O que se move e o que não se move depois da greve dos caminhoneiros

21/10/2018 15:47:18 por Kleber Santos em Coluna Ricardo Lacerda
Ricardo Lacerda
Professor da UFS

Difícil falar sobre o comportamento do nível de atividade quando as instituições nacionais se encontram sob ameaça, diante do risco iminente da eleição de um candidato a presidente que já deu demonstrações cabais de falta de compromisso com as regras democráticas e cuja campanha se assenta na incitação ao ódio e à intolerância. 

Os amplos setores da sociedade que atualmente apoiam o candidato que vocifera slogans chamando à ordem provavelmente se defrontarão no próximo ano, caso se confirme a sua vitória, com enormes decepções, quando as frustrações nos mais diversos campos começarem a se acumular. Oremos, pois, para que dê tempo para consertar os estragos que serão necessariamente produzidos por uma gente que se mostra despreparada para a convivência democrática e ainda mais para governar, nas mais diversas áreas, inclusive na economia. 

Façamos uma pausa na política, o que não é fácil diante das preocupações reinantes, para tentar avaliar os últimos indicadores de atividade. Os dados referentes ao mês de agosto, publicados nos últimos dias, sinalizaram que os impactos mais diretos da greve dos caminhoneiros começam a ser dissipados. 

Setores de atividade
Os números de maio e, em alguns setores, de junho, foram tão fora dos padrões que há muita dificuldade para avaliar exatamente o que os resultados dos meses seguintes significam em termos normalização da produção e de crescimento: o comércio varejista apresentou crescimento de 1,3% em agosto, em relação ao mês de julho, depois de três meses de recuo, não chegando, todavia, a repor, na série livre de feitos sazonais, o nível de atividade anterior à paralisação nacional dos rodoviários.   

A indústria de transformação já havia recuperado em junho o nível de atividade perdido em maio, mas desde então não apresenta novos incrementos. O setor de serviços, o segmento que mais retardava o crescimento entre os diversos setores de atividade, vem apresentando fortes oscilações mensais desde maio e no mês de agosto apresentou resultado relativamente robusto, com crescimento de 1,2% em relação a julho na série livre de feitos sazonais. 

Na comparação com igual mês do ano anterior, o volume de vendas do varejo apresentou crescimento robusto em agosto, ainda que as taxas tenham se apresentado muito dispersas entre os setores. Essa também tem sido a marca das atividades de serviços, forte dispersão entre as taxas de crescimento entre os subsetores, revelando a fragilidade da recuperação da atividade.
 
A retomada das atividades industriais, que se iniciou mais cedo do que no comércio e nos serviços, tem se mostrado mais robusta, ainda que alguns subsetores de bens de consumo não duráveis, como têxteis, calçados e alimentos industrializados mantenham produções rebaixadas, além da fabricação de materiais para a construção civil. 

Cabe alertar que permanecem as dificuldades em avaliar o significado dos resultados mais recentes; o quanto do incremento nos últimos meses se deve à reposição dos volumes de produção e vendas perdidos durante a greve dos caminhoneiros e o quanto se deve ao retorno à trajetória de crescimento, mesmo modesto, interrompido nos meses de maio e junho. 

Desconfio que a interpretação dos resultados na série livre de efeitos sazonais mais recentes ficou relativamente comprometida pelos números tão adversos de maio e junho. Nesse sentido, observar a série de indicadores sem o ajuste sazonal, na comparação com igual período do ano anterior, notadamente os resultados acumulados ao invés de mensais, permite captar melhor o comportamento recente do nível de atividade. 

Trimestre e doze meses
Os resultados do mês de agosto são os primeiros que permitem calcular as taxas de crescimento trimestrais sem a maior parte do impacto direto da greve dos caminhoneiros. 

Na comparação com igual trimestre de 2017, o crescimento do volume de vendas do varejo no trimestre completado em agosto alcançou 1,5%, quando antes da paralisação nacional estava rodando quase 4%, em relação a igual trimestre do ano anterior. Em doze meses acumulados as diferenças são bem atenuadas, com índices de crescimento do volume de vendas no varejo similares do período anterior à paralisação nacional, ainda que as vendas no varejo em alguns subsetores permaneçam rebaixadas, como moveis e vestuário e calçados.

Na indústria de transformação, a produção física em doze meses cresceu 2,2%, em relação a igual período anterior, bem inferior ao ritmo anterior à paralisação (cerca de 4%), e muitos dos segmentos de bens de consumo não duráveis continuam com a produção rebaixada. Finalmente, as atividades de serviços, que antes da paralisação nacional rodavam abaixo dos resultados de 2017, apresentaram resultado notavelmente favorável no trimestre encerrado em agosto de 2018, com destaque para os segmentos de transporte e armazenagem.

Para finalizar, o gráfico apresentado traz a evolução das taxas trimestrais e em doze meses do crescimento do Índice de Atividade do Banco Central (IBC-BR), em relação a iguais períodos anteriores. Nas duas séries, o crescimento do nível de atividade da economia brasileira já vinha desacelerando desde o último trimestre de 2017, situação que se agravou no 2º trimestre de 2018.

Após os impactos a paralisação dos caminhoneiros, a economia brasileira, aparentemente, retoma a atividade, com ritmo de incremento de cerca de 1,5%, com uma dispersão relativamente grande entre setores, subsetores de atividade e regiões. O mercado de trabalho continua eliminando empregos formais. A melhor aposta na recuperação seria um forte estímulo aos investimentos públicos na construção civil. Mas as perspectivas eleitorais definitivamente não apontam para a pacificação política da nação.


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