Teoria dos Complexos

17/03/2019 11:09:58 por Kleber Santos em Coluna Clóvis Barbosa
Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE

Carl Gustav Jung (1875-1961), psiquiatra e psicoteraupeuta suíço, é o fundador da chamada psicologia analítica que, dentre outros estudos, desenvolveu os conceitos de personalidade extrovertida e introvertida, arquétipo e inconsciente coletivo. Aproximou-se de Freud no começo do século XX, dado que ambos elaboravam projetos inéditos nas áreas da medicina e da psiquiatria. Mais tarde, ambos romperam a amizade, já que Jung não aceitava as teses de Freud sobre as causas dos conflitos psíquicos, que seriam provenientes de algum trauma de natureza sexual. Já Freud, não admitia o interesse de Jung pelos fenômenos espirituais. Mas não é o meu interesse aqui discutir as divergências desses dois grandes teóricos da psicanálise. Interessa-me, sim, a questão dos complexos, tão arraizados hoje no nosso dia a dia. O professor Walter Boechat, estudioso de Jung, Mestre pelo Carl Gustav Jung Institut Zurich – Universitat Zurich, em brilhante artigo sobre a “A teoria dos complexos de C.G.Jung aplicados aos estudos da cultura”, diz que o autor suíço designa o termo complexo afetivo como um grupamento de representações mentais mantidas juntas pela emoção, que se organizam a partir de experiências emocionais significativas do indivíduo. Essa questão do complexo afetivo foi abordada por um trabalho de Jung em 1934. Ele diz: o que é, portanto, cientificamente falando, um complexo afetivo? É a imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e, além disso, incompatível com as disposições ou atitude habitual da consciência. Esta imagem é dotada de poderosa coerência interior e tem sua totalidade própria e goza de um grau relativamente elevado de autonomia, vale dizer: está sujeita ao controle das disposições da consciência até um certo limite, e por isso, se comporta, na esfera do consciente como um corpus alienum (corpo estranho), animado de vida própria. 

Sobre o conceito de arquétipo, Jung descreve como um conjunto de imagens psíquicas presentes no inconsciente coletivo, ou seja, a parte mais profunda do inconsciente humano. São essas informações que influem nos determinados tipos de comportamento. Evidente que essas imagens psíquicas absorvidas durante o tempo fazem com que a pessoa perca, aos poucos, os seus mecanismos de proteção e acabe desenvolvendo um certo tipo de complexo, digamos, afetivo. Nesse diapasão, encontramos vários tipos de conflitos emocionais, alguns explicados cientificamente, outros acrescentados por novos estudos sobre a matéria e alguns, ainda, formalizados pela criatividade popular. Enfim, a palavra complexo tornou-se comum em todas as áreas e serve para explicar qualquer tipo de comportamento humano. Vejamos alguns de seus tipos: Complexo de Inferioridade: constitui-se num sentimento em que uma pessoa se considera inferior a outras. Acredita cegamente nisso e passa a agir como se fosse verdade. Daí os sintomas de comparação, a busca por reconhecimento, preocupação excessiva com as opiniões alheias a seu respeito, mania de apontar defeitos nos outros para se proteger, isolamento, inveja, vitimismo, baixa autoestima, ausência de autocrítica, etc. Saliente-se que a psicanálise apenas postulou dois tipos de complexo, o de Édipo e o de Castração. Mas, na verdade, todos eles são derivados do complexo de inferioridade, que teve como maior estudioso o psicóloco austríaco Alfred Adler (1870-1937), considerado o fundador da psicologia do desenvolvimento individual. Complexo de Superioridade: é a tentativa de compensar os problemas de inferioridade que a pessoa possui, ou seja, ele projeta para outrem aquilo que ele é. Ele marginaliza, ofende e exclui aqueles que ele tem como subordinados. Complexo de Édipo: desenvolvido por Freud, inspirou-se na tragédia grega de Sófocles, Édipo, o Rei, escrita por volta do ano 427, a.C.

Esse complexo se desenvolve numa fase da criança do sexo masculino que se sente atraída psicosexualmente pela figura materna, rejeitando e se rivalizando com a figura paterna. Surge na “fase fálica”, entre os 3 e 5 anos de vida, após, conforme Freud, as chamadas fases oral e anal. Como todos sabem, a tragédia grega conta a história de Édipo, filho de Laio e Jocasta, abandonado ainda criança no Monte Citerão, entre Tebas e Corinto, com os pés amarrados e deixado ali para morrer. Um pastor encontrou a criança e levou-a para Corinto onde foi criado pelo rei Pólibo. Já adulto, consultou o Oráculo de Delfos para saber de sua origem, sendo esclarecido sobre um terrível destino: sua sina seria matar o pai e desposar a mãe. Tentando fugir da profecia, ele abandona Corinto. Mais tarde, numa encruzilhada, discute com um velho homem e, fora de si, mata o mesmo e sua comitiva. Ao chegar em Tebas, a Esfinge propõe-lhe um enigma. Se errasse, morreria, se acertasse a sua vida estaria salva bem como a cidade. Como recompensa, recebe de Creonte, irmão da rainha e então regente de Tebas, o título de rei e a mão de Jocasta, viúva de Laio, o rei assasasinado misteriosamente numa encruzilhada com toda sua comitiva. Anos mais tarde, depois de muitos fatos ocorridos, descobre-se que ele, Édipo, fora o assassino do próprio pai, Laio (o velho assassinado na estrada) e casou-se com a própria mãe, Jocasta, tendo com ela quatro filhos. Jocasta suicida-se e Édipo fura os próprios olhos e passa a ser andarilho. Vale a pena conhecer essa obra, tida por Aristóteles, em sua Poética, como a mais perfeita tragédia grega. Aliás, observe-se que há uma tremenda contradição de Freud ao escolher o escrito de Sófocles como influenciador do seu complexo. Ele diz em sua obra A interpretação dos Sonhos que quem sofre desse mal tem consciência de quem são os seus pais, diferentemente, portanto, de Édipo na tragédia, que não sabia da identidade de seus pais.

Complexo de Electra: desenvolve-se na criança do sexo feminino e consiste na etapa em que a filha passa a se sentir atraída pelo pai, disputando com a mãe sua atenção. Electra é uma personagem da mitologia grega, filha de Agamemnon e Clitemnestra, irmã de Orestes, Crisotemi e Ifigênia. É personagem de duas peças e uma paródia, escritas por Sófocles, Eurípides e Ésquilo, respectivamente. Electra induziu seu irmão Orestes a matar a própria mãe, acusada de ter mandado executar o seu pai. O complexo de Electra é, na verdade, a versão feminina do complexo de Édipo. Complexo de Castração: diferentemente do que o nome diz, esse complexo nada tem a ver com a ideia de mutilação dos órgãos genitais, mas com uma experiência que se repete em várias fases da vida. Freud desenvolveu essa tese em 1908, após tratar um caso de fobia num menino de cinco anos. Ele parte de quatro premissas para explicar esse processo psíquico, tanto no menino como na menina. No menino, inicialmente, ele descobre que tem um pênis e acha que todo mundo possui um órgão idêntico; o segundo momento é a ideia da ameaça, quando o menino deseja substituir o pai em relação à mãe (complexo de Édipo). É a etapa em que ele constrói a imagem de que esse seu comportamento – rechaçado pelos pais com ameaças – é o castigo da castração que poderá sofrer. A seguir, a descoberta da ausência de pênis nas mulheres, mas vagina; essa realidade é associada ao fato de que a ausência de pênis é uma castração. Finalmente, a fase da angústia, quando descobre que a sua mãe é mulher e não tem pênis, surgindo a noção de que a mesma teria sido castrada. Mas esse processo se encerra na fase de resolução, quando o menino não quer mais assumir o lugar do pai em relação à mãe, aceitando a lei paterna. Já o complexo de castração das meninas possui comportamentos idênticos, só que, para elas, o clitóris representa o pênis; como é pequeno, fixam-se na ideia da castração. 

Muitos outros tipos de complexos surgem a todo momento, nem todos reconhecidos cientificamente, mas sempre irradiados pelo complexo de inferioridade. São vários os tipos: Messias, Deus, Napoleão, Aristóteles, Doctor Who, Narcisista, etc. Mas tem um tipo de complexo que está em voga atualmente em Sergipe. É o Complexo de Geração, urdido nas profundezas de um sentimento doloroso: a inveja. O senador Alessandro Vieira foi escolhido pelo povo nas últimas eleições com uma votação estupenda, mandando para a aposentadoria velhos caciques da política sergipana. A sua atuação parlamentar – menos de dois meses – está sendo fiscalizada de forma veemente por setores da imprensa e alguns cidadãos que, aqui e ali, deixam transparecer seus conflitos psíquicos. Tudo porque o senador nomeou quatro profissionais de fora do Estado para compor sua assessoria, ato visto como uma estupidez e falta de compromisso do parlamentar com o povo que o elegeu. Os perfis de seus algozes são bastante evidentes: frustrados em suas vidas, não permitem o sucesso de seus conhecidos e, principalmente, daqueles de sua geração. Para tanto, utilizam-se de um discurso para esmigalhar, em segundos, a performance que este ou aquele homem conseguiu edificar. Aliás, a Bíblia, no livro de Tiago, registra que “Toda espécie de feras, de aves, de répteis e de animais marinhos é domada e tem sido domada pela espécie humana. Mas a língua, ninguém consegue domá-la: ela é um mal irrequieto e está cheia de veneno mortífero. Com ela bendizemos ao Senhor, nosso Pai, e com ela maldizemos os homens feitos à semelhança de Deus. Da mesma boca provém bênção e maldição”. Aquele que ridiculariza quem está onde gostaria de ter chegado é porque não está posicionado profissionalmente onde acredita que merece estar. Na verdade, sente uma ponta de inveja daquele que conseguiu algo que ele não conquistou. É o tal complexo de geração.

Clóvis Barbosa escreve aos sábados, quinzenalmente.

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