Minha Luta

02/09/2018 08:32:04 por Kleber Santos em Coluna Clóvis Barbosa
Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE

Uma polêmica foi travada no Brasil, no fim de 2015, entre as livrarias. Tratava-se da venda ou não da publicação da obra de Adolf Hitler, Mein Kampf (Minha Luta), pela Geração Editorial. O jornal Folha de São Paulo de 4/12/2015, caderno Ilustrada, página C4, deu conhecimento aos seus leitores desse impasse através de matéria de uma página. O fundador da Editora, Luiz Fernando Emediato, justificou o seu lançamento pelo valor histórico do calhamaço que antecipa o período de terror do Terceiro Reich. A questão, porém, era a de quem exporia a chamada “Bíblia nazista” nas prateleiras? Pois bem. Na hora de expor publicamente seus pontos de vista sobre a circulação da obra, cada um dos livreiros saía pela tangente: a Livraria da Vila disse que venderia o livro quando estivesse disponível no mercado; a Saraiva avisou que não comentava estratégias comerciais, mas que pensa seu sortimento de produtos de modo a contemplar todos os gêneros e categorias; a Cultura afirmou que essa decisão comercial seria discutida oportunamente. Enfim, ninguém queria posicionar-se antecipadamente sem conhecer a opinião do concorrente. Fora do mundo empresarial, o debate comia solto entre os intelectuais. Maria Luiza Carneiro, professora de História da USP, autora de Holocausto, Crime contra a Humanidade, manifestou-se contrária à sua reedição sob a alegação de que a mesma poderia servir de munição para o antissemitismo contemporâneo. E salienta, ainda, que a venda em livrarias ajudaria a pôr nos holofotes o ideário nazista, inclusive sendo pirateada a torto e a direito na internet.

A polêmica, contudo, não passou dessa fase de anúncio da publicação. Lançada a obra, não houve maiores repercussões, prevalecendo o entendimento de Emediato, para quem é importante discutir a história, por mais feia que ela nos pareça, ou principalmente por isso. Ademais, Mein Kampf não deixa de ser um documento importante para o estudo da ascensão do nazismo e do que ele representou na Alemanha. Proibir a sua reedição seria não compreender ou não conhecer os horrores praticados durante a Segunda Guerra Mundial, que teve como saldo 50 milhões de mortos, 6 milhões deles no Holocausto. A obra é dividida em duas partes. Na primeira, Hitler narra a sua história; na segunda, expõe sua doutrina para a estruturação do Estado Nacional-Socialista. Para a historiadora e professora da Universidade Estadual de Londrina, Sylvia Lenz, nada justifica as ações violentas do nazismo. Mesmo assim, segundo ela, é necessário analisar o livro e a ascensão do nazismo sob o contexto da época. Durante as primeiras décadas do século passado, muitas nações europeias também defendiam políticas nacionalistas, imperialistas e expansionistas. “França e Inglaterra, por exemplo, tinham colônias em países africanos e asiáticos e iam para essas comunidades como se fossem superiores”, afirma. Além dessas nações, a Itália com Benito Mussolini, a Espanha com Francisco Franco e Portugal com António de Oliveira Salazar, eram outros países que focavam em políticas nacionalistas e práticas ditatoriais. “Era uma onda que tomava conta de toda a Europa”.

Ela acredita que o Mein Kampf ganhou tanta importância e polêmica pelo fato de a Alemanha ter sido derrotada na 2ª Guerra Mundial. “O fato de ter sido proibido por tanto tempo chama mais ainda a atenção”, completa. Sylvia relata ainda que o livro foi escrito pelo austríaco Hitler sem que ele tivesse noção de que se tornaria o III Reich alemão. “Ele era um pintor frustrado que não se conformava com as imposições dadas à Alemanha pelo Tratado de Versalhes. O bode expiatório que ele encontrou foram os judeus. Em toda história, há um bode expiatório”, ressalta. Além disso, segundo ela, a crise econômica de 1929, a chamada Grande Depressão Americana, que quebrou a Bolsa de Valores de Nova Iorque (à época os EUA era o principal investidor da economia alemã), foi preponderante para que as ideias nazistas ganhassem adeptos e Hitler tivesse o apoio da população. Enquanto ideologia institucionalizada, as principais características do nazismo nasceram de sua obra Mein Kampf, escrita durante o período em que esteve na prisão, fruto de um golpe frustrado articulado pelos nazistas na Baviera em 1923. A propaganda teve um papel fundamental na propagação das ideias contidas na obra, a começar pelo antissemitismo, o tresloucado ódios aos judeus, a quem era atribuída a culpa por todos os males que vivia a Alemanha. Além disso, tínhamos ainda a noção racista e eugenista da superioridade do homem branco alemão ou da raça ariana. Para tanto, era necessária a construção do chamado “espaço vital” para que esta raça superior ali se instalasse e se transformasse num império mundial.

Durante o governo nazista foi criado no programa eugenista a Ação T4, que previa o extermínio de deficientes incuráveis. Vejamos o texto: “O que corresponderia aos mais nobres sentidos é que nossas igrejas cristãs, em vez de irem incomodar os negros com suas missões, coisas que os infelizes não querem e nem entendem, viessem ensinar à nossa humanidade europeia (...) que a obra mais digna de Deus para casais saudáveis consiste em dar a pobres crianças órfãs, porém sadias, um lar generoso (...), em vez de permitir a progenitores doentes colocar no mundo crianças deficientes que só trarão a si mesmas e ao resto do mundo infelicidade”. O objetivo do nazismo, com a eugenia, era purificar a sociedade germânica dos seres indesejáveis. O historiador Philippe Burrin descreveu em seu livro Hitler e os Judeus: “(...) Solicitado por um casal que lhe pedia para autorizar a morte do filho incurável, Hitler respondeu favoravelmente. Decidiu então que o mesmo destino seria imposto sem apelação a todos os recém-nascidos portadores de deformações ou anormais. No dia 18 de agosto de 1939, uma circular do Ministério do Interior obrigava os médicos e parteiras do Reich a declarar as crianças que sofriam de uma deformidade. Reunidos em seções especiais, elas foram mortas pela injeção de drogas ou pela fome”. O método eugenista também foi aplicado aos doentes mentais, dentre estes pacientes esquizofrênicos, epilépticos, paralíticos e psicopatas, que eram transportados para os centros de eutanásia, todos mortos através de gás tóxico.

Volto a Burrin: “(...) depois de algumas experiências, foi estabelecido um procedimento uniforme, que consistia em mandar que as vítimas se despissem ou despi-las e levá-las numa sala com falsas duchas onde elas seriam asfixiadas por monóxido de carbono. Os cadáveres eram queimados num forno crematório, depois que lhes eram arrancados todos os dentes de ouro. Um atestado de óbito era enviado às famílias após um processo de complicada camuflagem, a fim de evitar o anúncio simultâneo de inúmeros decessos numa mesma localidade. Em pouco menos de dois anos, a empresa fez mais de 70 mil vítimas”. Enfim, uma pergunta que não pode deixar de ser feita: como foi possível um livro e seu conteúdo tornar Hitler uma figura tão atraente para milhões de pessoas?

 

 
Post Scriptum
Para onde vão os nossos sonhos

Recebi, no início do mês de agosto deste ano, um texto do escritor, fotógrafo e cineasta Carlos Modesto, um sergipano de Estância e radicado em Salvador, Bahia, desde os anos 50 do século passado, com o título “Para onde vão os nossos sonhos”. Além de vários filmes produzidos, dirigidos e fotografados, Modesto lançou recentemente o seu primeiro livro, “Contos da Escuridão”, ao qual estive presente. 15 dias antes, telefonou-me para dizer que havia descoberto uma raridade, uma série de obras de um sergipano, Manuelito Campos. Não se conteve e escreveu este texto de impressionante lirismo, que repasso para os amigos leitores sergipanos: “Passando por um dos trechos da Rua Ruy Barbosa onde possuo um escritório (ontem, primeiro de agosto), fui chamado por João Brandão, o proprietário de um dos sebos ali existentes, para mostrar-me um material recentemente adquirido de obras literárias de um sergipano. Como ele sabe que gosto muito de livros, e que o conjunto havia pertencido a um conterrâneo (pois sou estanciano de Sergipe), viu em mim uma possibilidade de vender alguma parte dos objetos. Ao examinar o produto, negligenciado no chão da livraria, fiquei logo surpreso pelo fato de as obras terem pertencido ao poeta sergipano Manuelito Campos. E logo senti aquela sensação de tristeza, em ver os sonhos de um homem jogados ao léu. Pensei naquele instante em mim, amante inveterado em livros cujos cuidados dos mesmos fazem parte da minha vida cotidiana. Toquei naquelas peças, algumas já corroídas pelas traças do tempo, outras ainda em bom estado de conservação. Naquele lote desprezado que um dia fez parte de uma alma poética, o tesouro da sua vida intelectual e emocional. Senti vibrações estranhas infiltrarem à minha alma. Vi cartas de amigos também irmanados nos mesmos sonhos, análise do livro de Alexis Carrel, alguns de seus cadernos escritos com sua própria caligrafia, de muitos dos seus poemas, tudo isso me entristeceu. Como sou bastante sentimental, algumas lágrimas umedeceram os meus olhos. Não conheci o poeta, mas senti a dor que sua alma sofria naquele instante através de mim, encerrada nas mansões da eternidade. Era uma parte da sua obra que ali jazia, uma mercadoria de valor, malbaratada sobre o chão frio de um estabelecimento cultural, mas comercial, sentindo uma esperança de que alguém a encontrasse e a valorizasse. Manuelito Campos foi um dos fundadores da Academia Sergipana de Letras, sociedade literária idealizada pelo poeta Antônio Garcia Rosa, criada em 17 de julho de 1927. Ela sucedeu à Hora Literária, instituição recreativa nascida em primeiro de abril de 1919. Assim, através de Manuelito Campos, vejo o final de muitas obras fantásticas, coleções maravilhosas, tão cuidadosamente amadas e valorizadas por seus possuidores em suas vidas terrenas, serem refugadas após suas transições, por familiares frios e sem interesses culturais, onde os sonhos cristalizados nas suas obras são desprezados ao lixo” (Salvador, Bahia, 02 de agosto de 2018)

Clóvis Barbosa escreve aos domingos, quinzenalmente

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