Dúvida, ética e Fé

06/10/2019 14:50:05 por Kleber Santos em Coluna Clóvis Barbosa
Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE
 
Já se disse que Ética é a capacidade que se tem para distinguir o bem do mal. Ela não estabelece regras de conduta cogentes, como a Moral e o Direito, mas tenta justificá-las. Entretanto, também, pode ser afirmado que “ser ético” é necessariamente ter uma vida coerente, amparada por normas morais. Se assim se entende, pode a Fé contradizer-se com a ética, considerando que aquela se caracteriza pela ideia firme de que aquilo que se pensa ou se está praticando é a absoluta verdade, sem qualquer comprovação ou critério científico de verificação? A Dúvida pode conviver com a Ética? E com a Fé? Com a Ética até que sim, mas com a Fé é impossível. Eu posso ter dúvidas de que algo que estou fazendo é correto ou não, mesmo sendo munido de todas as ferramentas de reflexão e de todo conhecimento científico. Com a Fé é diferente, eu creio e pronto! E não se diga que a Fé é uma exclusividade de quem tem Ética. Não é, pois, nem sempre, quem é ético tem fé, ou quem tem fé é ético! É com fundamento nessas premissas que trago para discussão dois episódios controvertidos entre os filósofos, ambos envolvendo o sacrifício de filhos: o primeiro de natureza bíblica, vivido por Abraão e seu filho Isaac; outro de cunho mitológico, envolvendo Agamenon e sua bela filha Ifigênia.
 
Sobre Abraão, a história está no Livro do Gênesis: Depois de Abraão aliar-se a Abimelec e ir residir na terra dos filisteus, Deus o pôs à prova. Chamando-o, disse: “Abraão!” E ele respondeu: “Aqui estou”, e Deus disse: “Toma teu filho único, Isaac, a quem tanto amas, dirige-te à terra de Moriá e oferece-o ali em holocausto sobre o monte que eu te indicar”. Abraão segue rigorosamente as instruções. Sequer levou em consideração a perquirição do seu filho que viu a lenha e o fogo, mas não via o cordeiro para o holocausto. No lugar indicado por Deus, após amarrar o seu filho e o colocar sobre a lenha do altar, desembainhou a faca a fim de matá-lo quando, repentinamente, ouve um grito de um anjo do Senhor, que lhe disse: “Não estendas a mão contra o menino e não lhe faças mal algum. Agora sei que temes a Deus, pois não me recusaste teu único filho”. O crime foi evitado. Isaac foi substituído por um cordeiro. Essa provação divina ou teste espiritual, ainda hoje é objeto de aplausos, de louvação, não somente nos púlpitos como em toda a parte - como dito por Kierkegaard, filósofo dinamarquês - pela grandeza do ato de Abraão, que se dispôs a cumprir tarefa tão repugnante. Não sem razão Abraão é cognominado o “pai da fé”.
 
O episódio Agamenon: Irrompeu-se na Grécia uma epidemia da peste, onde os homens adoeciam e morriam, ficando os médicos impotentes com o seu alastramento. Agamenon mandou chamar o pontífice de Apolo, Calcas, acreditando que a doença teria sido enviada por um deus irritado com alguma ofensa ou erro praticado contra ele. Depois de algumas cerimônias religiosas, Calcas comunicou a Agamenon que a peste foi enviada pela deusa Ártemis, irmã de Apolo, que não gostou do seu ato quando de uma caçada na floresta, tendo ali abatido uma corça branca, animal consagrado àquela deusa que o amava com ternura. A situação da epidemia seria resolvida se Agamenon sacrificasse em seu altar a sua filha primogênita, a princesa Ifigênia. Irritado com tal proposta, Agamenon convocou o Conselho - Menelau, Ulisses, Diomedes, o sábio Nestor de Pilos e Ajax, filho de Telamon - e transmitiu-lhes a situação. Depois de muita discussão, Agamenon concordou em sacrificar a sua filha. No momento em que a faca tocava o seu pescoço, ouviu-se um grito de espanto. A faca desaparecia das mãos de Calcas, surgindo uma corça alva debatendo-se em agonia. No último momento, Ártemis condoeu-se com a beleza de Ifigênia e ela foi salva.
 
É a partir desses dois episódios com tratamentos diferenciados, um considerado abjeto, outro heroico, que Sören Kierkegaard, filósofo dinamarquês, considerado o pai da Escola Existencialista, procura avaliar as justificativas para o ato insano, torpe, de Abraão. Passa o sarrafo até naqueles que o defendem. E levanta uma questão: até que ponto os defensores do ato de Abraão fazem ideia do que estão falando? E dá o exemplo da reação de um padre no caso de um fiel seguir o mesmo caminho de Abraão. O padre iria até o homem, munido de toda a sua dignidade eclesiástica, e berraria: “Homem desprezível, abjeção da sociedade, que diabo o possuiu para que desejasse assassinar seu filho?”. Seria ético o padre ter este comportamento quando ele próprio exalta o ato de Abraão como de grandeza? Aí está o grande abismo que separa a ética da religião. O filósofo dinamarquês vai mais longe e coloca na balança o exemplo de Abraão com o de Agamenon, que sacrificaria a sua filha Ifigênia pelo bem do Estado. Neste caso, o seu ato estaria envolto numa ética universal, ou seja, “o herói trágico troca o certo pelo que está ainda mais certo, e o observador o vê com confiança”. O olhar desferido contra Abraão é visto sob a perspectiva de um indivíduo diante do absurdo.
 
E sentencia em sua obra Temor e Tremor: “Viu-se os que se apoiaram em si próprios de tudo triunfarem e os outros, fortes da sua força, tudo sacrificarem – mas o maior de todos foi o que acreditou em Deus. E houve grandes homens pela sua energia, sabedoria, esperança ou amor – mas Abraão foi o maior de todos: grande pela energia, cuja força é a fraqueza, grande pelo saber cujo segredo é a loucura, pela esperança cuja forma é a demência, pelo amor que é ódio a si próprio”. Na verdade, o caso de Abraão não é somente comparado ao de Agamenon, mas, também, a dois outros filicídios da história, o de Jefté e o de Brutus. Jefté viveu num tempo em que o povo israelita estava brigado com Jeová. Por vingança, este permitiu que os amonitas infligissem uma grande derrota a esse povo. Ficaram de joelhos pedindo perdão pelo mal praticado contra Jeová e imploraram pela expulsão dos amonitas. Jefté, um valente juiz de Israel, foi chamado para chefiar o combate contra os invasores. Diante dessa diatribe - israelitas versus Jeová - independentemente do arrependimento do povo e do retorno à adoração do seu Deus, Jefté resolveu pedir a ajuda e prometeu a Ele: se me der a vitória sobre os amonitas, então a primeira pessoa que sair de minha casa ao meu encontro, na volta da vitória, eu vou lhe entregar.
 
Resultado: Jeová acatou a promessa e deu a vitória solicitada, sendo os amonitas expulsos de Israel. Sabe o que aconteceu? A primeira pessoa que Jefté encontrou ao retornar ao seu lar foi a sua filha única. Ficou triste diante do destino, mas, para ele, promessa era promessa e sua filha estaria destinada a passar o resto de sua vida servindo a Jeová, em Silo. O caso de Brutus também é conhecido. Cônsul de Roma em 509 a.C., viu seus filhos, Titus Junior Brutus e Tiberius Junior Brutus, tomarem parte numa conspiração que tinha o objetivo de readmitir a família real na cidade logo após um golpe. Considerado um ato de traição, todos os conspiradores foram torturados e decapitados. Impassível, Brutus assistiu a punição de seus filhos. Esses três heróis trágicos – Agamenon, Jefté e Brutus – têm suas responsabilidades destinadas para outros e o consolo de terem cumprido uma atitude moralmente correta, diferentemente de Abraão, que visualiza a fé com predomínio diante do ético. E há de se perquirir: do ponto de vista ético, é correto o ato de Abraão em matar o próprio filho em nome da fé, em nome de uma fidelidade a Deus? Existe um dever absoluto de todos para com Deus? É possível acatar tal comportamento aos olhos da razão?
 
O episódio bíblico citado, para Kierkegaard, está fixado na fronteira entre a religião e a razão. Para ele, a fé, no caso, se revela paradoxalmente: “paradoxo capaz de fazer de um crime, num ato santo e agradável a Deus, paradoxo que devolve a Abraão o seu filho, paradoxo que não pode reduzir-se a nenhum raciocínio, porque a fé começa precisamente onde acaba a razão”. Daí vem a conceituação que o filósofo dá aos três modos do existir concreto do homem: o estádio estético, o ético e o religioso. No primeiro - o estético - o indivíduo tem no prazer a razão de sua vida. A sua relação é com tudo aquilo que lhe proporciona o prazer. Mas o prazer, com o tempo, se esgota e ele avança para o segundo estádio, passando a se relacionar mais amiúde com a ética, submetendo-se às normas e aos valores. As exigências éticas, contudo, impõe posturas de comportamentos universais. O sujeito, incapaz de cumprir com essas determinações, encontra refúgio no terceiro estádio, o religioso, onde ele vai ter a possibilidade de libertação dos seus pecados. De qualquer maneira, como diria Kant (1724-1804), em Crítica da Razão Prática, as passagens da Bíblia que parecem transgredir os limites da credibilidade racional devem ser interpretadas de modo alegórico e não literal.
 
Clóvis Barbosa escreve aos sábados, quinzenalmente.
 

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