Arroto choco

13/09/2018 10:48:40 por Kleber Santos em Colunas
Geraldo Duarte*

Zeca Vaqueiro vinha, nos últimos tempos, amofinado e tristonho pelos cantos da morada. Nem aboiar, sua paixão, dava ânimo.

Bastava alimentar-se, em pequena ou grande quantidade, e sofrer o que jamais sentira em seu viver. Aos vizinhos e amigos contava os sintomas. Chás e mezinhas de todos os tipos usou. Rogou milagres, com promessas a realizar, aos santos e santas. Mas alívio, que era bom, nada. A queixa continuava a mesma.

“Premêro u’a gastura danada na boca. Adispois, u’a dor da molesta bem no entre peito. E aí, u’a água quente e fedorenta subindo da boca do estombo inté a guéla, queimando tudo lá dentro. É o diacho atanazando este fiel cristão!”.

Até que, não mais resistindo, desceu a serra e foi consultar-se no posto saúde da cidade.

Ao médico, relatou aquele padecer, inclusive, usando mímica no complementar de cada detalhe.

Depois de meticuloso exame e perguntas, o doutor diagnosticou a enfermidade como refluxo. Medicou comprimidos a serem ingeridos durante quinze dias. Recomendou tomar com “constância” e, quando o medicamento terminasse, voltasse, trazendo a receita e informando o resultado.

Zeca apanhou o medicamento e retornou para casa.

Passada uma semana, procurou novamente o clínico, dizendo que remédio havia acabado.

“Impossível! Você recebeu trinta unidades e recomendação de ingerir duas diariamente, portanto, não findariam em sete dias.”.

O respostar veio imediato: “O dotô num diche qui eu tumasse cum Constança? A muié, mermo sendo muito teimosa, tomô a força bruta, mais tomô! Cuma si vê, prus dois só deu pra u’a sumana! Vim buscá mais!”.

Coitada de dona Constância...
 
 *Geraldo Duarte é advogado, administrador e dicionarista

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