Um sonho de liberdade

22/09/2019 20:50:10 por Kleber Santos em Coluna Clóvis Barbosa
Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE
 
 
1963. 17 de outubro. Salvador. Ainda se comemorava o bicampeonato que o Brasil, um ano antes, conquistara no Chile. Es-tava eu, adolescente imberbe, no meio da patuléia que se engalfi-nhava na entrada da Fonte Nova. Bahia e Botafogo do RJ digladia-riam em instantes. O meu Bahia não era qualquer time. Vinte vezes campeão estadual até aquele momento. Primeiro campeão brasilei-ro, em 1959 (à época, o torneio se chamava Taça do Brasil). Derro-tara, na final, o Santos de Coutinho e Pelé. Com efeito, o Bahia, que na década de 1980 seria apelidado de Tricolor de Aço, exibia um plantel com figuras medonhas: Nadinho, Hélio, Henrique, Gonzaga, Nilsinho, Florisvaldo, Agnaldo, Didico, Mário, Vadú, Miro, etc. O Bo-tafogo, por outro lado, não ficava para trás. Vinha com a estatura do pavor: Manga, Rildo, Zé Maria, Nilton Santos, Ivan, Ayrton, Édison, Garrincha, Quarentinha, Amarildo e Zagallo. Eu passara toda a ma-nhã daquele dia trabalhando na limpeza de seis escritórios do Edifí-cio Rui Barbosa. Com o dinheiro do serviço, comprei meu ingresso para libertar-me e lavar a alma. E lá estava eu, emocionado e orgu-lhoso, na fila das arquibancadas. Ingresso na mão.
 
Mas de repente, não mais que de repente, um meliante, desapercebidamente, arrancou-me o ingresso das mãos, numa ve-locidade tal que nem o cientista da Central City Police, Barry Allen - o The Flash, o homem mais veloz do planeta - se na fila estivesse, seria capaz de identificar e prender o autor daquele crime infinita-mente qualificado. Então, o mundo, sempre ele, caiu sobre mim e me levou ao chão. E, parafraseando Drummond, se eu, ao invés de Clóvis, me chamasse Raimundo, isso não seria uma rima e, tam-pouco, uma solução. Chorei. Chorei tal qual o poeta inglês John Mil-ton, que, cego, não enxergou a beleza de seu poema Paraíso Per-dido. Eu não veria meu Bahia jogar. Também não veria a poesia que Garrincha escreveria no gramado da Fonte Nova com suas pernas tortas. Decepção e lágrimas. Eu, que não tinha mais um úni-co cruzeiro no bolso. Eu, que, para ver meu Bahia, me dispus a gas-tar tudo o que tinha e voltar a pé para o Bairro da Liberdade. Toda-via, como nada é tão ruim, que não possa ficar pior, meu choro e meu lamento fez com que alguns torcedores começassem a me atacar. Chamaram-me de mentiroso. “Moleque safado. Quer que a gente tenha pena dele. Quer que a gente compre seu ingresso. Ex-ploradorzinho”.

 
Quando esbocei minha defesa, levei uma bofetada de um negrão, bem no pé do ouvido. E, novamente, fui para o chão. Seria aquele negrão um torcedor do Vitória? Resignei-me. Mas de repente, não mais que de repente, uma moça. Ela aproximou-se. Agachou-se. Olhou-me nos olhos. Perguntou-me o que houve. Ou-viu-me. Acreditou em mim. Subitamente, entretanto, seu namorado chegou, espumando e reprimindo-a. Gritou com ela. Ameaçou-a. Ela, indômita, levantou-se. Tirou seu ingresso da bolsa e o deu para mim. - Tome, menino! Vá ver nosso Bahia ganhar. O namorado em-purrou-a. Disse algo de baixo calão contra ela, abandonando-a e entrando na Fonte Nova. A moça não desceu do salto. Procurou re-compor-se e seguiu para o Balbininho, ao lado da Fonte Nova. Fi-quei com o sentimento de culpa. Poderia ter acabado o namoro de-les dois. Corri até ela. Desculpei-me: Pegue, moça! Não quero que você brigue com seu namorado. - Ex-namorado! Corrigiu-me em tom grave. - Vá assistir ao jogo. Corri para o meu sonho de liberda-de. Vi o Bahia ganhar do Botafogo por 1 a 0. Gol de Miro. Após isso, fiquei, durante quase uma década, indo à Fonte Nova na esperança de reencontrar aquela moça. Nunca mais a vi. Ela deu-me a liber-dade. Mas acabou ficando só num sonho.
 
Década de 1990. Aracaju. MFC tinha apenas 8 anos. Eu presidia a OAB-SE. MFC e mais quatro menores arrombaram uma loja de eletrodomésticos do centro da capital. Era um feriado. Furtaram o dinheiro do caixa. Enquanto um deles, com o dinheiro, ia comprar lanches para todos, os demais transformaram a loja numa discoteca. Fizeram uma festa. Queriam libertar-se. Ligaram uma TV e começaram a assistir ao Xou da Xuxa. Imitavam a dança das Pa-quitas, cantando: Bom estar com você, brincar com você. Deixar correr solto o que a gente quiser. Em qualquer faz-de-conta, a gente apronta. É bom ser moleque, enquanto puder. Ser super-humano. (...). Se tudo o que é livre é super-incrível. (...). A vida é um doce. Vi-da é mel, que escorre da boca, feito um doce: pedaço do céu. Grita-vam alegres. Foi um sonho... enquanto durou. Acabado o Xou da Xuxa, voltaram para a realidade: a rua. Dois dias depois, enquanto dormiam sob a marquise de uma das lojas do centro, foram acorda-dos por policiais: - Vamos passear? O sonho de liberdade agora era um pesadelo. Foram assassinados pela jagunçada que algum im-becil chamava de polícia. Enquanto puderam, correram soltos, aprontaram, foram moleques, super-humanos.
 
Mas a vida escorreu-lhes da boca. Não tiveram tempo de entender que a vida não era um doce, nem mel. A vida era implacá-vel com os pobres, negros e excluídos num país que possui uma das elites mais cruéis do planeta. Há muito tempo as desigualdades socioeconômicas têm marcado a vida da sociedade brasileira, cri-ando um verdadeiro abismo entre a esmagadora maioria da popula-ção e uma minoria de ricos. A opressão às classes menos favoreci-das é representada pela falta de uma política objetiva de distribui-ção de renda, resultando numa herança de injustiça social, excluin-do parte significativa do povo brasileiro no acesso a uma vida digna e cidadã. Essa meninada, que deveria estar numa sala de aula, vi-via pelas ruas de Aracaju sobrevivendo de pequenos furtos, en-quanto uma casta de assassinos de colarinho branco, que assaltam o dinheiro público, vivem tranquilos no mundo da impunidade. Os garotos, dentre eles um de oito anos, foram mortos de forma cruel, após serem torturados. E o assassino, hoje, é quem dança, soltinho, seu pedaço do céu, como uma Paquita. Difícil saber, aliás, se atu-almente nossa polícia trabalha por um sonho de liberdade.
2012. São Paulo. Cracolândia. Teresa Beatriz Viega. Uma quase septuagenária. Semblante descaído. Pernas inchadas. Passos curtos. Uma sacola na mão. Antes, ela virava a madrugada à procura do seu filho pelas ruas. Não o achará. Salvo em algum sonho de liberdade. Ele está preso. Foi acusado de tráfico. A polícia cidadã encontrou o suposto delinqüente com algumas pedras de crack. - Eu saía do serviço e vinha toda noite para cá ver João. Nem sempre o encontrava. Mas que filho não gosta de ver a mãe? Dona Tereza permanece indo à Cracolândia. Não para ver o filho, mas a barriga de Desirée, sua nora, e sonhar com o neto que está ali. Grá-vida de quatro meses, Desirée, 35 anos, também é viciada em crack. - Não sei nem se esse é o nome verdadeiro dela, mas não vou abandoná-la, sussurra Tereza Beatriz. Dois jornalistas da Folha de São Paulo acompanharam a procissão dos aflitos à qual Teresa se somou. Ela andou durante cerca de três horas à busca de Desi-rée. Achou-a numa pensão, perto da Estação da Luz. Desirée fuma crack desde os 12 anos. Acha difícil largar. Teresa, porém, não per-de a esperança: - Você vai formar uma família comigo. Vai deixar tudo, sim. Teresa é faxineira. Recebe uma pensão de R$622 e ga-nha R$70 por dia de trabalho.
 
2014. Santos-SP. Apesar de jovem, ele já tinha dois fi-lhos, o último com poucos meses de nascido. Trabalhava numa lanchonete no centro de Santos, cidade paulista. Trabalhava duro: das seis às vinte horas, de segunda a sexta, e até as dezesseis no sábado. Os amores de sua vida? A família e o Santos Futebol Clu-be. Naquela noite de domingo ele estava no ponto de ônibus, com a camisa e bandeira alvinegras. Estava alegre. O seu clube acabava de ganhar do São Paulo e assumia a liderança do campeonato es-tadual. Estava voltando para casa. De repente, dois carros param e descem vários homens armados com barras de ferro e, ali mesmo, massacram impiedosamente o jovem torcedor, reduzindo-o a um monturo de carne e sangue. Morreu no local.
 
Tragicômico? Eu, em 1963, limpei escritórios, encerando cada uma das salas comerciais para garantir o ingresso que permiti-ria ver um sonho na Fonte Nova. MFC e sua turma, pelos idos de 1990, limparam o caixa de uma loja, compraram comida e dançaram o Xou da Xuxa. Sonharam e a milícia os matou. Teresa limpa casas para assegurar o sonho de garantir ao neto um futuro diferente da-quele com o qual a vida presenteou o pai. O jovem torcedor santista vivenciou por poucos momentos o sonho da liberdade. Todos so-nhamos o mesmo sonho. O que me incomoda, no entanto, é que nem todos ficamos livres. A vida não é doce. A vida não é mel.
 
Clóvis Barbosa escreve quinzenalmente
 

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