Wellington Mangueira: O bravo cavaleiro lendário

29/09/2018 11:46:20 por Kleber Santos em Coluna Clóvis Barbosa
Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE

Merece todos os encômios o fato de um jovem jornalista, Milton Alves Júnior, interessar-se em escrever sobre um personagem intrigante da vida sergipana, ainda vivo, Wellington Dantas Mangueira Marques. Esta sua obra “Wellington Mangueira – Um Comunista Continenciado” traça um vasto panorama da vida desse líder estudantil na juventude, militante histórico do Partido Comunista do Brasil, preso político e torturado nos porões da ditadura militar que assombrou o país de 1964 a 1985. As sequelas psicológicas e traumatizantes produzidas pela tortura sofrida em si e em sua mulher, Laurinha, não foram capazes de destruir as suas vidas, mas serviram de bálsamo para justificar a necessidade de resistir. Aos poucos, mesmo diante de uma sociedade amorfa, incapaz de entender a dor do torturado, soube compreender esse abismo e, para tanto, partiu para recompor a sua existência como professor, desportista, advogado e gestor público. A sua infância, a família, o amor de sua vida - companheira Laurinha - os estudos no velho Atheneu, os acontecimentos políticos que antecederam o golpe militar de 1964, a queda do governo Jango, as prisões e as torturas sofridas, o exílio na antiga União Soviética e no Chile, tudo isso é contado para nos revelar a figura de um homem fraterno, que sonhava com um mundo mais justo e igualitário.

Todos sabem que durante o período ditatorial as maiores atrocidades foram cometidas contra os que se opunham ao regime. Estudantes, intelectuais, políticos, sindicalistas, profissionais liberais engajados, eram perseguidos e tidos como comunistas e terroristas. Era preciso combatê-los. Muitos foram torturados, desaparecidos e mortos sem qualquer tipo de constrangimento dos donos do poder. Muitas famílias não tiveram sequer o direito de dar um enterro digno a seus parentes, uma vez que os corpos nunca foram achados. Inúmeros presos políticos não resistiram e acabaram mortos após sessões de tortura física ou psicológica, com utilização dos métodos mais diversos, dentre os quais se destacam o Pau de Arara, onde uma barra de ferro era atravessada entre os punhos amarrados e a dobra do joelho, ficando o corpo pendurado; o Choque Elétrico, no qual dois fios longos eram ligados nas partes sexuais, nos dentes, língua e ouvidos; o Afogamento, que consistia em mergulhar a cabeça do torturado num balde cheio de água ou de fezes, empurrando sua nuca até o limite do afogamento; a Cadeira do Dragão, parecida com a cadeira elétrica, mas revestida de zinco e ligada a fios elétricos que, quando ligados, transmitia choques por todo o corpo do acusado; a Palmatória, utilizada para agredir várias partes do corpo, inclusive nos órgãos genitais; e as Agressões Físicas, aplicadas no corpo do preso.

Mas Mangueira, apesar de todo sofrimento e humilhações, como ser transcendental, sabia que era preciso resistir e transformar-se. Era preciso reconstruir novos sentidos e horizontes para a continuidade da vida. O livro, então, passa a narrar a sua reintegração à vida aracajuana. Primeiro no Cotinguiba, um clube de futebol, onde ele passou a dar exemplo de administração. Em seguida, ocupando vários cargos públicos e privados como professor e advogado. Depois, passou a Secretário de Estado da Justiça, da Segurança Pública, da Cultura, Secretário Municipal da Educação em Nossa Senhora do Socorro, de Obras, Assuntos Jurídicos e Cultura e, finalmente, a Fundação Renascer, órgão que administra as unidades socioeducativas Centro de Atendimento ao Menor (CENAM), a de Internação Provisória (USIP), a Unidade Feminina (UNIFEM) e a Casa São Francisco de Assis (CASE/Semiliberdade). Em cada passagem por esses órgãos, Mangueira deixou registrada a sua atuação como gestor eficiente, denodado, ético e, sobretudo, revolucionário, procurando sempre transformar a realidade encontrada. Na Segurança Pública, aproximou a polícia da população através da criação da Polícia Comunitária e de uma delegacia destinada a grupos vulneráveis. O lado humanista sempre andou de mãos dadas com a sua prática no exercício dos cargos.

Enganaram-se, entretanto, aqueles que achavam que Mangueira havia perdido o elo com os seus ideais e com o sonho de um mundo melhor para todos. Mesmo ocupado com os vários afazeres profissionais, trabalhou no processo de legalização do Partido Comunista Brasileiro logo após a redemocratização do país, sempre participando da vida política sergipana. Foi um grande defensor dos direitos humanos e soube muito bem trilhar o caminho do reencontro com a vida. Apesar da perseguição nos albores da ditadura militar, não vendeu sua alma, não tergiversou nos seus princípios. Aliás, é um homem intransigente em relação aos seus ideais, esconde no peito uma mina riquíssima de compreensão humana. Mesmo com tudo o que aconteceu com ele e sua mulher, não deixou que o seu coração fosse povoado pelo ódio. Todos podemos olhar para ele com orgulho do seu passado de lutas em prol do social, como defensor inflexível da cidadania e das liberdades ameaçadas. De Wellington Mangueira pode-se dizer que combateu o bom combate, dando tudo de si por um humanismo de base democrática, que tem como norte uma sociedade livre, justa e solidária, lapidada pela consciência. Compreendeu cedo o seu papel de não conformista, de agente de transformação social dentro daquilo que o destino construiu para ele.

Alguns acontecimentos ligaram a minha vida à de Wellington: o primeiro quando fui convocado pelo Reitor da Universidade Federal de Sergipe e pelo Arcebispo Dom Luciano Duarte para um ato de “beija-mão” ao Presidente Garrastazu Médici, que visitava Sergipe. Essa história eu já contei em artigo publicado na revista CUMBUCA, décima edição. Faço um resumo: Diante da minha recusa em comparecer ao ato com o ditador, fui premido por argumentos que me deixaram entre a cruz e a espada. Ao tempo em que a minha ida ao encontro seria bastante desconfortável, já que combatia a ditadura, por outro lado não podia deixar de me solidarizar com a aflição do Reitor e do próprio Arcebispo. Pela parte do Reitor João Cardoso, em razão da série de pressões que ele sofreu e estava sofrendo para punir estudantes. Em relação a Dom Luciano, uma ponderação fulminante fez com que eu revisse a minha posição: Tá bom! Quando o Senhor precisou de mim para salvar o seu amiguinho Wellington Mangueira eu prestei. Agora o Senhor me dá as costas! Ele lembrava uma reunião que tivemos na Cúria Metropolitana no período que Mangueira estava preso. Temíamos pela vida dele e de sua mulher, Laurinha, por conta das notícias que recebíamos sobre as torturas que vinham sofrendo em um quartel do exército fora de Sergipe.

Lembro-me, também, quando fui indicado pelo Partidão para recolher junto a algumas pessoas ligadas à Universidade Federal de Sergipe - professores, alunos e servidores - determinadas quantias que seriam destinadas ao pagamento dos seus advogados. Na época, ele se encontrava preso com sua mulher. Outro fato significativo foi recente, ele como diretor da Fundação Renascer e eu como presidente do Tribunal de Contas. Diante da penúria das finanças do Estado, ele me fez uma série de solicitações de mobiliário, equipamentos de informática e materiais de construção usados, além de um scanner corporal que tinha como meta evitar o constrangimento das revistas íntimas aos visitantes dos menores infratores da unidade socioeducativa. Fizemos a doação de aproximadamente 460 itens, sendo 201 entre mesas e cadeiras, 142 equipamentos de informática e 112 de materiais de construção usados, desde divisórias a estrutura de banheiros. Ao receber o material ele me disse: Muitas mães ao visitarem seus filhos tinham que ficar de pé ou sentadas na quadra. Isto era constrangedor para mim e para todos que defendem os direitos humanos. Os recursos para aquisição do scanner foram deixados pela nossa administração no caixa do Estado. Mangueira é um homem que, como dito num provérbio chinês, não perdeu a candura de sua infância.

Mas o que mais me empolgava nele era a forma como discursava dialeticamente. Num debate com uma pessoa de diferente ponto de vista, não tentava vencer ou persuadir o seu opositor de forma impositiva ou deselegante. Ele fazia questão que não subsistisse qualquer dúvida a respeito dos seus argumentos. Aprendeu naturalmente com Sócrates, que encontrou na procura da verdade, através da razão e da lógica, o maior valor durante um processo de discussão, deixando de lado a retórica, porque nunca visou agradar o seu interlocutor, e a oratória, pois jamais pretendeu vencer uma conversa através da emoção. Como o Menestrel das Alagoas, imortalizado na música de Milton Nascimento e Fernando Brandt, era um saltimbanco falando em rebelião, como quem fala de amores para a moça do portão. Giovanni Pico Della Mirandola, na sua obra Discurso sobre a dignidade do homem, diz que o homem é colocado no centro do mundo para poder contemplar as mais diferentes angulaturas do próprio mundo, sendo capaz de realizar plenamente suas virtualidades. Este homem, no centro do mundo, é o homem digno, aquele que direciona sua curiosidade para escolhas humanistas. Num mundo de tanta desigualdade, de exploração do homem pelo homem, de falta de fraternidade, é virtuoso construir para si e para todos a dignidade.

Wellington Mangueira é este homem! Por ser solidário, o respeito pela dignidade humana criou raízes em sua alma. Viveu e vive como um cavaleiro templário, resgatando valores adormecidos pela sociedade para construção de um mundo livre, digno e justo.

*Clóvis Barbosa escreve aos sábados, edição de fim de semana, quinzenalmente

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