O Martelo das Feiticeiras

27/05/2019 09:45:31 por Kleber Santos em Coluna Clóvis Barbosa
Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE

Qual a mensagem pictórica que o renascentista Giovanni Belliniquis passar no quadro “A Virgem com o Menino de Pé Abraçando a Mãe”? Deixo de lado as diversas especulações de cunho teológico, as hipóteses da simbologia bizantina e até as sugestões da presença de uma metáfora explicando o “aspecto divino” do menino Jesus e da Virgem Maria. O quadro dá margem, por exemplo, ao entendimento da ausência de ternura entre os protagonistas. Uma criança de pé sobre uma sacada tentando sufocar a mulher com as mãos? A criança irritada com algum gesto agressivo tentando se defender? E o olhar de desprezo da virgem para com o menino? Ou tudo não passa de um olhar crítico à mulher? A verdade é que a história das mulheresdesde a antiguidade, se reflete no papel de subjugação que lhe foi imposto na visão de mundo predominantemente masculina. Desde o momento em que Eva colheu aquela maçã no Jardim do Éden, à mulher têm sido imputadas personalidades inconstantes e até mesmo limítrofes. 

Considerada imperfeita por natureza, Pitágoras, o grande filósofo grego, a via como um ser originado das trevas. Aristóteles entendia a mulher como sendo um homem incompleto, alegando, ainda, que nenhuma característica dela era herdada pelos filhos, pois isso decorria exclusivamente do sêmen do homem. À mulher cabia somente a função de abrigar e fazer nascer o fruto vindo do seu ventre.Até Platão deu o seu pitaco em A República, Livro V, ao desenvolver a ideia de que se o homem vivesse de forma covarde reencarnaria como mulher, ao passo que se essa assim se portasse, reencarnaria como pássaro. Hegel, tido e havido como o filósofo que mais impacto causou à filosofia nos séculos XIX e XX, era um convicto defensor da razão. Por isso, identificava que a diferença entre o homem e a mulher era que ela agia de acordo com as suas emoções ou com o seu estado de espírito. O comando de um Estado, por exemplo, dado a uma mulher, seria um desastre. Na verdade, a vida da esposasempre foi muito difícil, tida quase sempre como propriedade de seus maridos.

Masporque entre 2500 a.C. e o começo do cristianismo – seja na Mesopotâmia, passando pelo Egito e chegando ao norte da África e outras regiões - existiu um número grandioso de mulheres que teve um papel importante no mundo cultural, político e social? Por que elas deixaram de ser sujeito da história e passaram a objeto a partir da era cristã? A Idade Média, como se sabe, foi uma época de grande religiosidade e as três maiores religiões monoteístas deram um freio de arrumação na vida dos seres humanos. Moisés, com a sua Bíblia hebraica de trinta e seis livros, Jesus e a Bíblia cristã com setenta e três livrose Maomé, com o seu Alcorão num só livro, aporrinharam por vinte séculos a vida da mulher. Era tida como o “símbolo vivo do pecado original”.Certo, não devemos culpar os profetas, mas os seus fiéis mais exagerados. Ela não podia sair de casa, falar com estranhos, ocupar cargos, frequentar escolas e o seu casamento não dependia de escolha própria, mas de seus pais. E a situação na época de Péricles não era melhor. 

Conta-se que, no seu último dia de vida, Sócrates estava na prisão acompanhado dos seus discípulos. De repente, surge sua mulher Xantipa, toda pesarosa e com muito amor nos olhos: - Ó Sócrates, esta é a última vez que o vejo! Você vai morrer inocente. Sócrates chama Critão e balbucia para ele com os dentes cerrados: - Que alguém a leve embora, por favor, pois do contrário ela não vai deixar ninguém conversar. Tertuliano dizia que a mulher era “A porta do diabo”. Se alguém quisesse destruí-la, bastava espalhar que ela mantivera relações sexuais com o diabo. Logo seria levada a uma sala de tortura na qual era obrigada a confessar tudo que tinha feito com o demônio. A Inquisição, chamada de “Santa”, era o tribunal de exceção que mandava para a fogueira essas pobres vítimas de um sistema que via a mulher não como um ser humano, mas como uma bruxa ou cadela monstruosa com órgãos genitais. Santo Tomás, na Summa contra gentiles, escreveu que a alma da mulher é uma alma inferior. O preconceito contra ela era comum no povão e nos intelectuais.

Este texto, obviamente, não vai agradar a alguns fanáticos. Algum babolorixá da beatice poderá, talvez, me dar uma aula da Bíblia cristã, do Alcorão ou mesmo da Bíblia hebraica. Os cristãos, por exemplo, vão atacar o islamismo que, tanto no seu livro sagrado como na sua literatura teológica, “discrimina e rebaixa gravemente a mulher a ponto de torná-la um objeto de propriedade”, seja do pai ou do marido. Vão dizer, ainda, que a Bíblia cristã, em vários locais, valoriza a mulher, tais como: homem e mulher foram criados por Deus, à sua imagem e semelhança; homens e mulheres têm o mesmo valor para Deus;ambos se sujeitam e dominam a natureza; ambos terão domínio sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo animal que se move sobre a terra; ao criar a mulher, a partir de Adão, Deus declara que ambos provêm da mesma essência; o casamento, como instituição divina, implica que o homem foi feito para a mulher, assim como a mulher foi feita para o homem, e dessa forma ambos andam como uma unidade em dois corpos.

E ainda, a proibição da poligamia, demonstrando a igualdade; o cuidado com as viúvas, que deveriam ser amparadas e sustentadas pela igreja se não tivessem recursos; a condenação da prostituição, ao declarar que o corpo não pertence a nós mesmos, mas a Deus, e que ele é templo do Espírito Santo; a aprovação do instituto do casamento, que protege a mulher da exposição aos males sociais; a proteção da vida desde a concepção; e a proibição da pornografia, tida como equivalente ao adultério. Não vou discutir porque é perda de tempo e, também, pelo fato de não ler a Bíblia literalmente. O que interessa é que a mulher passou a ser figura de relevo nas relações sociais a partir da metade do século passado. Hoje, sem precisar de cota, vem ocupando competentemente os espaços em toda atividade humana. E aqui eu entro para mostrar uma das obras que aborda uma pequena história da mulher no contexto da própria evolução da humanidade: “O Martelo das Feiticeiras”, ou Malleus Meleficarum, escrita em 1484 por dois inquisidores, Heinrich Kramer e James Sprenger.

Durante quatro séculos, esse livro foi o guia de instrução oficial da Inquisição, que levou à tortura e à morte cerca de 100 mil mulheres. Dentre os pretextos para esse genocídio estava a acusação delas copularem com o demônio. As masmorras e as fogueiras foram os cenários da chamada “caça às bruxas”. Deirdre English e Barbara Ehrenreich, no livro Witches, Nurses and Midwives, falam sobre esse período trágico da história da mulher: “A extensão da caça às bruxas é espantosa. No fim do século XV e no começo do século XVI, houve milhares e milhares de execuções – usualmente eram queimadas vivas nas fogueiras – na Alemanha, na Itália e em outros países A partir de meados do século XVI, o terror se espalhou por toda a Europa, começando pela França e Inglaterra. Um escritor estimou o número de execuções em seiscentas por ano em certas cidades, uma média de duas por dia, ‘exceto aos domingos’. Novecentas bruxas foram executadas num ano na área de Werzberg, e cerca de mil na diocese de Como”.

Acentuam, ainda, que “em Toulouse, quatrocentas foram assassinadas num único dia; no arcebispado de Trier, em 1585, duas aldeias foram deixadas apenas com duas mulheres moradoras cada uma. Muitos escritores estimaram que o número total de mulheres executadas subia à casa dos milhões, e as mulheres constituíam 85% de todos os bruxos e bruxas que foram executados”. Rose Marie Muraro, que escreve uma Breve Introdução Histórica no Martelo das Feiticeiras, disseca sobre as teses malignas que serviram de base para o assassinato em massa das mulheres: o demônio procura apropriar-se do maior número possível de almas, o que sempre é feito através do corpo, já que o espírito é governado por Deus. Essa apreensão de almas surge através do controle e da manipulação dos atos sexuais; como as mulheres estão essencialmente ligadas à sexualidade, elas se tornam agentes por excelência do demônio(as feiticeiras); elas têm mais conivência com o demônio, “porque Eva nasceu de uma costela torta de Adão, portanto nenhuma mulher pode ser reta”.

E o festival de absurdose do ridículo que se entrelaçam numa fulgurante aliança desbocadade incivilidade e monstruosidade, patrocinada por uma Igreja que se autodenominava representante de Deus, explicitava que a primeira e maior característica(aquela que dá o poder às feiticeiras) é copular com o demônio, já que Satã é o senhor do prazer; essa intimidade com o demônio, levava as mesmas a desencadear todos os males, como a impotência masculina, a impossibilidade de livrar-se das paixões, abortos, oferenda de crianças a Satanás, estrago das colheitas, doenças dos animais, etc. Enfim, a mulher era a culpada de tudo de ruim que acontecia na época. O Martelo das Feiticeiras é um livro para ser lido por todos, principalmente pelas mulheres, pois trata do mais perverso e cruel guia de ódio, tortura e morte feminina, constituindo-se num dos episódios de maior vergonha para a humanidade. 

Clóvis Barbosa escreve aos sábados, quinzenalmente. 

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