AFONSO NASCIMENTO ESCREVE - Preparando as elites para a ditadura militar em Sergipe

28/08/2011 10:28:29 por Eugênio Nascimento em Política

Afonso Nascimento

Professor do Departamento de Direito da UFS


Os historiadores pouco escreveram sobre a Escola Superior de Guerra (ESG) e a Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG) em Sergipe. Aquele que mais se debruçou sobre o assunto foi Ibarê Dantas em dois livros “A tutela militar em Sergipe” e na “História da República em Sergipe”. Ariosvaldo Figueiredo, na sua “História” Política de Sergipe dedica vários parágrafos a essas duas instituições relatando cursos, conferências, visitas etc. – tudo consistindo em descrições retiradas dos jornais sergipanos da época.


Além desses dois autores é possível encontrar aqui e ali rápidas menções em monografias ou em artigos acadêmicos e jornalísticos. Eu não pretendo preencher essa lacuna com esse artigo, mas simplesmente pôr em pauta um debate público que tem sido adiado e que virá mais cedo ou mais tarde também em Sergipe – já que noutras partes teses e livros foram publicados - sobre as mencionadas instituições.


Para o leitor não familiarizado com o assunto, eu darei uma informação importante. Nunca houve, nem antes e nem depois da ditadura militar em Sergipe, uma experiência tão abrangente e tão numerosa de seleção, de treinamento e de inserção de elites em instituições públicas e privadas. Quando alguém se dá conta que esse movimento ocorreu em todos os Estados brasileiros, é possível notar a sua relevância para legitimar a ditadura militar em nível nacional e estadual. Se antes as elites brasileiras eram demasiado heterogêneas, com a ESG e as ADESGs estaduais teve lugar uma impressionante homogeneização de elites civis e militares em todo o país – muitas das quais ainda estão por aí bem atuantes também em Sergipe


Para avançar a conversa, então, convém perguntar: o que é a ESG? Essa é uma instituição fundada em 1949 que, até a criação do Ministério da Defesa, estava ligada ao Exército Brasileiro. Tomou como modelo o National War College, dos Estados Unidos, por aqui ficou conhecida como a “Sorbonne” (em referência à instituição francesa) e chamou para si a tarefa de treinar as elites militares (e civis também) brasileiras dentro da ideologia autoritária de segurança nacional. Essa escola de poder nunca deixou de funcionar no Rio de Janeiro desde sua fundação até hoje – embora tenha havido movimentação recente e sem sucesso no sentido de sua transferência para Brasília.


Durante o período da ditadura militar (1964-1985), a ESG treinou uma boa dezena de sergipanos. Escolhidos a dedo, esses sergipanos já eram membros das elites civis sergipanas e os seus nomes podem ser encontrados na página da ESG na internet:
http://www.esg.br/wordpress/a-esg/diplomados-da-esg/.


 A ADESG sergipana foi fundada em 1971 e fazia parte da Delegacia de Alagoas e Sergipe, estando a sua sede localizada em Maceió. Era uma instituição privada. De acordo com o seu regimento datado do mesmo ano, dois eram os seus objetivos, a saber, “congregar os adesguianos em Sergipe” e “arregimentar colaboradores”.  A administração da ADESG estava assim estruturada. Possuía um delegado e um coordenador, ambos nomeados pelo presidente da ADESG nacional.  Além desses dois membros, tinha dois secretários e tesoureiros, um diretor de relações públicas, um assessor de assuntos administrativos, um assessor de assuntos culturais e um assessor de assuntos jurídicos. Eram três os tipos de sócios: efetivos, colaboradores e temporários – sendo que os primeiros contribuíam financeiramente.

 

Um dado importante a ser destacado em relação ao recrutamento dessas elites era o fato de ser focado em lideranças profissionais com formação universitária e de ser carimbado pelo 28º BC. Segundo dados disponíveis na página da ADESG nacional (http://www.adesg.net.br/diplomados-por-estado), quinhentos e noventa (590) sergipanos foram treinados pelos cursos, ciclos e conferências da instituição em Sergipe.

 

Quais os usos que foram feitos dos diplomas e dos certificados por essas elites sergipanas? Eles tinham algum peso na inserção ou na progressão funcional ou profissional dessas pessoas? Nada posso afirmar, a não ser que é corrente ouvir-se que as pessoas portadoras dos diplomas da ESG e dos certificados da ADESG se deram bem profissionalmente e que muitos ainda ocupam postos de liderança dentro e fora da máquina estatal. Pesquisas precisam ser feitas para ver como funcionavam essas redes de esguianos e adesguianos em Sergipe.

 

Mas o que não pode (ou pode?) ser questionado era o papel legitimador dessas elites à ditadura militar em Sergipe. Com efeito, contando com esse exército de pessoas, todas portadoras de diploma universitário, bem treinadas para o autoritarismo,  e bem colocadas socialmente e dentro da máquina estatal, o regime militar pôde manter a farsa da representação política advinda de eleições regulares e com dois partidos artificiais.

 

A ESG nunca deixou de funcionar e até hoje oferece cursos para o mesmo perfil de “estudantes” – embora sem a mesma demanda e popularidade dos anos da ditadura militar. Espera-se que seu currículo esteja atualizado aos ventos da democracia e seja um veículo para enraizar a democracia no Brasil. Quanto à ADESG sergipana, ela foi reativada há poucos anos.

 

Em conversa por telefone com o seu atual diretor, fiquei sabendo que a documentação referente à instituição (“papéis velhos”, segundo ele) estava depositada em sala do antigo prédio da reitoria da UFS. Eu ainda não entendi porque a velha reitoria servia de “arquivo” para guarda de documentação de uma instituição privada que nada tem a ver com a UFS. Deixo também a busca dessa resposta para os historiadores sergipanos, com quem comecei aqui essas anotações.

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