Quarta-feira de cinzas

14/04/2019 20:47:59 por Kleber Santos em Coluna Clóvis Barbosa
Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE

Em 2010 foi lançado em Paris um livro que causou a maior polêmica. Tratava-se de uma obra de Michel Onfray, doutor em filosofia, defensor do hedonismo, do ateísmo e da anarquia, autor de mais de 40 livros. “Le Crépuscule d’une Ídolo – L’affabulation Freudienne” é tida como um morteiro de alto calibre direcionado à vida e obra freudiana. Após passar o sarrafo na psicanálise, acusando-a de ser uma ciência nazista e fascista, entra na vida pessoal de Freud, incriminando-o de se apropriar de textos de Schopenhauer e Nietzsche, de ser um burguês inveterado pela celebridade e até de manter uma relação adúltera com uma cunhada que vivia em sua casa. Por fim, taxa-o de falocrata, misógino e homofóbico. A reação ao escrito de Onfray, segundo matéria publicada na Folha de São Paulo, edição de 25 de abril de 2010, Caderno Mais, veio de dois intelectuais: Elisabeth Roudinesco, psicanalista, nascida em 1944, professora de História da Universidade de Paris, autora de “Em defesa da Psicanálise” e “A Parte Obscura de Nós Mesmos”; e John Forrester (1949-2015), que foi Chefe do Departamento de História e Filosofia da Ciência na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, autor de “Seduções da Psicanálise”. Roudinesco, inclusive, desafiou Onfray para um debate e ele não aceitou. Interessante... tanto o nazismo como o fascismo não morriam de amores pela psicanálise. E sabem de uma coisa?! Não estou nem aí para o que dizem de Freud! O que interessa é o legado que ele deixou para a humanidade, como, por exemplo, quando ele enfoca a questão do desenvolvimento humano. A propósito, a civilidade pressupõe três elementos essenciais para sua desenvoltura: beleza, limpeza e ordem. Isto é de Sigmund Freud (1856-1939), o pai da psicanálise. Não só isso, mas o homem que reinventou tudo o que se sabia até então sobre a alma humana. Tudo o que é “civilizado” é limpo e, portanto, ordenado. Zigmunt Bauman, sociólogo polonês, professor da Universidade de Varsóvia, na sua obra “O mal-estar da pós-modernidade”, afirma que o estado de “limpo” ou “sujo” relaciona-se ao estado de “ordenado” ou “desordenado”. A limpeza em sua concepção é o estado de ordenamento das coisas.

O que está no lugar certo está limpo e não está “sujando” outras coisas. Ele diz: “O oposto da ‘pureza’, o sujo, o imundo, os ‘agentes poluidores’ – são coisas ‘fora do lugar’. Não são as características intrínsecas das coisas que as transformam em ‘sujas’, mas tão-somente sua localização e, mais precisamente, sua localização na ordem das coisas idealizada pelos que procuram a pureza. As coisas que são ‘sujas’ num contexto podem tornar-se puras exatamente por serem colocadas num outro lugar – e vice-versa. Sapatos magnificamente lustrados e brilhantes tornam-se sujos quando colocados na mesa de refeições. Restituídos ao mundo dos sapatos, eles recuperam a prístina pureza. Uma omelete, uma obra de arte culinária que dá água na boca quando no prato de jantar, torna-se uma mancha nojenta quando derramada sobre o travesseiro”. A concepção de limpeza, nesse contexto de elo com a civilização, ou com a cultura, como queria Freud, importa na análise de uma questão abordada por Bauman. Veja: “Há, porém, coisas para as quais o ‘lugar certo’ não foi reservado em qualquer fragmento da ordem preparada pelo homem. Elas ficam ‘fora do lugar’ em toda parte, isto é, em todos os lugares para os quais o modelo de pureza tem sido destinado. Mais frequentemente, estas são coisas móveis, coisas que não se cravarão no lugar que lhes é designado, que trocam de lugar por livre vontade. A dificuldade com essas coisas é que elas cruzarão as fronteiras, convidadas ou não a isso. Elas controlam a sua própria localização, zombam, assim, dos esforços dos que procuram a pureza ‘para colocarem as coisas em seu lugar’ e, afinal, revelam a incurável fraqueza e instabilidade de todas as acomodações”. Conceber-se civilizado é, portanto, não sujar nem estar sujo, ou, ainda, não desordenar a ordem exigida pela civilização. Ante essa proposição, configurada e até um tanto intrínseca à mentalidade do homem civilizado, obtemos resposta para as atitudes individuais e coletivas de rejeição ao estranho e ao estrangeiro. Noutra quadra, o homem deseja obter felicidade. Todos querem ser e permanecer felizes. Para atingir esse objetivo, a ação humana deve visar não apenas a supressão do sofrimento e do desprazer, mas também a experimentação de sentimento de prazer, intensa e permanentemente.

As experiências de prazer podem ser intensas, mas permanentes não. Qualquer prazer permanente deixa de ser prazer. Freud cita Goethe: “nada é mais difícil de suportar do que a sucessão de dias belos”. Assim, a felicidade resume-se a momentos, a experiências passageiras. A infelicidade, por sua vez, não perde sua força nem vigor se perseverar. Pode até se tornar crônica no indivíduo. E quais são os motivos da infelicidade, senão o sofrimento? Freud reflete sofrimento a partir de três direções: de nosso próprio corpo, do mundo externo e de nossos relacionamentos com os outros homens. Nosso corpo envelhece, adoece e nos ameaça constantemente de dissolução. A sua decadência natural sempre foi motivo de profundo sofrimento e, nos tempos atuais, tem sido francamente combatida por processos médicos de todo o gênero. A medicina desenvolve, testa e aplica dezenas de métodos de manutenção e conservação corporal, utilizando medicamentos e cirurgias – como a plástica – que rejuvenescem. Contudo, o tempo é implacável e todos sabem que o corpo não resistirá. A segunda fonte de sofrimento advém do mundo externo, “que pode voltar-se contra nós com forças de destruição esmagadoras e impiedosas”. Essa ameaça é tão evidente quanto a da dissolução do corpo. Semanalmente, sabemos da ocorrência de catástrofes e, a cada ano, elas se aproximam de nossas casas, como resultado dos saques que fazemos à natureza. Finalmente, nosso relacionamento com outros homens é a fonte mais penosa do sofrimento que qualquer outra. Podemos nos conformar com a fatalidade da morte e das catástrofes por estarem além de nossas possibilidades de evitá-las; mas sucumbir à vontade, ao capricho ou à ganância de outro homem não nos é dado resignar. Mas existe um modelo de bem-estar espiritual ou de paz interior? Certa vez, perguntei ao amigo Luiz Eduardo Oliva o que era felicidade. Ele me respondeu com esta bela crônica - onde mostra que muitas vezes as coisas mais simples são as que nos dão mais prazer - à qual deu o título de “Quarta-Feira de Cinzas”:

“Na quarta-feira de cinzas cai o pano. A vida volta à realidade. Os bacantes recolhidos salivam o sabor azedo da ressaca. Há ainda uma confusão na mente, ressoa o eco dos dias da tríade momesca. Vem a velha canção carnaval desengano, deixei a dor em casa me esperando e brinquei e gritei e fui vestido de rei, quarta-feira sempre desce o pano! Ah, a felicidade... e afinal, o que é a felicidade? Indagava-me ontem o velho Clóvis ao brindar um Pinot Noir numa cantina ítalo-sergipana nada momesca. Eis a pergunta para nenhuma resposta convincente. A única que me ocorre é que a felicidade é a festa do coração, dura enquanto durar a festa. Lembrei-lhe o grande J. Inácio, o mágico pintor do amarelo, da luz do sol e das bananeiras nas terras Del Rey que um dia, exaltando o pintor de paredes no seu ofício numa manhã nos anos oitenta dum festival de arte de São Cristóvão, disse-me: - Não sei porque os homens fazem festas. Para mim a festa é o sol que invade meu quarto trazendo todas as cores quando acordo e me diz: homem, vai pintar... Então lembrei a canção de Haroldo Barbosa e Luiz Reis ... eu abri a janela e esse sol entrou... de repente, em minha vida já tão fria e sem desejos... estes festejos, esta emoção... luminosa manhã... porque tanta luz, tanto azul... é demais pro meu coração... Vejo o quadro "Quarta-feira de cinzas", obra do pintor alemão Carl Spitzweg, e observo quanta verdade há nele para retratar o fim do carnaval... Um pierrot e sua realidade: finda a festa, de volta à prisão da vida, uma tosca moringa d'água e um exuberante raio do sol da esperança a atravessar as grades da prisão da vida... carnaval desengano... Volto à pergunta do velho Clóvis: E a felicidade...? Uma luminosa manhã...” Retorno ao velho Bauman. Para ele, há dois valores essenciais que são absolutamente indispensáveis para uma vida satisfatória, recompensadora e relativamente feliz. Um é a segurança e o outro a liberdade. Você não consegue ser feliz ou ter uma vida digna na ausência de um deles, certo? Segurança sem liberdade é escravidão e liberdade sem segurança é um completo caos, incapacidade de fazer nada, planejar nada, nem mesmo sonhar com isso. Daí, segundo ele, a necessidade dos dois estarem sempre engatados como dois irmãos siameses.

A verdade é que, entre críticas e ataques rabugentos contra personalidades que revolucionaram o mundo, a humanidade tem dado seus passos nessa longa caminhada, ali avançando, aqui recuando, mas sempre em busca da perfeição e de um mundo cada vez mais civilizado. Enfim, Sr. Michel Onfray, como diria Winston Churchill, “é melhor fazer história do que se submeter a ela; ser um ator em vez de um crítico”.

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