Coluna de Clóvis Barbosa - Mulheres de Atenas

29/11/2012 20:49:48 por Eugênio Nascimento em Colunas
Clóvis Barbosa
Blogueiro e Conselheiro do TCE
 
Chico Buarque e o teatrólogo Augusto Boal escreveram
Mulheres de Atenas, que foi tema musical da peça Lisa, a Mulher
Libertadora, de autoria do segundo. Não vi nem conheço a peça,
mas tudo leva a crer que trata da mesma personagem de
Aristófanes, em sua comédia satírica, burlesca, obscena, mas,
sobretudo, revolucionária, de nome Lisístrata, escrita em 400
AC. A este título, o tradutor acrescentou o termo A greve do
sexo. Voltando à peça, o apelo é feito na música a todas as
mulheres do mundo: “Mirem-se no exemplo daquelas mulheres
de Atenas. Vivem pros seus maridos, orgulho e raça de Atenas.
Quando amadas, se perfumam, se banham com leite, se
arrumam e quando fustigadas, não choram, se ajoelham, pedem,
imploram. Sofrem por seus maridos, poder e força de Atenas.
Quando eles embarcam, soldados, elas tecem longos bordados. E
quando eles voltam sedentos, querem arrancar violentos,
carícias plenas, obscenas. Quando eles se entopem de vinho,
costumam buscar o carinho de outras falenas, mas, no fim da
noite, aos pedaços, quase sempre voltam pros braços de suas
pequenas Helenas. Geram pros seus maridos os novos filhos de
Atenas. Elas não têm gosto ou vontade, nem defeito nem
qualidade, tem medo apenas. Não têm sonhos, só tem
presságios, o seu homem, mares naufrágios. Lindas sirenas!
Temem por seus maridos, heróis e amantes de Atenas. As jovens
viúvas marcadas e as gestantes abandonadas. Não fazem cenas,
vestem-se de negro, se encolhem, se conformam e se recolhem
às suas novenas, serenas. Mirem-se no exemplo daquelas
mulheres de Atenas”.
 
A música não fez justiça a essas mulheres. Tudo bem que elas
fossem tudo isso que foi poetizado. Acredito que até mais. Aliás,
em 1976, data do seu lançamento, houve acusações sérias a
 
Chico, uma vez que a letra da música seria uma ode à submissão
feminina. Buarque retrucou, justificando que a idéia era
exatamente a contrária: “Eu disse: mirem-se no exemplo
daquelas mulheres que vocês vão ver no que vai dar”. Mas me
interessa aquelas mulheres atenienses, mesmo sendo ficção,
representadas pelo texto de um dos maiores dramaturgos da
Grécia antiga, Aristófanes. Através da peça “Lisístrata” ou “a
greve do sexo”, usa a abstinência sexual como fator
determinante do fim de uma guerra. E quem agüenta ficar muito
tempo sem sexo? A coisa viaja à estratosfera e acaba por ganhar
a tonalidade da escuridão. Mas também, burrice tem que ser
tratada com brutalidade. Enquanto a grande ameaça para as
cidades-estado gregas (Atenas e Esparta) estampavam a
bandeira Medo-Pérsio, os patetas pelejavam entre si. Foi
necessário que uma ateniense, de nome Lisístrata, conclamasse
todas as mulheres gregas a fazerem uma greve de sexo,
forçando seus maridos a suspenderem a batalha. Deu certo. Mas
antes, ela teve que demonstrar todo o seu talento. Em um
diálogo com um comissário, chamado pelo Corifeu-Velho para
interrogá-la sobre a inusitada rebelião feminina, Lisístrata
discursa: Trancamos as portas da Acrópole prá dominar o
tesouro. Onde está o tesouro está o poder. Sem dinheiro não há
guerra. O dinheiro que é usado na guerra, falta na paz. Por isso a
guerra é opulenta e a paz é miserável. Pisandro, o oligarca, vive
pregando mil rebeliões, e a cada uma aparece mais rico e mais
potente. Pois resolvemos acabar com isso. Nem mais uma
dracma do povo será gasto na guerra.
 
Lisístrata teve um trabalho árduo para colocar em prática a
sua revolução sexual. Primeiro teve que fazer uma lavagem
cerebral nas mulheres, que até então viviam entornadas nas
festas de Baco, nos usuais bacanais. Foi um trabalho diuturno
de persuasão, mostrando a necessidade de se deixar por
um tempo os prazeres para se dedicarem aos interesses da
 
comunidade. E delas próprias, pois as ausências dos pais de
seus filhos duravam muito tempo, isso quando voltavam vivos
das guerras. Pacto fechado, perante Afrodite juraram: Eu não
deixarei que nenhum homem do mundo, marido, amante, ou
mesmo amigo, se aproxime de mim de membro em riste; se
for tentada, reagirei, me transformando na própria tentação;
me farei provocante, usando minha túnica mais leve, pra que
meu homem se queime no fogo do desejo, mas jamais me
entregarei a ele voluntariamente; e, se abusando da minha
fraqueza de mulher, quiser me violentar, serei fria como o gelo,
não moverei um músculo do corpo, nem mostrarei ao teto a sola
das sandálias, nem o ajudarei me botando de quatro como as
leoas dos relevos assírios; e porque manterei meu juramento,
me seja permitido provar desta bebida. Todas beberam do vinho
e selaram o compromisso. A segunda parte do plano, então, foi
concretizada. Invadiram a Acrópole e expulsaram os burocratas,
ocupando todo o prédio. A terceira parte do plano era a de
convencer as mulheres de Esparta, ao tempo, também, que se
livravam dos velhos e do seu Corifeu.
 
Ainda no diálogo com o comissário, Lisístrata dá uma aula de
política: se vocês tivessem um pouco mais de bom senso iriam,
como nós, buscar as grandes soluções nas coisas simples. A
tecelagem é uma lição política. Quando pegamos a lã bruta,
o que fazemos primeiro é tirar dela todas as impurezas. Pois
faremos o mesmo com os cidadãos, separando os maus dos
bons a bastonadas, eliminando assim o refugo humano que há
em qualquer coletividade. Aí pegamos os que vivem correndo
atrás de cargos e proventos, e os classificamos como parasitas do
tecido social.
 
O curioso na comédia é que à época, para incentivar o
crescimento da população ateniense, o governo estimulava os
cidadãos a terem vários filhos com mulheres diferentes, o que
seria crucial para as autoridades e população masculina, se a
 
ficção tivesse sido realidade. Mas, diferentemente das greves
dos dias de hoje, essa presepada de burgueses anticapitalistas,
Lisístrata, na sua insurreição, criou o matiz da paz. Ou para se
ter amor é preciso ter paz. Todos deveriam lê-la para entender
que quem não dialoga perde. E vendo e conhecendo Lisístrata,
pensarão menos na escuridão da guerra e mais na brancura do
amar.

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