Aleluia (Hallelujah)

28/04/2019 16:33:22 por Kleber Santos em Coluna Clóvis Barbosa
Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE

Na segunda-feira de Carnaval deste ano fui ao Bairro da Liberdade, em São Paulo. Enquanto minha mulher andava pelas lojas, sentei-me na praça para ouvir um violonista de rua tocando clássicos da música mundial. Sucessos como Perhaps Love, Yesterday, Imagine, You and I, Let It Be, One Moment In Time, Champagne, Volver a Los 17, The End, Always on My Mind, My Way, What a Wonderful World, e tantos outros, desfilavam encantando a minha alma, dos transeuntes e de algumas pessoas que paravam para ouvir o som virtuoso daquele instrumento musical. Repentinamente, surge uma mendiga, de vestes simples, e implora para que o músico toque para ela a música Aleluia, de Leonard Cohen. O músico não deu bolas. Ela aproximou-se de mim e, após falar o nome do compositor, olhou nos meus olhos, e disse: - Eu adoro essa música. Ela fala de Davi, o rei, e sua doentia paixão por Betsabeia, mulher de um guerreiro. Fiquei impressionado com o conhecimento daquela jovem de rua, maltratada miseravelmente pela vida, que gostaria de ter um momento de enlevo e paz na alma. Mandei-a esperar! Fui ao músico, aproximei-me, coloquei 20 reais na sua cesta e pedi que tocasse Aleluia. Voltei para o meu lugar e disse a ela que a música iria ser interpretada. Assim que a canção começou, ela aproximou-se do violonista (foto acima), sentou-se no chão e passou a ouvi-la emocionada, sem esconder as lágrimas que vertiam dos seus olhos. Terminada a música, ela veio a mim e disse: - Obrigada, você me deu um pouco de amor! Pegou em minha mão e afastou-se. Comecei a pensar naquela menina e nas razões que a levaram a viver naquela situação de flagelo e de exclusão. Lamentavelmente, tanto a sociedade como o Estado ainda tratam o problema com o chamado preconceito negativo, o que impossibilita cada vez mais a inclusão dessa fatia da população de rua de terem sua cidadania reconhecida. Como diria Vinícius, a vida não é brincadeira, amigo. A vida é a arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida.

Já falei aqui sobre o episódio bíblico que envolveu o rei Davi e Betsabeia, tão bem invocada na música do compositor canadense Leonard Cohen, falecido no final de 2016. O fato ocorreu na varanda do seu castelo, quando, de lá, avistou uma jovem a banhar-se nua. Deliciosamente nua. A limpidez arquitetônica daquele singelo corpo o hipnotizou. Imediatamente, o monarca indagou quem seria tão rara espécime. Responderam tratar-se de Betsabeia, filha de Eliam e mulher de Urias. O rei, ainda assim, não se conteve. Mandou trazer-lhe a moça, embora comprometida, para o seu quarto, onde a estuprou. Ocorre que Betsabeia engravidou e mandou dar ciência a Davi da tragédia. Ele empalideceu. A coisa piorou ainda mais com a maldição que lhe foi irrogada pelo profeta Natã. Quem quiser conhecer toda a história, que se debruce sobre os Capítulos 11 e 12 do Segundo Livro de Samuel. Relevante, por enquanto, é mostrar a referência que Aleluia faz ao episódio. Aliás, como todos sabem, a palavra original é Hallelujah, palavra de origem hebraica e que tem como significado “louvai a Deus”. Etimologicamente, ela é dividida em duas partes, hallelu (louvai) e jah, forma abreviada de Yahweh, um dos nomes de Deus. Claro que a música de Cohen, apesar da sua beleza ímpar, tem uma letra bastante emblemática, o que, desde o seu lançamento, criou uma série de polêmicas em relação às diversas interpretações e críticas. A menina da Praça da Liberdade me disse que a música falava do rei Davi e do seu desvario em relação a Betsabeia. É verdade. A letra diz mais ou menos: “Eu ouvi dizer que havia um acorde secreto / Que Davi tocava e agradava ao Senhor / Mas você não liga muito para música, não é? / É assim: a quarta, a quinta / A menor cai, a maior ascende / O rei perplexo compondo Aleluia. / Aleluia, Aleluia. / Sua fé era forte, mas você precisava de provas / Você a viu se banhando no telhado / A beleza dela e o luar arruinaram você / Ela te amarrou à cadeira da cozinha / E ela destruiu seu trono e cortou seu cabelo / E dos seus lábios ela tirou o Aleluia / Aleluia, Aleluia...”.

Mas na semana passada, comemorando a Semana Santa, reservei alguns dias para rezar. Fiquei perplexo com a ausência dos católicos em data tão significativa da história do Cristianismo. A começar no Domingo de Ramos, nas missas vespertina e do Encontro na Catedral, ora funcionando no auditório da Rádio Cultura. O encontro da imagem de Nossa Senhora das Dores, vinda da Igreja de São José, com a de Senhor dos Passos, da Igreja do Espírito Santo, veio acompanhado de quatro gatos pingados, numa prova inconteste do afastamento dos católicos à prática dos sacramentos, ao pleno relacionamento com Jesus Cristo e à Igreja fundada por Ele. Paradoxalmente, temos hoje um Papa que teve a coragem de tirar do armário os esqueletos que tanto contribuíram para a perda de fiéis. Sim, o Papa Francisco é tudo que queríamos, mais coerente com os ensinamentos de Cristo do que apegado aos dogmas da igreja. Entretanto, esta ausência cada vez maior da comunidade não se justifica diante dessa nova fase da Igreja Católica, que não tem medo de criticar os seus erros, que revaloriza a tradição popular, que questiona a incoerência dos cristãos e de seus ministros. Hoje, defende as pessoas que passam fome, quem é perseguido pela religião, pelas ideias, pela cor da pele e até pelas opções sexuais. E o mais importante, a pregação da solidariedade, tão esquecida nos dias presentes. Num mundo eminentemente materialista, como o nosso, a civilidade dá cada vez mais lugar à barbárie. Esta observação de inércia dos fiéis, pude acompanhar nas missas de quinta a domingo da pequena Igreja da Praia do Forte, município de Mata de São João. Com uma esmagadora maioria de turistas e poucos moradores do local, as celebrações encantaram a todos. Ceia do Senhor e Lava-pés, na noite de quinta-feira; Paixão do Senhor, na sexta-feira; Vigília Pascal do Senhor, no sábado; e Páscoa, no domingo. É, como já disse o jornalista e escritor Carlos Heitor Cony, “ser católico não é para quem quer, é para quem pode”.

A Semana Santa nos traz, também, uma reflexão sobre o comportamento de Pilatos diante do julgamento de Cristo, matéria já tratada no artigo “Ecce Homo”. Em meio a um debate sobre o comportamento dos juízes, quiseram saber se qualificaria como “omissa” a decisão tomada por Pilatos contra Cristo. Repliquei que não. “Desprezível”, foi a resposta, “na acepção mais diminutiva que puder ser atribuída à palavra”. E expliquei por que empregara termo suficientemente carregado de menosprezo e rejeição. Pilatos é asqueroso e repulsivo não por aquilo que o afamou (o suposto ato de abster-se quanto à condenação de Jesus). Não. A conduta que verdadeiramente o realça não é a da neutralidade quanto ao assassinato do redentor, pois ele decidiu. A dramaturgia abjeta, estampada na sujeira moral de lavar as mãos, não implicou uma renúncia à prerrogativa de sentenciar, mas redundou num pronunciamento de submissão à chantagem da ralé farisaica (que insinuara ser a libertação de Cristo um atentado contra a soberania do imperador). E, nisso, o prefeito da Judéia tremeu. Pensem comigo. Que reação esperar de covardes, ali onde são postos diante dum jogo de sonora inevitabilidade? Gente sem couraça e dinamismo de caráter logo argui a incompetência para deliberar como válvula de escape. Foi o primeiro recurso de que Pilatos lançou mão. Ao saber que o réu, sobre o qual pesava a imputação de blasfêmia (porquanto se tivesse apresentado como a própria divindade), era egresso da Galileia, driblou a pressão da turba, declarando que só Herodes podia debruçar-se sobre a suposta infração. Com isso, ainda conseguiu reatar laços com o governante da província vizinha, seu desafeto até então. O desmiolado, porém, ao invés de ater-se ao libelo que os adversários de Jesus irrogavam, armou uma patacoada e fez estridente panavoeiro circense, exigindo de Cristo a realização de milagres, em troca da absolvição. Ante o silêncio do acusado, tomou-o por louco e o devolveu para Pilatos.

Sendo Páscoa, o prefeito partiu para aquilo que, contemporaneamente, chamaríamos “plano b”. Utilizou a tradição de libertar alguém contra quem tivesse sido prolatada pena capital. Medroso, em vez de ele próprio emancipar o homem que sabia inocente, apostou naquilo que, estrategicamente, era a logística do comodismo. Pinçou Barrabás, o mais seboso dentre os delinquentes presos nas masmorras, pondo-o ao lado do nazareno, a fim de compelir a multidão a ser compassiva. Seria um despautério anistiar o outro, contra quem pesavam medonhos antecedentes. Barrabás era um assassino contumaz, estuprador detestável e ladrão repugnante. Na fragilidade mental que intoxicava o pensamento de Pilatos, o povo nunca optaria por ver solto um câncer dessa dimensão. Mas optou. “Dê-nos Barrabás”. Mas também restava a Pilatos o uso da chantagem. Canalhas sempre se impõem à função enlameada do chantagista. Mandou trazer água. Nela, pretendeu lavar as mãos do sangue dum justo. “Minhas mãos estão limpas do sangue deste homem”. “Que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos”, rebateu a multidão. “Ele disse ser o seu rei. Vocês matariam o seu rei?”. “Não temos rei, senão César. Se você não matá-lo irá pôr-se contra César, nosso único rei”. Foi o quanto bastou. Agora, embora de mãos lavadas, Pilatos viu-se emporcalhado. E, chafurdando, decidiu. Aqui surge o dado que poucos equacionam. Lavar as mãos não foi deixar de decidir. Lavar as mãos traduziu um estelionato litúrgico de autojustificação, como quem diz que decide contra seus princípios, mas porque as amarras que lhe impuseram não o deixaram solto para decidir como a voz de sua consciência balbuciava. Não contemporizo. Quem desejar manter as mãos limpas, não as lava com água, mas com princípios. Daí, meu irredutível desprezo por Pilatos. Apegado à formalidade e à insana demagogia dos fariseus, imolou um justo e livrou um pilantra. De mãos “limpas”, mas com o espírito encardido, suicidou-se quatro anos após, chantageado por Calígula. É o fim de pessoas cartilaginosas.

Clóvis Barbosa escreve aos sábados, quinzenalmente.  

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