À queima roupa

26/11/2018 10:10:44 por Kleber Santos em Coluna Clóvis Barbosa
Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE

Em 2008, Antonio Marcos Pimenta Neves queria advogar. Mangação. Neves é aquele jornalista que, em 2000, matou a namorada por ciúmes. Sandra Gomide (a vítima), uma jovem com pouco mais de trinta anos, deu um fim no relacionamento que mantinha com o então sessentão porque se apaixonara pelo equatoriano Jaime Mantilla. Mas isso não vem ao caso. Relevante é a atração que o assassino começou a nutrir pela advocacia. Talvez porque também tencionasse matá-la. Com efeito, é o que iria suceder se a OAB-SP não desse um basta no surto do sociopata. Preconceito? Não. Admitir um homicida na OAB é o mesmo que aceitar um sádico tratando feridos de guerra ou um pedófilo como diretor de creches e orfanatos. A advocacia veio ao mundo com o propósito de defender a liberdade e a vida, coisas das quais Pimenta não entende patavina. A uma porque não deixou Gomide livre para escolher com quem viver. A duas porque nem a deixou viver.

Creio até que não era necessário recorrer à lei para brecar a sandice de Neves. Tudo bem que o Estatuto da Advocacia diga que uma das exigências para que o bacharel venha a ser advogado esteja ali onde ele apresente “idoneidade moral” (art. 8º, inciso VI, da Lei nº 8.906/1994). Tudo bem que o mesmo Estatuto prescreva que não é idôneo quem exibir uma condenação por crime infamante. Tudo bem que infamante seja aquele crime que atribui má-fama ao delinqüente (infamante ainda carrega essa acepção, a não ser que a reforma ortográfica também seja semântica). Tudo bem que Pimenta Neves não tenha lá uma das melhores famas (ele só matou a namorada com dois tiros, um dos quais na cabeça e à queima roupa – que bobagem). Tudo bem para tudo isso. Mas a lei era o que menos importava agora. O direito não se resolve na lei. O direito resolve-se a partir da lei. O direito, a rigor, resolve-se na ordem. Neves advogar é desordem.

Quando concebeu o “direito quântico” (na década de 1970), o professor Goffredo Telles Jr. sonhava com uma dimensão holística para a ciência. O vocábulo “holismo” foi usado pela primeira vez no final da década de 1920, por um sul-africano: Jan Christiaan Smuts. O holismo, em verdade, traduz uma filosofia segundo a qual a energia que regula todo o universo mantém-se harmônica em quaisquer das manifestações de existência. Seja na biologia, na física, na química, no direito etc. O que irá definir a ordem das coisas será aquilo que o filósofo bretão Pierre-Félix Guattari conceitua como “o domínio molecular do desejo, da inteligência, da sensibilidade”. Por exemplo, você já se perguntou por que o homicídio é repudiado em toda e qualquer civilização, por mais primitiva que ela possa transparecer aos olhos? Porque a “ordem” da vida, que a inteligência emana, está como que impregnando nossa alma genética.

O que for além da ordem será desordem. O ficar aquém da ordem também será desordem. Como cantou Gregório de Matos Guerra e feito em partes todo em toda parte, em qualquer parte sempre fica o todo. Veja que o “Boca do inferno”, já no século XVII, tinha a noção holística de acordo com a qual a parte, embora retirada do todo, não perde a impressão genética com que este a dotou. Bem assim o todo, que não deixa de sê-lo porque lhe suprimiram uma das partes. Daí dizer Gregório, no mesmo poema, que quando encontraram um braço do menino Jesus, não toparam apenas com o braço. Depararam-se com o menino Jesus em inteireza, porquanto o braço, que lhe acharam, sendo parte, nos disse as partes todas deste todo. Quem via o braço, via o Cristo. Bonito. Se Neves viesse a ser advogado, quem olhasse pela OAB veria uma alcateia. E quem olhasse para Neves, veria a OAB com a tez genética do crime.

A bíblia ensina que assim como algumas moscas mortas podem estragar um frasco inteiro de perfume, assim também uma pequena tolice pode fazer a sabedoria perder todo o valor (Ec 10,1). Caso Pimenta Neves passasse a ser parte da OAB, o aroma de liberdade que ela sempre exalou se dissiparia. Em seu lugar ficaria uma cor fétida de morte. Aliás, a mesma bíblia, no gênesis, narra a história de Agar, escrava de Abraão. Ali é dito que, como Sara, esposa do patriarca, era estéril, ela consentiu que Abraão deitasse com Agar e nela fizesse um filho. Nascida a criança (Ismael), Agar passou a humilhar Sara, solapando a alegria da família. Como punição, Agar foi abandonada no deserto de berseba. E Sara voltou a ter paz. Numa palavra, a quebra da harmonia não é holística. Rompe com o equilíbrio “genético”. Causa um câncer no convívio. O lugar de Pimenta Neves não era a casa da liberdade. É o deserto.


Post Scriptum

A joalheria 


Chiquito a vida inteira foi um homem pacato, sempre vivendo em função do seu trabalho - na compra e venda de produtos hortigranjeiros - e da sua família, representada pela mulher e três filhos. Mantinha uma rigorosa fidelidade à esposa e se gabava de nunca tê-la traído. Para se ter uma ideia, todos os dias levava para a mulher dois beijus molhados, sempre quentinhos, iguaria que comprava numa bodega a caminho de casa. Jamais sua conduta recebeu a mais tênue suspeita, aliás, a sua fama de fiel era contada em verso e prosa naquele grande município sergipano. As mulheres traídas, nas brigas com seus maridos, sempre citavam o exemplo de Chiquito como protótipo do verdadeiro homem. Até o pároco da cidade fazia questão de tecer as maiores loas ao seu comportamento nas homilias. Exagerado, certa vez ele falou: Fiel, perseverante e fecundo são as características do amor que Jesus tem pela Igreja, sua Esposa; são também, portanto, as características da união de Chiquito com a sua família. Dona Finha, sua mulher, fazia questão de elogiar a compostura do esposo nas reuniões com outras mulheres casadas. – Confio mais em Chiquito que em meus pais. Evidente que nessas amizades sempre tem uma mais ousada, desbocada, uma mal-amada, que adora melar a felicidade dos outros. - Ah! Minha filha, não acredito em homem fiel!!! Ele só o é até conhecer outra mulher. E quando conhece mais de uma, em duas não fica! Não acredito Finha, tenha santa paciência, não acredito!!! Finha retrucou: – Que horror! E entre os dentes: - Pura inveja! Mas o tempo passa e Chiquito, que sempre apoiou um grupo político da cidade, foi lançado candidato a vereador, tendo uma retumbante vitória, sendo o mais votado do município. O seu discurso era o mesmo: - Desafio que exista neste município um homem mais fiel do que eu. Fiel à esposa, à família, aos amigos, e agora aos meus eleitores. E sempre terminava com o bordão: - A fidelidade do amor. Sempre!!! Quatro anos mais tarde foi reeleito, tornando-se, novamente, o vereador mais votado. Isso o credenciou a assumir a Presidência da Câmara. Sua popularidade era crescente no município. Sempre esteve ao lado do seu grupo político original. Tinha uma fidelidade canina à líder do seu agrupamento, a deputada estadual Lucinha dos Guedes. Daí foi um pulo para Chiquito ser escolhido o candidato do grupo para disputar o executivo, quatro anos depois. Mais uma vez, ele deu um show e massacrou o candidato da oposição. Foi uma festa na cidade. Ele passou a ser assediado pelos caciques políticos do Estado, mas fazia questão de sempre discutir as questões com o seu grupo. Fez uma bela administração e revolucionou a cidade. O seu tino administrativo era admirado por todos e já se falava numa possível candidatura a Governador. Foi reeleito prefeito também com uma grande votação e era uma figura cada vez mais prestigiada. Bom, a partir daí as coisas começaram a mudar na vida pessoal e na gestão dos destinos da Prefeitura. Prá começo de história, anunciou que iria lançar o seu filho como candidato a deputado estadual. Isso fez com que rompesse com o seu aglomerado político, o que causou grande trauma em Lucinha dos Guedes. Passaram a ser inimigos e ele chamado de traidor. Sua administração, então, começou a ser radicalmente fiscalizada. A oposição não dava trégua e sua honestidade começou a ser colocada em dúvida. Mas, independentemente da guerra contra o administrador, era preciso investigar sua vida pessoal. Depois de muito trabalho, Mirinha de Adolfo, dona da principal joalheria da cidade, confessou à irmã, numa viagem a Miami-EUA, que Chiquito tinha três amantes: uma na cidade, outra na Capital e uma terceira numa cidade vizinha, todas clientes de sua loja. Como o prefeito tinha autorizado a colocar em sua conta qualquer compra feita por elas, Mirinha usava de astúcia para vender a sua mercadoria: - Quando uma comprava, eu ligava para a outra, avisando. ‘Fulana, ontem a sua rival da cidade vizinha esteve aqui e comprou um anel de 4 mil reais’. No dia seguinte a da capital corria e comprava uma joia de 6 mil. E assim tem sido feito. Estou tão feliz com as vendas, irmã! Pronto, a irmã de Mirinha contou para o marido, este para o irmão, o vizinho também ouviu e de repente estava na boca do povo e da oposição. Não precisa dizer mais nada. A fama da infidelidade de Chiquito atravessou os muros da cidade e se espalhou por todo o Estado. E ainda descobriram que ele não era o único das suas três amantes. Agora, além de sair da prefeitura, o pobre Chiquito perdeu a esposa, as amantes e a credibilidade. Pior ainda prá Mirinha de Adolfo, que amarga um prejuízo de mais de setenta mil reais das joias que não foram pagas.  

Clóvis Barbosa escreve quinzenalmente, na edição de fim de semana

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