Reflexões sobre o desconcerto do mundo

16/08/2019 18:38:48 por Redação em Coluna Clóvis Barbosa
Clóvis Barbosa

O tempo passa, o tempo voa e os fatos se repetem. Ou não param de acontecer. O mundo sempre foi injusto e continua assim. Uns têm muito, outros, nada. Uns têm o que comer, outros passam fome. E a vida continua nesse diapasão de contradições, conflitos e contrastes. Luís Vaz de Camões, o maior poeta do Classicismo Português, viveu durante os anos de 1524 a 1580 e é o autor da obra mais importante da literatura lusitana, Os Lusíadas, que fala dos feitos marítimos e guerreiros de seu país. Mas aqui interessa falar de um seu outro poema, desenvolvido ao longo de vinte e nove oitavas, conhecido como Ao Desconcerto do Mundo. Inicia interpelando o mundo, como a perquirir se a vida vale a pena. O mundo faz sentido? Filósofos e poetas, através do tempo, têm procurado explicar o significado da vida, mas Camões, aqui, neste poema, revela as suas perplexidades diante de um mundo desconcertado e cheio de desigualdades.

O pior é que suas angústias, registradas há quinhentos anos, continuam perenes nos dias atuais, fazendo parte do nosso cotidiano. Diz Camões: “Os bons vi sempre passar / No mundo graves tormentos; / E para mais me espantar, / Os maus vi sempre nadar / em mar de contentamentos. / Cuidando alcançar assim / O bem tão mal ordenado, / Fui mau, mas fui castigado: Assim que, só para mim / Anda o mundo concertado”. Antônio José Saraiva, em História da Literatura Portuguesa, 17ª Edição, 2005, diz que “para Camões o problema central não é o de injustiças sociais (...) mas o da não correspondência entre os anseios e valores, as razões e a realidade da vida social e material...” Em artigo que publiquei aqui anos atrás, sobre a origem do mal, tive a oportunidade de fazer uma reflexão sobre a maldade humana e as razões que fazem com que muitos explorem esse tipo de comportamento reprovável. 

Por que o homem, na breve passagem por esse mundo, não marca a sua existência pela coerência, lucidez, ideal de igualdade e fraternidade? Todos conhecem o Hino da Criação do Universo. Ali está dito que Deus criou o céu e a terra, as águas do mar, a noite e o dia, plantas que geram sementes, árvores frutíferas, seres vivos nas águas e pássaros que voam abaixo do firmamento, animais domésticos, pequenos e selvagens segundo suas espécies, monstros marinhos, e seres humanos à sua imagem e semelhança. Tudo, portanto, foi criado por Deus. E arremata a Bíblia que tudo que Ele criou é bom, especialmente o ser humano – homem e mulher –, coroamento da criação. Depois dessa sentença bíblica, cheia de dúvida metafísica, é preciso atingir uma verdade racional que dirima os conflitos que fazem parte de uma determinada ideia, o que faz fervilhar as perguntas que não saem da cabeça. 

Se Deus foi o criador de tudo, o mal também foi criado por Ele? Por que existe o mal? O bem e o mal são intrínsecos à natureza humana? O mal é uma criação do meio em que se vive? O que é na verdade o bem e o mal? Por que Deus tolera o mal? Como nasceu o mal? São perguntas para reflexão diante de um mundo de predomínio da maldade. De um mundo onde cada vez mais o homem faz questão de mostrar seus instintos mais primitivos. Aliás, na própria Bíblia, Habacuque questionou Deus sobre o mal: Tu [Deus] és tão puro de olhos, que não podes ver o mal, e a opressão não podes contemplar. Por que olhas para os que procedem aleivosamente, e te calas quando o ímpio devora aquele que é mais justo do que ele? Sei do perigo de fazer tantas perguntas. Há cerca de 2.400 anos, em Atenas, por perguntar demais, um homem foi condenado à morte, obrigado a tomar veneno preparado com cicuta: Sócrates.

Aliás, para ele, o mal seria resultado da ignorância, não teria existência real e, assim, o homem sábio deveria superá-lo. Mas a sua morte, ao contrário do que se imaginava, fez estimular na história da filosofia o pensamento perquiridor. Epicuro, por exemplo, filósofo grego que nasceu no ano 341 e morreu em 270 a.C., sobre o mal moral, ou seja, o mal causado pelos seres humanos, questionava como poderia um Deus bom e todo-poderoso admitir o mal? Ora, segundo ele, se Deus não pode impedir que isso aconteça, então não é verdadeiramente todo-poderoso. Mas foi Santo Agostinho quem defendeu a tese de que a origem do mal estaria no livre-arbítrio concedido por Deus. Todo mal, para ele, seria resultado do livre afastamento do bem. O mal, destarte, seria a ausência do bem. Durante muito tempo se acreditou que a bondade vinha da alma e o mal do corpo, com todas as suas contradições. 

E mais ainda, a religião maniqueísta explicava a existência do mal diante do confronto de duas forças antagônicas, uma representando o bem, Deus, outra o mal, o Diabo. Ambos seriam fortes e nenhum deles conseguiria destruir o outro. Embora maniqueísta na sua juventude, Santo Agostinho se afastou dessas teses ao tentar explicar o motivo de Deus permitir o sofrimento em decorrência da prática do mal. Para ele, ao receber o livre-arbítrio, teria o homem o poder de escolha. Santo Tomás de Aquino repete Santo Agostinho, e vê o mal como ausência do bem. Num momento em que a igreja associava o mal à imagem do demônio e do pecado, Jean-Jacques Rousseau revolucionou a discussão da matéria, ao enunciar que “a primeira fonte do mal é a desigualdade” e que “O homem nasce livre, e em toda parte é posto a ferros. Quem se julga o senhor dos outros não deixa de ser tão escravo quanto ele”. 

Essa visão de que o homem nasce bom e a sociedade é que o corrompe criou muitos problemas para ele, já que esse entendimento ia de encontro aos valores da época, principalmente aqueles defendidos pela igreja. A obra de Rousseau está consolidada em Discursos sobre as Ciências e as Artes, Discurso sobre a Origem da Desigualdade, O Contrato Social, Emílio e As Confissões e é tida como importante na história da filosofia política. Para Kant, o mal está enraizado na natureza humana diante do poder de escolha que o homem tem para decidir o que fazer, ou como afirmado: (...) o fundamento do mal não pode residir em nenhum objeto que determine o arbítrio mediante uma inclinação, em nenhum impulso natural, mas unicamente numa regra que o próprio arbítrio para si institui para uso da sua liberdade, i.e., numa máxima. Em outras palavras, Kant entende que o bem é um imperativo categórico e tudo que vai de encontro a ele seria o mal.

O espiritismo, doutrina religiosa e filosófica mediúnica, também defende a pureza da alma e que nela está armazenada bilhões de anos de existência. Para ele, a origem do mal estaria na consciência do homem e na sua convivência com o bem, este sempre eterno e aquele temporário. Para os Espíritos da Codificação Espírita, o bem é tudo o que é conforme a lei de Deus, e o mal é tudo o que dela se afasta. Allan Kardec, seu grande teórico, no Livro dos Espíritos, acentua que [...] os Espíritos foram criados simples e ignorantes. Deus deixa ao homem a escolha do caminho. Tanto pior para ele, se toma o mau caminho: sua peregrinação será mais longa. Se não existissem montanhas, o homem não compreenderia que se pode subir e descer; e se não existissem rochas, não compreenderia que há corpos duros. É preciso que o Espírito adquira experiência e, para isso, é necessário que conheça o bem e o mal. [...]. 

O pensamento humano e a ideia do mal tiveram o seu ponto máximo na descoberta do inconsciente por Sigmund Freud, onde grande parte das nossas ações é movida por desejos recônditos. Já Kant, que pertenceu ao grupo que defendia uma das matrizes do sistema ético, a chamada deontologia, onde os princípios são o que importa. Se as regras são “não matarás”, “não roubarás”, “não mentirás”, viola o sistema quem as descumprir, pois amparadas por ideais universais. Mas, retornando ao poema de Camões, carregado de perplexidades, juízos morais e perquirições, ao concluir, invoca o amor como uma espécie de contrapartida a aqueles que teimam em fazer do ódio e da maldade a razão de vida. Já se disse que aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal. Mas, como encarar os discursos humanos que vivem para esmigalhar, em segundos, a performance que este ou aquele homem conseguiu edificar ao longo de toda uma vida?

A resposta está na Bíblia, ali onde se arremessam os olhos para o livro de Tiago, que diz que “Toda espécie de feras, de aves, de répteis e de animais marinhos é domada e tem sido domada pela espécie humana. Mas a língua, ninguém consegue domá-la: ela é um mal irrequieto e está cheia de veneno mortífero. Com ela bendizemos ao Senhor, nosso Pai, e com ela maldizemos os homens feitos à semelhança de Deus. Da mesma boca provém bênção e maldição”. Entendo que o desrespeito à dignidade humana é o mal que atinge o princípio fundamental da moral, pouco importando se esse mal pertence ou não à sua natureza e tem nela a sua origem.

Clóvis Barbosa escreve aos sábados, quinzenalmente.

Deixe um comentário

Seu nome (Necessário)
Seu E-mail (Necessário - Não será exibido)
Seu comentário
Código da imagem:

Enquete


Categorias

Arquivos