O tão esperado Sermão do Padre Nabuco

29/09/2018 12:51:59 por Kleber Santos em Coluna José Lima
José Lima Santana
Professor da UFS

Alecrim do Agreste respirava ares de expectativa há cerca de seis semanas. Estava para acontecer aquele que seria o maior evento religioso da cidadezinha poeirenta e empoeirada. Emancipada de Cruz da Serra não faziam dois anos, o primeiro prefeito era o farmacêutico João das Timbiras, aplicador de injeções que acabaria dono do arremedo de farmácia da novel cidade. Não havia ainda uma rua sequer com pavimentação. No melhor dos casos, a pracinha onde mal e mal se sustentava a igrejinha local, dedicada a São Raimundo Nonato e onde celebrava missa uma vez por mês o padre Afonso Xavier, da paróquia de Nossa Senhora do Desterro, em Cruz da Serra, era piçarrada. São Raimundo Nonato era curato daquela paróquia. 

O padre Afonso era diligente, zeloso com as coisas sagradas, querido por toda a comunidade da qual ele era o guia espiritual: Cruz da Serra, Alecrim do Agreste, Cipó de Miroró, outra cidadezinha emancipada por força de junções políticas, e nada mais, além de um sem número de povoações miúdas, médias e grandes, algumas destas esperando também o dia da sonhada emancipação. Em número de almas, o padre Afonso era o guia espiritual de umas 30 mil ou mais. 

No Seminário do Recife, o padre Afonso fora colega de um jovem cearense de nome Francisco Viegas Nabuco, um galego de cabeça chata, que mais parecia uma abóbora de leite suspensa sobre um pescoço atarracado e que mais parecia um cepo de baraúna. Desde cedo, o seminarista Nabuco revelou-se um profundo estudioso do livro santo e dos compêndios filosóficos e teológicos. Era de uma inteligência fulgurante. Tinha uma oratória vibrante, voz de trombeta bem postada, que ressoava pelo mundo afora, varando portas, janelas e frestas de telhado. Uma vez ordenado, o padre Nabuco, como ficaria conhecido, era convidado para pregar em várias paróquias da Diocese de Matão de Dentro e de várias outras dioceses, inclusive de fora do estado. Um orador que arrebatava as multidões. 

Pregação do padre Nabuco era sinônimo de ensinamento bíblico do maior quilate, trazido para a realidade da vida, para o cotidiano das pessoas, que se deixavam tocar por tão auspiciosas lições. Através da Rádio Vale do Sol, o padre Nabuco esbanjava conhecimentos aprofundados da Bíblia, amarrando cada um deles na vivência das pessoas. Nas festas dos padroeiros e das padroeiras a presença do padre Nabuco superlotava as igrejas e seus arredores, pois, não havia igreja por maior que fosse que pudesse absorver tamanhas multidões. E os sermões nas missas solenes arrancavam lágrimas dos fiéis mais contritos. Até autoridades dos governos não se continham, algumas delas recebendo na carapuça as palavras de fogo do padre. 

Conta-se que um determinado governador caiu em prantos quando o padre com aquele vozeirão que Deus lhe deu, olhando diretamente no rosto afogueado da autoridade estadual, disse: “Como pode um homem público, que se diz cristão, que conhece a palavra de Deus, diante de uma seca inclemente como a que estamos sofrendo neste momento, ter a coragem de festejar seu aniversário na capital do país, levando com ele um séquito fenomenal, ao invés de estar de calças empoeiradas, de mangas arregaçadas, ao lado do sofrido povo, cujos destinos Deus lhe confiou? O que tem uma autoridade dessas a dizer a Deus, quando para junto Dele for, a fim de ajustar as suas contas? O que haverá de dizer no juízo final? Que socorreu o povo martirizado pela sede e pela fome? Ou que deu as costas ao povo, para brindar com cálices de fino cristal, bebendo, ao invés de vinho, o suor e o sangue do seu povo?  Teria o governador chorado de remorso ou de raiva? 

Assim era o padre Nabuco. Despachado. E, apesar de toda a erudição de que era dotado, na paróquia a sua caminhada era ao lado do povo inteiro, mas, com predileção por trabalhar junto às comunidades mais carentes. Aliás, alguns desafetos lhe acusavam injusta e descabidamente de “padre melancia”, ou seja, verde por fora e vermelho por dentro. Isto é, diziam que ele era comunista. Um homem de Deus, cuja vida era para servir à Boa Nova do Senhor Jesus Cristo. Como bem o disse São Tiago, o padre Nabuco era vítima da inveja e das rivalidades. Até dentro do próprio clero. Porém, assim mesmo é a vida. Até Jesus fora escorraçado de algumas comunidades daquele tempo e acabaria pregado numa cruz pelo conluio entre os judeus e os romanos. O seu sacrifício, contudo, era para salvar a humanidade, embora os seus algozes não o soubessem. E muitos ainda hoje não sabem ou refutam. 

Era domingo. Dia da festa do padroeiro, São Raimundo Nonato. Alecrim do Agreste amanheceu engalanada. As ruazinhas tortuosas foram enfeitadas com bandeirolas. Um pequeno, mas muito bem caprichado tapete de flores do campo decorava a frente da igrejinha que mal e mal se sustentava de pé, tão carente que era de reforma e ampliação. A missa solene seria às 10 horas, o horário de praxe. A celebração seria na própria pracinha, tal era a multidão que, desde cedo, acorreu à missa. Em frente ao improvisado altar, muito bem arrumadinho, como as velhinhas do apostolado da oração primavam em fazer, cadeiras foram reservadas para as autoridades. Prefeitos das redondezas eram esperados. Dois ou três deputados também. Um secretário de estado representaria o governador. O juiz e o promotor da comarca de Cruz da Serra ali estariam. 

O padre Nabuco estava na cidadezinha desde a noite anterior. Um Jeep empoeirado o trouxera. Beatos e beatas portando objetos sacros esperavam pela bênção do padre Nabuco. Às dez em ponto, deu-se início à celebração. Na pracinha, um silêncio abismal. Ali estava o orador sacro mais afamado. De estatura mediana, agalegado, quase roliço, olhinhos vivazes. Um dia para ser lembrado por todo o tempo. Uma bênção dos céus para a cidade e para aquele povão todo, que ali se comprimia. Batizados e casamentos seriam celebrados após a missa. Um momento inesquecível na vida religiosa daquela gente. A expectativa era muito grande. Todos estavam atentos, esperando a hora do sermão, que, pelo que se ouvia dizer, haveria de ser o mais belo sermão proferido naquela terra ressequida. 

O padre Nabuco iniciou a celebração em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. A missa transcorreu sem sobressaltos. Cantos de penitência e glória. Oração do dia. Liturgia da palavra. Primeira leitura, salmo responsorial, segunda leitura. O alto-falante da Prefeitura com quatro bocas, devidamente consertadas, transmitia a missa. O som estava uma beleza. Como o evento sagrado merecia. Após o canto de saudação ao Evangelho, o padre Nabuco dirigiu-se ao ambão. Fez a proclamação. Silêncio. Expectativa. Ansiedade. Enfim, chegara o momento tão esperado: o mais belo sermão que, seguramente, aquele povo de Deus haveria de ouvir. O pregador disse: “Meus irmãos e minhas irmãs. Meu eminentíssimo irmão no sacerdócio e velho companheiro de Seminário, padre Afonso...”.

O padre Nabuco vacilou. Segurou o ambão com a mão direita, o microfone caiu da mão esquerda, e ele próprio tombou. Estava morto. Ninguém sabia, nem ele mesmo, que o seu coração andava por uma peinha de nada.  

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