A Corrida Eleitoral e os Cantos das Sereias

02/09/2018 08:27:35 por Kleber Santos em Coluna José Lima
José Lima Santana
Professor da UFS

Começou a corrida. Lembro-me da acadêmica Maria Thetis Nunes, que, quando havia uma vaga na Academia Sergipana de Letras, muitas vezes os postulantes empreendiam uma espécie de corrida, antes mesmo que o corpo do acadêmico falecido baixasse à terra mãe, no que ela chamava de “corrida de cavalos”. Deveras, para ser suave no uso da palavra, tal situação era, e ainda é, uma tristeza! Todavia, a corrida, agora, é pela presidência da República e pelas governadorias, além dos cargos para os Parlamentos federal, distrital e estaduais. Um rolo! Um rolo, que se desenrola a cada quatro anos e, ao que parece, fica cada vez mais difícil para o povo desenrolar. 

O que será de nós, eleitores, nas eleições que estão às portas, especialmente no plano federal? Ou, quem sabe, o que é que nós queremos e o que é que nós haveremos de fazer nas urnas? As opções que temos são as melhores? Em quaisquer eleições, pode haver bons e maus candidatos. É normal que assim o seja. Ou deveria ser. Não vou citar nomes, até para não comprometer o Jornal da Cidade, que me serve o espaço nos fins de semana. Os nomes de maior relevância nas pesquisas eleitorais atendem realmente aos interesses da Nação? Não falo em interesses de grupos, sejam dos “coxinhas”, dos “mortadelas”, ou, seja lá de quem for. E, nessas eleições, há grupos ou defensores de certos candidatos que são de arrepiar. E botem-se arrepios nisso! 

O país está fragilizado politicamente. E moralmente. Cenário perfeito para os chamados “salvadores da pátria”. Nesse caso, pátria com “p” minúsculo mesmo. Esfacelaram o país. E o povo, ou parte dele, vai a reboque de quem quer que seja, e que se apresente com uma mensagem que satisfaça a necessidade de ouvir-se o “canto da sereia”. E as sereias, desde os tempos de Homero, sempre cantam canções tenebrosas, mas que cativam os “marujos” que se entregam de corpo e alma a tais cantos, até afundarem nos seus abismos. Coisa medonha!

A “direita” e a “esquerda” (se é que elas ainda existem, ao menos com a formação do passado) apresentam as suas sereias. Sereias velhas e novas. Sereias que já causaram malefícios. Sereias que tendem a também causar. Estaremos num beco sem saída? É difícil dizer. Ou, talvez, nem o seja, olhando bem o que temos diante dos olhos. Parece que há uma escuridão a caminho. E ela tanto pode vir da “direita”, quanto da “esquerda”. Luz no fim do túnel? Impossível! Nós não estamos nem no meio do túnel, quanto mais no fim. 

As margens já não mais plácidas do Ipiranga precisam ouvir o som de um novo brado. Um brado ritmado, pois nos fizeram perder o ritmo. O povo continua heróico, mas, cada vez mais sofrido, enganado, ludibriado por todos os lados. 

Os fúlgidos (até nisso nos colocam dificuldades, pois melhor teria sido dizer “brilhantes”) raios de sol da liberdade não brilham, pois não brilham a cidadania e a dignidade da pessoa humana, ambas sempre desrespeitadas por quem as deveria respeitar. 

O penhor da igualdade... Num país em que cresce a pobreza, a igualdade está restrita aos que se igualam pelos atos de corrupção ativa ou passiva. Uma nojeira! 
Sim, a morte nos desafia. Que o digam os pacientes do sistema público de saúde, que o digam as famílias dos mais de 50.000 que anualmente padecem de morte violenta. 

Pátria (esta, sim, com “P” maiúsculo) amada, idolatrada (muitos já não a amam nem a idolatram), o que será de ti, diante de tantas sacanagens que contra os teus filhos são praticadas? 

Não, não devemos perder o sonho intenso. Nem devemos deixar fugir de nós o raio vívido. Que o amor e a esperança, um dia, possam vir por nossas mãos, por nossas vontades, por nossas inteligências. 

Que o nosso céu não seja de tormentas. Que ele nos possa sorrir de verdade com a limpidez com que miramos a imagem resplandecente do Cruzeiro do Sul, nas noites estreladas. 

O gigante não deve ter a aparência de um nanico diante das outras nações. Precisa tornar-se, de fato, belo e forte, como um Colosso impávido. Que a grandeza há tanto esperada possa desdobrar-se agora. Não podemos mais esperar o futuro. Chega de espera! 

Que a mãe gentil seja mesmo adorada entre todos os milhares de mães e por todos os seus filhos que não comungam com as vilanias de alguns dos “filhos” de mau caráter. 

Não mais deitado eternamente em berço esplêndido. Que busque inspiração no som do mar e na luz do céu profundo, para, deveras, fulgurar em toda a América, como o mais belo dos florões iluminado pelo sol das terras que, desde Colombo, ficaram conhecidas como terras do Novo Mundo. 

Que a nossa terra seja, sim, mais garrida. Adornada pela ética, em todos os seus espaços. Que floresçam nos campos e nas cidades as flores da inclusão e do respeito, banindo-se os preconceitos e as discriminações. Que sejam preservadas nos bosques e em quaisquer lugares todas as formas de vida, desde as entranhas. Que o amor fraterno e a solidariedade nos encham a vida. 

Que o seu rastro inapagável deixe em nós o amor eterno e o amor pelo Eterno. Que tremule, cobrindo-nos a todos, o lábaro estrelado, essa Bandeira tão bela, nas cores verde, amarela, azul e branca. O passado, o presente e o futuro entrelacem-se para que possamos resgatar as nossas glórias e firmar a paz que todos almejamos.
 
Que a clava forte da Justiça caía sobre aqueles que nos devem, porque de nós eles muito roubaram. É claro que não fugiremos à luta de dar ao Brasil o destino que, desde 1822, o nosso povo almeja. Um dia, haveremos de chegar lá. Afinal, nós adoramos o nosso país e, por ele, e por nós mesmos, não tememos a morte, como não deveremos temer “matar” nas urnas os funestos cantos das sereias. Das novas e das velhas. 

O que nos restará sem os cantos das sereias? Qualquer canto, que não sirva para nos ludibriar. Esse existe? Bem. O mundo gira. 

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