CLÓVIS BARBOSA - O Açougueiro de Chicago

30/09/2012 11:19:21 por Eugênio Nascimento em Colunas



 

                  Clóvis Barbosa- Blogueiro e conselheiro do TCE-SE

 

 

 

Cesare Terranova foi o primeiro.  Magistrado italiano, ele foi assassinado no dia 25 de setembro de 1979 na cidade de Palermo, em seu carro, junto com o seu motorista e guarda-costas, o policial Lênin Mancuso. O mandante do crime foi o mafioso Luciano Leggio que foi absolvido por falta de provas. Terranova foi o mais ferrenho adversário da máfia siciliana e sua luta contra o crime influenciou outros juízes, como Giovanni Falcone e Borselino Paolo, que também foram mortos pela máfia em 1992. Para ele, “A Máfia é opressão, arrogância, ganância, auto-enriquecimento, poder e hegemonia acima e contra todos os outros. Não é um conceito abstrato, um estado de espírito ou um termo literário (...) É uma organização criminosa regida por regras não-escritas, porém férreas e inexoráveis (...) O mito de um ’homem de honra’ corajoso e generoso deve ser destruído, porque um mafioso é exatamente o oposto disso”.

 

 

 

Surgida na idade média na Sicília para proteger o seu povo dos invasores, dos assassinos locais e dos poderosos proprietários de terras que exploravam os trabalhadores camponeses, a máfia criou o mito que funcionava como uma espécie de Robin Hood, onde tirava dos ricos para dar aos pobres. Mas aos poucos ela começou a mostrar a sua verdadeira face, a da exploração e da prática de atos criminosos. Durante o período do fascismo estava espalhada por toda região. Toda cidade tinha um chefe, também chamado de capo. Como explorava atividades idênticas do fascismo, Mussolini, o Duce, não gostava dessa competição e perseguiu com faca nos dentes seus componentes.

 

 

 

Mas foi no outro lado do Atlântico, na América, que a máfia encontrou um ambiente propício para se desenvolver e escrever uma das páginas mais violentas da história dos Estados Unidos. A crise econômica que se abateu sobre a Itália, por volta de 1880, fez com que uma leva de italianos migrasse para aquele país à procura de uma vida melhor. Eles vinham principalmente da Calábria e da Sicília e essa invasão perdurou até o início do século XX. A esmagadora maioria era composta de camponeses analfabetos, de pobreza endêmica, ignorantes e supersticiosos. Estabeleceram-se pelo país a partir de Nova Iorque, mormente em bairros como Brooklin, na área leste do Harlem, Manhattan e Queens, juntando-se, ali, aos irlandeses e judeus. A cidade de Chicago também recebeu muitos imigrantes, fruto, talvez, do parque industrial que se implantava em seus arredores.

 

A situação econômica dos Estados Unidos nos anos 20 do século passado não era das melhores. Os bairros periféricos das grandes cidades se transformavam em escolas do crime, com o surgimento de gangues que dominavam suas ruas, becos e vielas, fascinando principalmente os jovens que viam na vida marginal as oportunidades de crescimento. Em 17 de janeiro de 1920 entrou em vigor a 18ª. Emenda à Constituição, também chamada de Lei Seca, que proibia a fabricação, venda, transporte e consumo de todas as substâncias que contivesse álcool. Achava setores conservadores da sociedade que a eliminação do consumo de bebidas alcoólicas iria contribuir para o declínio da criminalidade e melhorar a saúde da população. Ao contrário, a criminalidade ganhou grande impulso com o surgimento dos gângsteres e dos grandes chefes mafiosos que passaram a dominar o comércio clandestino das bebidas e daí diversificando para outras atividades ilícitas e algumas até lícitas. É dessa época, mafiosos da estatura de Joseph Bonanno, Lucky Luciano, Frank Costello, Vito Genovese, Joe Profaci, Carlo Gambino, Giuseppe (Joe the Boss) Masseria e Salvatore Maranzano.

 

Com o passar dos anos outros nomes passaram a ter importância no mundo da Máfia: Johnny Torrio, Al Capone, Paul Castellano, John Gotti, Sammy Gravano, Meyer Lanski, George Moran, “O louco”, Dean O’Banion, Dutch Schultz, Benjamin Siegel e Sam Giancana, “O açougueiro de Chicago”. Esses homens mandaram durante muito tempo, ganharam muito dinheiro, matavam os que atravessavam o seu caminho, mataram-se entre si, sempre em busca da hegemonia e poder, subornaram policiais, políticos, jurados, testemunhas. A violência, para eles, era uma ocorrência diuturna. Para se ter uma idéia do seu poderio e influência, trazemos o exemplo de Sam (Momo) Giancana, filho de sicilianos, que mandou e desmandou durante muito tempo em Chicago. A ele é creditado o Massacre do Dia de São Valentim, os assassinatos do Presidente John Kennedy, do Senador Robert Kennedy e da atriz Marilyn Monroe.

 

O chamado Massacre do Dia de São Valentim, ocorrido em 14 de fevereiro de 1929, teve como vítimas sete pistoleiros ligados a George (Bugs) Moran, que foram assassinados friamente com mais de 150 tiros. O crime abalou a população de Chicago, forçando as autoridades policiais a empreender uma séria investigação em busca dos autores e mandantes. Sobre o assassinato dos irmãos Kennedy, diz-se que a história remonta à época da Lei Seca com o envolvimento do patriarca Joseph Kennedy com a máfia. Conta-se que Joseph foi pedir a Giancana que convencesse o capo de Nova York, Frank Costello, a desistir da idéia de assassiná-lo, chegando ao ponto de prometer que caso o seu filho, então candidato à Presidência da República pelo Partido Democrata, vencesse as eleições, as coisas seriam facilitadas para ele. A morte de Joseph foi cancelada e o acordo foi firmado. Mas o contrário aconteceu. Bobby Kennedy tornou-se o mais ferrenho defensor da Comissão McClellan, criada no Senado para investigar as atividades do crime organizado e que causou muito aborrecimento aos chefes mafiosos. O próprio Giancana foi ridicularizado quando prestou depoimento na Comissão sob a presidência do senador Bobby e diante das câmeras de televisão.

 

JFK foi eleito o trigésimo quinto Presidente dos Estados Unidos da América no dia 8 de novembro de 1960, derrotando Richard Nixon, numa disputa apertada e que teve o apoio de Sam “Momo” Giancana e seus homens e dos sindicatos sob a sua influência. Com o poder nas mãos e com as ações para derrubada de Fidel Castro fracassadas, a ira tomou conta dos Kennedy John e Robert, principalmente contra a CIA e contra o próprio Momo, passando a se distanciar cada vez mais dele e de seus amigos atores e atrizes de Hollywood, como Frank Sinatra, Natalie Wood, Peter Lawford, Sammy Davis Jr., Al Jolson, John Barrymore e tantos outros. O mundo do crime patrocinado pela Máfia, em determinados momentos, funcionou de mãos dadas com o governo norte-americano, como no caso da morte da atriz Marilyn Monroe, cujo assassinato foi solicitado pela CIA.

Com efeito, um trato com a Máfia pode ser comparado há um trato com o diabo. Não há retorno. Uma vez firmado o pacto, sangue haverá de ser derramado. Isso pode ser constatado, por exemplo, com a leitura de “Os Gângsteres mais Perversos da História”, da jornalista Lauren Carter. Ali, são dissipadas quaisquer dúvidas. Quem se alia ao crime organizado certamente corre o risco de ver seu sangue correr pela terra em razão da vingança de um chefão ou até mesmo de um açougueiro.     

Deixe um comentário

Seu nome (Necessário)
Seu E-mail (Necessário - Não será exibido)
Seu comentário
Código da imagem:

Enquete


Categorias

Arquivos