Vista cansada

29/08/2011 18:53:31 por Eugênio Nascimento em Variedades
Augusto Cezar Lobão Moreira


Acho que foi o Hemingway, em seu livro -“Tempo de Morrer”- quem disse que olhava cada  coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela  primeira vez foi outro escritor que disse. Essa idéia de olhar pela última vez tem algo  de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o
Hemingway tenha acabado como acabou.


Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse-me certa ocasião, o poeta, o  pintor, o grande compositor, o músico e intérprete extraordinário, Júlio Cezar Lobão  Moreira (o meu inesquecível irmão, Julinho). Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O  diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não - vendo. Experimente ver pela  primeira vez o que você vê todo o dia, sem ver?


Parece fácil, mas não o é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta  curiosidade. O campo visual de nossa retina é como um vazio. Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que  você ver no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Um amigo meu, médico,  já falecido, passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do Edifício Sulacap, localizado na  Avenida Sete de Setembro com a Rua Carlos Gomes, em Salvador, onde tinha o seu  consultório.


Lá estava pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um  recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer. Como era ele? Como era a sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia. Em  32 anos nunca o viu. Para ser notado o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar  estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua  ausência.


O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente,  principalmente as mulheres bonitas, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos. Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do
mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que  nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas.  Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É aí que se instala no coração o monstro da  indiferença.


PS: São 6h30 desta sexta-feira (26). Mesmo com a insistência das nuvens o sol lança os  seus raios sobre as águas mansas do meu Rio Sergipe, prometendo as surpresas de mais um  dia, com encontros e desencontros. As nuvens sempre passam... A minha amiga, a garça Ana  Montenegro, logo, logo, aparecerá, mostrando-me a sua beleza com seus passos magníficos. Ouço Maracangalha, do incomparável Dorival Caymmi, na voz do Tom Jobim. E aí Marcos Melo,  esta é boa? Nos anos 60, quando estava em Salvador, na sua casa do Rio Vermelho, aquele  batia uma viola com o velho João Moreira, meu pai. Eram amigos. Eu pegava a canja.


Li agora um e-mail que me foi enviado pelo Cidão, ei-lo:
“Ontem à noite não saí para a balada. Correu um boato que uns quatro bueiros iriam  explodir no Leblon e cercanias. Ô cara, você pode me informar qual o partido que o dr.  Albano escolherá, hoje pela manhã? O Sérgio Guerra, presidente do PSDB, afirmara que o  mesmo era ‘dispensável’, na semana passada. Ele (o Albano) chega por aí esta semana e diz  que, muito pelo contrário, que o Aécio Neves e o Sérgio patentearam que o mesmo é  imprescindível! Afinal que escarcéu é esse?


Eu, particularmente, torço que vá para o PCdoB. Já pensou a festa da filiação? A  Orquestra Sinfônica de Sergipe tocará o Hino da Internacional Socialista, no Teatro  Tobias Barreto. O novo filiado entrará portando a foice e o martelo e o prefeito Edvaldo
Nogueira o presenteará com dois livrinhos: O Capital, do Karl Max, e a biografia de  Lenine, das Edições Progresso-Moscovo. Que discurso ele fará? Será um barato! O Edvaldo  vai lotar a casa de espetáculo com os funcionários da prefeitura de Aracaju. Quem não  aparecer perderá uma graninha! Se fosse à época do PSD e UDN, na Velha República, o Albano jamais criaria esse rebu, já  teria tomado um chega-pra-lá, uns cocorotes.


Tchau, bicho. Vou me informar se algum bueiro explodiu no Leblon. Daqui a pouco o Rio chamar-se-á “Rio de Janeiro dos Bueiros”.

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