos serem desferidos contra o então governador do Rio de Janeiro, Marcelo Alencar. Os ânimos foram acalmados e o enterro saiu da ABL até o Cemitério São João Batista, num trajeto de 7 km, onde no mausoléu dos acadêmicos, já à noite, Darcy foi enterrado.

Sim, mas o que tem a ver Darcy Ribeiro com a peça “O corsário do rei”, texto e direção do teatrólogo Augusto Boal? Em 1982, eleito vice-governador na chapa de Leonel Brizola no Rio de Janeiro, Darcy Ribeiro vivenciou em Paris a experiência do Centro de Teatro do Oprimido da capital francesa e convidou Boal, então exilado, para que aplicasse nas escolas públicas do Rio uma atividade similar, dentro daquela perspectiva revolucionária no âmbito da educação, tendo, inclusive, sugerido que o mesmo montasse um espetáculo na capital carioca. Depois de 14 anos no exílio, Boal montou a peça que tratava das aventuras do corsário francês, Duguay Trouin, que invadiu o Rio com o propósito de ocupá-lo e depois revendê-lo aos portugueses e brasileiros. Para ele, as meras operações de pirataria eram perda de tempo e dinheiro. O rei da França autorizou a empreitada. Daí por diante, muita sátira e denúncias de corrupção da administração e do clero, a exploração do capitalismo e todas as mazelas do Brasil de ontem e de hoje. A peça não foi bem recebida pela crítica. Armou-se um “bafafá" no cenário cultural brasileiro. De um lado, defensores do talento de Augusto Boal, de outro, um segmento atrasado e provinciano, cujo espírito estaria marcado pelo chamado “jequismo”. Na verdade, uma postura preconceituosa contra um brasileiro que viveu no exílio. O sarrafo sofrido por Boal respingou em Darcy e impossibilitou as crianças das escolas do Rio de viverem a experiência do teatro do oprimido, tão bem explorado na Europa e com efeitos positivos.

Na verdade, Darcy era paixão em tudo que fazia. Era inteiro em tudo em que se metia. E o que ele pensava era sempre para melhorar o mundo e para mudar o Brasil. Quem melhor definiu a sua trajetória de vida foi o escritor Antônio Cândido: “o que espantava nele em especial era a sua capacidade de viver muitas diferentes vidas ao mesmo tempo, enquanto a maioria dos mortais mal consegue dar conta de uma existência. Em tudo em que se aventurou, Darcy deixou algum vestígio da originalidade de suas ideias, de sua personalidade forte e determinada, destemida, desafiadora” (Jornal da ABI, dez 2012, por Gonçalo Júnior). Apesar da mediocridade que se instalou no Brasil – e que ainda hoje trata o indígena brasileiro como indolente, vadio, vagabundo – Darcy tinha o maior respeito por essa nação formadora da nossa cultura. Seu único ídolo era o Marechal Cândido Rondon, por quem se apaixonou pela obra desbravadora. Conseguiu trabalhar com o seu mentor e aprendeu muito sobre as ações práticas em relação aos índios e que teriam influenciado nos seus registros sobre a sua riqueza cultural, seus costumes, suas origens místicas, seus antepassados. Tinha uma grande preocupação com a destruição paulatina dessa civilização. O seu livro Confissões, lançado no ano de sua morte (1997), é uma obra imprescindível para quem quer conhecer a sua vida, suas ideias e seu poder transformador. Darcy militou na juventude no Partido Comunista, foi Ministro-Chefe da Casa Civil do Governo João Goulart e Senador pelo Estado do Rio de Janeiro.

Ele foi responsável, como vice-governador de Brizola, pela criação, planejamento e direção dos chamados Centros Integrados de Ensino Público-CIEPs, considerado um projeto revolucionário na educação, que se fundamentava na assistência em tempo integral às crianças, com atividades recreativas e culturais, além do ensino formal, tudo com base numa ideia do educador baiano Anísio Teixeira, de quem se tornou amigo por toda a vida. Darcy disse certa vez: “Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”. Perdeu, também, na ânsia de amar um amor juvenil “sergipense”, mas, neste caso, o fracasso não significa que ele fracassou; significa que não venceu. Ou, quem sabe, ela é quem perdeu por não ter vivenciado uma das figuras mais extraordinárias do Brasil do século XX

Clóvis Barbosa escreve aos sábados, quinzenalmente. 

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