Por que mataram Carlos Firpo?

07/01/2019 10:21:57 por Kleber Santos em Coluna Clóvis Barbosa
Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE

Em junho de 1958 eu tinha exatamente dez anos. Pela primeira vez, após a minha saída da cidade de Estância há sete anos, eu voltava à terra em que nasci. Numa manhã chuvosa, na Estação da Calçada, em Salvador, capital baiana, embarcava com minha avó paterna, Júlia Modesto de Melo, em direção ao estado de Sergipe. Trinta e seis horas depois chegávamos à Estação Ferroviária da cidade de Salgado. Ali dormimos numa pensão e na madrugada do dia seguinte, de caminhão, seguimos para a cidade de Estância. Eram parcas as minhas lembranças sobre a terra que me viu nascer, mas, durante os trinta dias que ali fiquei, fiz algumas amizades e vivenciei um pouco dos costumes e dos acontecimentos da vida estanciana e sergipana. Era o mês de junho, período rico das festas de largo, que se concentravam sempre na praça Barão do Rio Branco. Dias antes, em Salvador, tinha lido no jornal A Tarde e ouvido nos noticiários da Rádio Sociedade da Bahia notícias sobre o assassinato do médico Carlos Firpo em Aracaju, cuja autoria, segundo a imprensa baiana, seria de sua mulher junto ao amante, um militar da Aeronáutica. Aquilo atiçou a minha curiosidade e, quando cheguei em Estância, procurei notícias sobre o infausto acontecimento. As crianças de minha idade não tinham qualquer ideia crítica sobre o evento, mas, as pessoas mais velhas criavam todo tipo de ilação sobre os motivos que levaram ao crime. No calor das discussões e das notícias que pululavam diariamente na imprensa sergipana, três versões, pelo menos naqueles dias, tentavam justificar o ilícito praticado contra um médico bastante respeitado pela sociedade: a do crime passional, cujos mandantes teriam sido a mulher do médico, Milena, e seu suposto amante Afonsinho, jovem Coronel da Força Aérea Brasileira; a do crime político, muito comum na época em Sergipe; e a do crime levado por questões familiares e ligados ao direito de herança. Voltei a Salvador, mas aquele crime marcou bastante a minha infância.

Quando retornei a Sergipe, na quase metade da década de 1960, procurei informações e comecei a ler tudo que se falava a respeito daquele crime, que teve repercussão nacional ante as circunstâncias e pessoas envolvidas. O jornal Última hora, do Rio de Janeiro, cobriu todo o desenrolar do processo, cuja nata da advocacia brasileira atuava na defesa e na acusação, esta como assistente do Ministério Público. Os historiadores sergipanos trataram muito pouco ou quase nada do tema, à exceção de uma obra, Sergipe por um óculo, de José Lopes Bragança, um militar do exército que serviu em Sergipe durante algum tempo e que estava presente por ocasião do crime de Carlos Firpo. O livro dedica sete páginas ao acontecimento, no que se constitui como o mais amplo trabalho escrito da época. Bragança diz, na conclusão do seu opúsculo, que tinha o objetivo de “contar aos brasileiros como se desenrola a vida em Sergipe”. E o faz, mostrando uma realidade dantesca do Estado naquela época, tanto no campo da economia como na política. Recolhi algum material e guardei. Mais tarde, nos anos de 1990, fiz amizade com o jurista Evandro Lins e Silva, que era meu colega Conselheiro Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, e que atuara na defesa de Milena e de seu pai Nicola Mandarino. Inquiri Evandro, durante vários anos, sobre o crime de Carlos Firpo e ele me falou dos bastidores do processo, da sua atuação, da briga com o seu colega e amigo Sobral Pinto, que atuou na acusação, da sua tese sobre o verdadeiro motivo do crime. Enfim, num encontro no Rio de Janeiro, por volta dos anos 2000/2001, onde ele tinha o seu escritório, voltamos a falar sobre o assunto. Falei-lhe da minha intenção de escrever um livro sobre o evento e ele me estimulou bastante, dizendo-me, inclusive, que eu iria fazer um resgate da verdadeira história e do sofrimento da família Mandarino. Depois de me entregar alguns recortes e dados do processo, Evandro aceitou meu convite para escrever o prefácio, mas morreu em 2002, não chegando a deixá-lo pronto.

Após a sua morte, adiei um pouco o meu projeto, até porque tinha algumas dúvidas sobre uns acontecimentos e precisava dirimi-las. Desde 1970 venho conversando e gravando depoimentos com muitos sergipanos e testemunhas oculares de alguns fatos ocorridos ao redor do crime. Dentre tantos, destaco o advogado Achiles Lima, que atuou na acusação ao lado de Sobral Pinto; Humberto Mandarino; Evandro Lins e Silva; Milena Mandarino; Seixas Dória; Desembargador Antônio Machado, Secretário de Segurança Pública à época do crime; Lauro Porto, parente da família Mandarino; médico Antônio Garcia, autor da letra da música Injustiçada, gravada por Alcides Gerardi, onde defende a honra de Milena Mandarino; policial José Rozendo Santos; e Luiz Eduardo Costa. Tive acesso a gravações dos programas dos radialistas Silva Lima e Santos Mendonça, ambos de grande audiência em todo Estado; jornais da época; petições dos advogados de defesa Evandro Lins e Silva, José Laurindo Cerqueira e José Mesquita Santos; cópia do inquérito e do processo judicial com os seus recursos e decisões. Em 2008, cinquenta anos depois do crime, uma bomba estourava na imprensa sergipana. O jornalista Luiz Eduardo Costa começaria a escrever, no Jornal do Dia de Aracaju, uma série de artigos sobre o malfadado evento da rua de Campos. E traz uma novidade que resgata toda uma estória criada durante o inquérito policial dirigido pelo Secretário de Justiça da época, Heribaldo Vieira: a questão da confissão de Milena Mandarino Firpo. Apesar de estar acompanhado por José Machado de Souza, vice-governador do Estado, Lauro Porto, Seixas Dória - então deputado federal - e de Humberto Mandarino, irmão da viúva, Heribaldo Vieira foi ouvi-la em sua residência, contudo, não deixou os seus acompanhantes adentrarem ao quarto para assistirem ao depoimento. No dia seguinte, Heribaldo anunciava na imprensa a confissão de Milena, que ao lado do seu amante, Coronel Afonsinho, seriam os mandantes da morte do marido.

A verdade é que Milena repeliu todas as acusações e perguntas impertinentes de Heribaldo, o que a levou, a certa altura do depoimento, ao desmaio. Na manhã seguinte, com as emissoras de rádio falando sobre a confissão, Milena negou o seu conteúdo. A esta altura, justiça e opinião pública estavam com a cabeça feita e imediatamente a prisão de Milena foi decretada, sendo recolhida ao reformatório penal do Bairro América. Mas qual a novidade trazida pelo jornalista Luiz Eduardo Costa, cinquenta anos depois? De posse de sete assinaturas de Milena Mandarino Firpo, “feitas ao longo do inquérito policial e do processo, em diferentes datas e em diversos documentos”, Luiz Eduardo procurou o advogado e funcionário aposentado do Banco do Brasil, Antonio Newton de Oliveira Porto, perito grafotécnico, notório conhecedor da matéria e com vasta experiência na área. Dentre as sete assinaturas, estava aquela que ratificava a confissão. Após alguns dias, o perito Porto elaborava o seu laudo e afirmava textualmente que assinatura de número sete (justamente aquela do depoimento prestado por Milena a Heribaldo em sua casa) era falsa e não fora do punho da subfirmada. Como é do conhecimento de todos, na confissão alguém reconhece como verdadeira a existência de um fato que lhe é desfavorável, ou seja, uma declaração voluntária de ciência de um fato. Sendo irrevogável, a confissão só poderá ser anulada quando emanada de erro de fato, falsidade ou se feita sob coação. Quem mandou matar Carlos Firpo? O que estava por trás do assassinato? Por que toda uma trama foi urdida para desmoralizar uma mulher e sua família? Por que a polícia e a justiça, apesar do depoimento da viúva de que não assinara o depoimento prestado na polícia, não determinaram na época o exame grafotécnico da assinatura? Quem foram os verdadeiros mandantes do crime? Quais os motivos? Por que mataram Carlos Firpo? São perguntas que, em breve, poderão ser respondidas por duas obras a serem lançadas neste ano. 

Clóvis Barbosa escreve aos sábados, quinzenalmente

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