Vitória do Confiança diante do Sergipe simboliza os novos tempos do futebol sergipano

13/01/2020 17:08:38 por Kleber Santos em Esportes

Fabrício Santos
Estudante de jornalismo

Neste domingo, 12 de janeiro, tivemos a estreia de Confiança e Sergipe no Campeonato Sergipano de 2020, na Arena Batistão. De cara, um clássico entre os dois maiores clubes do estado. O Confiança saiu vencedor pelo placar de 2 a 1. A vitória, no entanto, foi só mais um fator que comprova a mudança do cenário futebolístico de Sergipe.

Durante muito tempo, o Sergipe foi o time mais tradicional, com mais torcida, e que possuía o maior protagonismo por essas bandas. Entretanto, o tempo passa. Nos dias atuais, o Sergipe só disputa o campeonato estadual, e luta para recuperar os dias de glória. Do outro lado, um Confiança em extrema ascensão, disputando, além do certame sergipano, a Copa do Nordeste e a Série B do Campeonato Brasileiro. Realidades extremamente opostas daqueles que um dia já rivalizaram em pé de igualdade.

O que vemos acontecer hoje é resultado de um processo. Em 2008, o Dragão do Bairro Industrial deu o primeiro passo: na Série C do Campeonato Brasileiro daquele ano, mobilizou torcedores de todos os clubes em prol da campanha “Vamos subir, Dragão”, em alusão ao ótimo desempenho que o time tinha na competição. A expectativa era alta, e o acesso à Série B parecia cada vez mais próximo. Contudo, a equipe teve uma surpreendente queda de rendimento, e deixou a vaga escapar por um ponto.

Naquela época, não se viam grandes públicos no Batistão, mas o Confiança fez da praça esportiva a sua casa, e a lotação virou rotina. Sem o acesso, o desânimo voltou e o engajamento do povo sergipano com o futebol local também diminuiu.

Sergipe viria a participar da recém-criada Série D, mas fora eliminado no “tapetão”, em virtude de uma escalação irregular, colocando ponto final em mais um sonho do torcedor. Do lado azul, o rebaixamento no ano seguinte da terceira para a quarta divisão, e o ostracismo retornava para o nosso cenário.

Tornou-se costumeiro não valorizar o produto local. Já não bastasse ser comum a torcida para times de outros estados, o que se viu durante muitos anos foi a extrema desvalorização do público geral pelo que se pratica aqui.

Futebol vai além do esporte, é um espetáculo. E, para cativar o grande público, faz-se necessário um produto atraente. A semente da evolução já estava plantada, e já era sabido o caminho das pedras para trilhar o sucesso.

De 2013 para cá, foi onde vimos a solidificação do futebol sergipano. Cada vez mais torcedores comprando e utilizando as camisas dos clubes locais - no estádio e nas ruas -, os clubes com mais ambição e as perspectivas renovadas. E foi daí em diante onde Confiança e Sergipe passaram a se distanciar.

O Sergipe foi campeão estadual em 2013 - após incríveis 10 anos sem levantar a taça -, conseguiu a vaga na Série D daquele ano, mas foi eliminado para o modesto Tiradentes, do Ceará. Mais um banho de água fria na torcida colorada, mesmo que com um ponto de esperança para o ano seguinte.

Em 2014, o colorado, depois de muito tempo, tinha dinheiro para gastar. De volta a Copa do Nordeste e a Copa do Brasil, montou um elenco competitivo, mas não foi o suficiente. Por detalhes, foi eliminado na fase de grupos da Copa do Nordeste após ceder dois empates dentro de seus domínios; na Copa do Brasil, ganhou o jogo de ida do Náutico por 1 a 0 - perdendo diversas chances de marcar mais gols -, e foi eliminado em Recife, nos pênaltis.

O quase não ficaria apenas ali. No estadual, após fazer a melhor campanha da fase regular, seria eliminado no mata-mata para o modesto Socorrense, dentro dos seus domínios, com um gol no apagar das luzes - e desperdiçando a vantagem de poder empatar para se classificar.

Foi o início do fim. O Confiança venceu o Campeonato Sergipano daquele ano, participou da Série D e conquistou o acesso para a Série C. Feito histórico do time azulino, que viria a ser bicampeão estadual em 2015 e também conquistaria o título em 2017.

Apesar de algumas campanhas irregulares na terceira divisão, o Confiança não foi rebaixado como em 2009. Entre brigas para subir de divisão e lutas contra o rebaixamento, disputou “o jogo do acesso” em três oportunidades: 2015, seu primeiro ano na competição, foi eliminado pelo Londrina; 2017, foi eliminado pelo São Bento; 2019, enfim, o acesso a segunda divisão do Brasileirão diante do Ypiranga.

Durante esse tempo, o Sergipe viveu um mix de esperanças e amarguras. Foi campeão estadual em 2016 e 2018, mas fez campanhas vexaminosas na Série D e não soube aproveitar de forma eficaz o dinheiro arrecadado com a Copa do Brasil e do Nordeste. Além disso, fez campanhas pífias nos estaduais de 2015, 2017 e 2019. Muita inconsistência e falta de profissionalismo para quem sempre fora “O Mais Querido do Estado”.

Mesmo que o Confiança não tenha sido soberano em Sergipe nos últimos anos, soube se manter na Série C e agora colhe os frutos disso. Com muito profissionalismo e paciência, está cada vez mais estruturado para se consolidar no cenário do futebol nacional. Dentro e fora de campo, o time não só alcançou a grandeza que outrora o Sergipe ostentou, como também ultrapassou, e o jogo deste domingo, 12, foi reflexo disso.

De um lado, um time que está entre os 40 melhores do país; do outro, um gigante sem série. A torcida colorada, que por anos foi a maior do estado, mais uma vez se viu em menor número em um clássico. E no campo, a parte mais importante do esporte, mais uma vitória do Confiança, sendo seis triunfos azulinos nos últimos 10 clássicos entre as equipes.

O lado azul se acostumou às conquistas, aos grandes jogos, a lotar a Arena Batistão e sonhar com um protagonismo grande dentro do esporte. O lado vermelho, cada dia menor, acostuma-se com o fracasso, mesmo que com uma ponta de esperança de dias melhores.

Não se trata de qual clube você torce, mas da realidade do futebol sergipano. Hoje, se existe perspectiva de grandes feitos, ela é carregada pelo Confiança. O jogo poderia ter terminado empatado, e a perspectiva poderia ser outra. Mas, não terminou, e a toada que se leva é de um clube cada vez mais consolidado, dentro de uma crescente consistente, e o outro numa queda vertiginosa, numa realidade a qual não parece possuir previsão de melhora.

Fato é que o melhor para o nosso futebol é que os dois clubes sejam grandes, profissionais e vitoriosos. Por enquanto, não é essa a realidade, e não precisamos enxergar isso com teor de rivalidade, mas sim, de preocupação com o crescimento do produto sergipano.

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