Fedentina Política

24/09/2018 11:28:55 por Kleber Santos em Coluna José Lima
José Lima Santana
Professor da UFS

A política como expressão cívica não fede. Ao contrário, ela é importante para o aprimoramento da sociedade. A política não apenas com “P” maiúsculo, mas, sim, com todas as letras maiúsculas. A política é o meio de interação das pessoas no convívio social. É a maneira de as pessoas envidarem esforços para o alcance do bem comum, que, em boa teoria, é a conjugação harmônica do bem de cada um com o bem de todos, como nos ensina o renomado e eminente jurista brasileiro Miguel Reale (o pai), de saudosa memória. 

Mas, a política chinfrim, a maldita politicagem, fede. E fede muito. Fede a politicagem de quem faz uso das mais diversas formas de esperteza para ludibriar o povo e, por conseguinte, para se fazer na vida através da confiança do povo ou da compra da consciência política de parte do povo sob as mais diversas formas de comprar votos ou de enganar os eleitores a cada eleição.

Neste ano, estamos numa campanha eleitoral absolutamente atípica, notadamente no plano federal, ou seja, para a presidência da República. República que, a depender de alguns larápios e figurinhas carimbadas associadas aos larápios, será, se já não o é, uma “Reprivada”. A “res” (coisa, em latim) deixa de ser do povo, para ser de alguns, que se locupletam dos recursos públicos a fim de enriquecer e de se manter no poder. A safadeza vem de todos os lados. Da direita, quase vitalícia no poder, e viciada, e da esquerda aloprada, que, uma vez alcançado o poder, também se viciou. Direita e esquerda corrompidas, ao menos no que diz respeito aos partidos, que já se encastelaram no poder central. Sem falar, claro, no poderregional (estadual e municipal)
Fede também, a meu ver, a participação de muita gente nas redes sociais. Ora, é justo e amplamente democrático que as pessoas possam exprimir suas vontades e preferências políticas, à direita ou à esquerda. Todavia, fazer uso de “FakeNews” e pregar o ódio são atitudes reprováveis. Beiram ao nazi-fascismo. E todos os lados têm feito uso disso. Lamentavelmente. 

No Facebook, por exemplo, embora haja manifestações lúcidas de cada lado político, respeitando-se os gostos de cada um, há também uma desenfreada tentativa de manipulação das massas e, o que é pior, uma desembestada forma aviltante de ataques e contra-ataques, ou seja, um fogo cruzado que depõe contra a democracia e contra o bom senso. Os “ratos de rádio” agora são “ratos de mídias sociais”. Hackers e tantos outros bichos. 

Muitas pessoas criaram e alimentam uma guerra suja, uma fedentina política insuportável. Os ânimos acirram-se sobretudo entre os defensores de um candidato da direita e de um candidato da esquerda. Os dois estão na crista da onda. Para os dois, há defensores e detratores em profusão. O jogo é bruto entre os apoiadores dos dois candidatos. Chega a dar nojo! 

O país dividiu-se como nunca, especialmente, a partir das eleições presidenciais de 2014. Quem perdeu não soube perder e quem ganhou não soube fazer com que a vitória resultasse em ganhos para a sociedade em geral. Daí veio o impeachment. E em sequência, um atoleiro moral gigantesco de alguns mandatários, que se seguia aos atoleiros anteriores. O mergulho no lamaçal foi quase geral em termos partidários. Uma vergonha inominável. Mas, todos os lados querem posar de bons moços. Ridículos!

Os eleitores midiáticos, com raras exceções, estraçalham-se. Batem boca. Inventam. Mentem. Exasperam-se. Usam as mídias sociais a serviço de seus ídolos. Ou de seus mitos. Mitos? Bem. Este é um problemão. 

Já se disse: “O mito há de ser sempre um desafio, uma abertura, um enigma. De sentido múltiplo e difuso, é através dele que as sociedades exprimem suas contradições, dúvidas e inquietações. Quase indefinível, pode designar desde o mito de Édipo até o de Michael Jackson, passando pelo mito da mulher amada ou da eterna juventude. Que ‘verdade’ podemos encontrar nele? Quais suas possíveis origens e interpretações”?

Pois nas eleições presidenciais de 2018 estamos convivendo com os mitos. Para alguns, porém, há um mito apenas. Aliás, mitos o povo os fabrica. É fácil. 

De qualquer forma, não será custoso recomendar a leitura das seguintes obras, que poderão ajudar a compreender o que seja o mito: “O Mito”, de K. K. Ruthven; “O que é Mito”, de Everardo Rocha; “O Poder do Mito” e “Mitologia Criativa”, de Joseph Campbell; “O Mito do Governo Grátis”, de Paulo Rabello de Castro. E por aí vai. 

Há pessoas que estão mitificando este ou aquele candidato porque se sentem desprotegidas pelos governos. E não se trata apenas de questões da segurança pública, não. Em vários setores da vida pública, a falta de proteção, isto é, de boas políticas, que se traduzam na melhor prestação de serviços públicos e na realização de obras estruturantes, deixa os eleitores em polvorosa. 

Recentemente, o furacão Florence fez com que pacotes de maconha batessem em praias da Flórida, nos Estados Unidos. É a droga do furacão. Um ex-deputado federal me disse que, aqui, há dois furacões: um à direita e outro à esquerda. Resta saber qual deles será eleito. Será o que vai nos trazer pacotes de drogas em termos de mazelas que possam atormentar a já atormentada vida dos brasileiros? Há, nestas eleições, lobos balindo como ovelhas. Mas, cuidado: não passam de lobos travestidos. São os piores dos lobos. 

Faltam duas semanas para as eleições. Há um quadro indefinido. Há um quadro pavoroso no ar. E a fedentina política tem tudo para aumentar. Pobre Brasil!

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