Universidade pública: um bem de todos

14/10/2018 15:09:27 por Kleber Santos em Colunas
Angelo Roberto Antoniolli
Reitor da UFS

Somos um país que precisa acertar alguns passos. Governos após governos, a educação ainda deixa muito a desejar, especialmente no que diz respeito à educação pública. E, mais de perto, à educação pública superior. Tivemos alguns avanços, mas, é preciso avançar muito mais. Não poderíamos conceber uma educação universitária que acabasse servindo, sobretudo, às classes mais abastadas. Uma espécie de reserva de mercado para quem poderia pagar as boas escolas do ensino básico e, assim, ocupar majoritariamente as vagas nas instituições públicas de ensino superior, ou pagar os melhores cursos superiores nas melhores instituições privadas. O que seria, então, dos menos favorecidos? Seriam condenados, por maioria, a encerrar os estudos no ensino médio? Talvez num curso médio profissionalizante? Isto não seria isonômico. Não seria constitucional. Não seria republicano. 

A Constituição Federal assegura a igualdade de todos perante a lei. A lei, por seu turno, aponta direitos iguais quando se trata de buscar o amparo do estado para a prestação de serviços públicos. E que devem ser prestados de forma adequada, como acentua a Lei Maior. Não é preciso ser da área jurídica para saber disto. Aliás, todos o devem saber. 

A luta para que a Universidade pública continue pública deve ser de todos. Pública e com ensino de reconhecida qualidade. A Universidade pública tem sido responsável pela maioria das pesquisas acadêmicas. Pelo volume maior de projetos de extensão. Por uma diversificação inigualável de cursos, inclusive fora do chamado “eixão” de cursos que dão dinheiro fácil e vitrine a muitas Instituições de Ensino Superior da área privada. No Nordeste, especialmente, a Universidade Pública congrega a maioria esmagadora dos projetos de pesquisa e de extensão. E como o Nordeste precisa disso!

Ninguém venha, aqui, falar que nós da área educacional pública, estamos sendo corporativistas e estamos defendendo nossos cargos, aliás, conquistados por meio de concursos públicos, nossos vencimentos e, mais tarde, nossos proventos como futuros aposentados, no tempo devido e de acordo com as regras alusivas à matéria. Não é nada disso. O que estamos falando deve ser devidamente interpretado: nós lutamos ao longo de décadas para que o ensino superior público crescesse em quantidade e em qualidade. Para que todas as pessoas, de qualquer classe econômico-social, tivessem acesso ao ensino superior gratuito. O que conquistamos não deve ser relegado, mas, sim, melhorado e avançado, quem quer que seja o presidente eleito. É o que esperamos. 

O conservadorismo político, embalado pelo neoliberalismo mais avassalador, mais dogmático, estende os seus tentáculos sobre tudo que possa significar redução do estado, a fim de que se chegue ao estado mais acentuadamente mínimo possível. Dizem que é uma imposição das forças mais conservadoras do capitalismo internacional. A razão? Há dinheiro sobrando no mundo dito desenvolvido à espera de oportunidades no mundo dito em desenvolvimento. E, inicialmente, a educação superior passou a ser vista como um dos filões a ser explorado pelo capital internacional. Agora, alguns fundos de investimento norte-americanos e europeus miram também no ensino básico, inclusive em Aracaju, cujo colégio mais tradicional já foi adquirido por um desses grupos econômicos. 

Manter a estrutura educacional superior pública é imprescindível para que o país avance em todos os setores e para que o povo se afirme em sua dignidade. Não há progresso nem desenvolvimento sem educação e esta não pode simplesmente virar simples mercadoria. 

Há situações que precisam ser corrigidas nas Universidades Públicas? Nós temos clareza de que sim. Não somos dos tipos que se acomodam numa tal zona de conforto e ficam cegos. Queremos que a sociedade lute por um direito que a democracia consagrou: a igualdade de todos na luta pelo bem comum. Entendemos que a justiça social deve ser implementada passo a passo, pela conjugação de esforços dos governantes e dos governados. 

Não há bem comum mais precioso do que a educação em todos os níveis. A educação superior pública não deve deixar de ser pública. Esta deve ser a luta de todos que formam as comunidades acadêmicas. E o compromisso de quem nos deverá governar. A quem assim não puder entender, os nossos pêsames. 

Neste momento em que estamos na iminência de escolher o próximo mandatário da Nação, e em que a disputa recai entre um candidato à direita e outro à esquerda, o importante é que quem se eleger, quem merecer a aprovação popular, seja um ou outro, com este ou aquele plano de governo, com este ou aquele modo de governar, tenha a sabedoria de governar para o bem do povo, e não para corporações ou para atender caprichos ideológicos, quaisquer que sejam.

O Brasil precisa avançar muito mais nos âmbitos político, social e econômico. Avançar em sustentabilidade. Avançar nos modos de gestão. Aprimorar a democracia tão duramente conquistada. Quem quer que seja eleito presidente em 28 de outubro deverá ter o compromisso firme, acima de tudo, com a ética. A sociedade precisa estar vigilante. Mudanças foram imprimidas pelos eleitores no primeiro turno das eleições, sobretudo, na composição do Congresso Nacional e das Assembleias Legislativas. Os eleitores vão querer outras mudanças. E, com certeza, não saberão perdoar a volta dos deslizes tão cruelmente cometidos ao longo dos tempos por tantos mandatários que traíram a sua confiança. 

A Universidade pública é um bem de todos. Que seja aprimorada, mas que continue pública para que todos tenham oportunidade de disputar em condições de igualdade, e de acordo com o mérito de cada um, os mercados de trabalho, as oportunidades profissionais e, essencialmente, de ter como lutar cada vez mais e melhor pela afirmação da cidadania e da dignidade da pessoa humana, como tão bem apregoa a Constituição Federal. 

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