Cocô de elefante

21/10/2018 15:45:56 por Kleber Santos em Coluna José Lima
José Lima Santana
Professor da UFS

Américo de Galdino Fontes era o tipo de sujeito metido a ser o rei da cocada preta, da morena e da branca. De todas as cocadas. Até mesmo da cocada baiana, que só Perolina fazia naquela cidadezinha morrinhenta. Américo era pabo, inflado de vaidade, a ponto de quase não pisar no chão. Ele parecia levitar levemente quando caminhava, apesar de ser grandalhão. De tanta pabolice era o sujeito cheio, que nele botaram o apelido de Cocô de Elefante. Apelido mais do que apropriado para quem era inflado de gabolices. 

Mas, quem era mesmo o tal Cocô de Elefante? Um sujeito que não tinha, a bem dizer, eira nem beira. O pai, porém, Galdino Fontes das Embiribeiras era um pequeno proprietário rural, dono de umas poucas, mas, muito boas, tarefas de terra e de um gadinho miúdo, que também se dedicava ao comércio ambulante de cereais nas feiras de três cidades: Matão de Dentro, onde morava, Tijuquinha e Pau d’Arco. Todas elas cidadezinhas poeirentas, largadas nos sertões da Bocaiuva.

Cocô de Elefante tinha se arrastado nos bancos escolares da professorinha Dona Amélia de Vicente Gogó de Ouro, tocador de rabeca e cantador de baiões e xaxados. Não passara, todavia, do segundo ano primário. Lia e escrevia sofrivelmente. Lendo, gaguejava mais do que Tito Gaguinho do finado Zacarias Pançudo. Como o pai, Galdino Fontes, era muito chegado a Manequinha de Belmiro Alagoano, e este Alagoano era mesmo nome de família, embora pernambucano ele fosse, foi concedido a Américo Cocô de Elefante o cargo de fiscal da Prefeitura. Nem os talõezinhos com os quais se cobrava as taxas de feira ele os preenchia de forma legível. Era, a bem dizer, um verdadeiro tabacudo. 

O cargo de Cocô de Elefante, no qual ganhava uma miséria, fora-lhe concedido nos fins dos anos 1950, quando um genro de Manequinha, da UDN, era o prefeito municipal de Matão de Dentro. Manequinha de Belmiro Alagoano era o chefe inconteste da União Democrática Nacional desde a instalação do partido no município. Era, portanto, um “cara-preta” legítimo de carabina e cartucheira. Nos idos dos 30, ele e dois irmãos assentaram lugar na Volante do tenente Isaías Cospe Fogo, que combateu Lampião de três estados. Era do tipo que não aguentava subacada de ninguém. Homem nenhum lhe fazia cócegas na política. Antes, fora getulista. Depois, tornou-se brigadeirista, eleitor do Brigadeiro Eduardo Gomes. Para ele, os homens de bem deviam andar armados, especialmente na roça, para enfrentar os bandidos que por ventura aparecessem, vindos de outras plagas. Afinal de contas, em Matão de Dentro bandidos tinham vida curta e sujeitos mofinos morriam de caganeira, ainda nos cueiros. Manequinha era belicoso, violento. 

Nas eleições de 1962, depois de muito tempo sem aparecer um adversário que ameaçasse o poderio de Manequinha, eis que um neto de Tertuliano Sampaio, finado já em pó transformado, engenheiro formado nas Minas Gerais, deu para meter a cara na política local. O avô, Tertuliano, homem de paz, mas, nem por isso, um zé mané, fora chefe da oposição a Manequinha, liderando o Partido Republicano, que, no estado, era eterno aliado do PSD. 

Jovem bem apessoado, funcionário público federal, lotado no DNOCS, Geraldo Mota Sampaio começou a arrebanhar jovens e adultos para a sua fileira. Manequinha, octogenário, mas, ainda com pulso forte, começou a sentir-se incomodado com a presença do engenheiro. “Ainda sou muito homem pra botar esse frangote pra correr daqui com as calças na mão”, disse o velho líder aos seus apadrinhados. Ocorre que o neto de Tertuliano Sampaio era também neto do Coronel Francisco Tenório, chefe político no interior das Alagoas e, mais do que isso, antigo chefe de jagunços, cuja linhagem vinha desde os tempos do Império, nas pessoas de seus diretos antepassados, o Barão da Boa Morte, o Coronel Peregrino Tenório, que, um dia, fechou à bala a Assembleia Legislativa, em Maceió, e do também Coronel Aristides Tenório, este coronel da Polícia Militar alagoana, e não coronel de patente comprada da antiga Guarda Nacional. Portanto, peco Geraldo Sampaio não era. Descendia, pois, de boa ninhada.
 
Por onde anda Cocô de Elefante? Teria sumido no oco do mundo? Não, não e não! Ei-lo de volta à narrativa. Numa sexta-feira, véspera da feira semanal de Matão de Dentro, após duas semanas em que Geraldo Sampaio instalara-se de vez na cidade, arranchando-se na casa da avó viúva, Dona Terencinha Sampaio, e de ter aberto noutra casa da avó a sede do Partido Republicano, Manequinha de Belmiro Alagoano convocou uma reunião dos seus apaniguados. Estava chegando a hora de dar uma lição no doutorzinho. O plano era simples. Alguém iria à tal sede do partido opositor para desferir uns tiros para o alto, desmantelando algumas telhas e botando os da corriola do engenheiro para correr. Pensava Manequinha que apenas uns tiros fariam Geraldo Sampaio encolher o rabo entre as pernas e voltar para a capital, para cuidar da mulher e dos dois filhos. 

Manequinha escolheu logo quem para executar o serviço? Sim, ele mesmo: Cocô de Elefante. Afoito, cheio de si, a própria empáfia em pessoa. Um servicinho daquele era moleza e, ainda por cima, lhe daria crédito de montão junto ao chefe. Ah, mas olheiros os há em todos os lugares! Pois não era que Geraldo Sampaio tinha um olheiro infiltrado nas hostes de Manequinha? O plano lhe fora passado tin-tin por tin-tin. O serviço sujo do qual Américo de Galdino Fontes fora encarregado era para ser executado no sábado, por volta das dez horas, quando a feira estaria no auge. E a sede do PR ficava na Praça do Comércio, local de maior atração da feira. 

No horário combinado, Cocô de Elefante dirigiu-se à sede do PR. Portava na cintura um três-oitão canela seca carregado até a boca. Alguns paus-mandados de Manequinha ficaram aperuando ali por perto, para ver o rebuliço. O rei de todas as cocadas aproximou-se da calçada. Meteu a mão na cintura por baixo da camisa. De dentro da casa para a calçada, uns vinte homens surgiram, à frente o engenheiro Geraldo Sampaio, armados até os dentes. Cocô de Elefante parou. Tremeu. Gaguejou. Mijou-se e cagou-se todo. 

Américo de Galdino Fontes não passava mesmo de um cocô de elefante. Só tinha tamanho.

As eleições daquele ano, 1962, botaram por terra o mandonismo de Manequinha de Belmiro Alagoano. A paz reinou em Matão de Dentro. 

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