Quem respeita a fila no Brasil?

Afonso Nascimento  -  Advogado e Professor do Departamento de Direito da UFS

 

É preciso alguém viver no exterior para compreender o Brasil? A essa pergunta um tanto ridícula a resposta é "claro que não", pois existem no país profissões, intelectuais e instituições culturais que nos permitem compreender e explicar a sociedade brasileira sem tirar o pé daqui.  Mas é inegável que, morando no estrangeiro, os indivíduos têm a chance de comparar instituições e seu funcionamento, o comportamento das pessoas, etc. Além do rico aprendizado universitário, eu, jurista treinado em Sergipe e Santa Catarina, aprendi muito sobre o Brasil vivendo na Europa. Deixando de lado a minha experiência, acho mesmo que existem intelectuais brasileiros cuja produção bibliográfica não seria possível sem essa vivência internacional. Penso que esse é o caso do antropólogo Roberto Da Matta, cuja obra (que só li depois de voltar ao Brasil) é parcialmente um bom exemplo do que estou escrevendo. Com efeito, sem retirar o valor desse intelectual, vivendo na França, fiz e ouvi muitos comentários com base em comparações entre Brasil e França que encontrei depois "reproduzidos" em forma de livros e artigos desse grande intelectual brasileiro.

 O formalismo da cultura europeia é o primeiro que gostaria de comentar. Muito bem. Os europeus são um "povo" exageradamente formal, sendo que os países da Europa Latina e do Mediterrâneo tendem a ser mais descontraídos, relaxados. Resumindo, quanto mais você sobe no mapa da Europa menos você encontra descontração e mais formalismo. Geralmente, brasileiros sentem esse choque cultural na hora. Depois aprendem (ou não) a apreciar a importância de certos formalismos, em oposição à excessiva informalidade brasileira. Mas o formalismo tem o seu bom, especialmente quando a gente percebe a importância desses formalismos para a afirmação de direitos iguais para todos - inclusive para imigrantes estrangeiros apesar dos problemas conhecidos. Mesmo os norte-americanos com a suposta informalidade de país também novo como o Brasil, têm muitos formalismos que o democrático "you" inglês (em oposição ao "tu" e "vous" francês) pode às vezes esconder. A propósito, dentro desse mesmo espírito de trocas culturais, certa vez um professor francês formalista definiu o brasileiro como um "mediterrâneo exagerado". Parece uma boa definição.

Quando eu vivi na Europa, eu não era o que chamam de "deficiente físico". Foi nessa fase de minha vida que aprendi a importância da fila - sim, fila - como elemento de civilização. O problema que os brasileiros têm com a fila mostra como temos um longo caminho a seguir antes de tornarmos esse país mais civilizado. E isso nada tem a ver com "mentalidade de colonizado". Em diversas situações do cotidiano brasileiro existem pessoas furando fila. Por exemplo, na padaria, na repartição pública, no açougue, na hora de pagar numa loja e por aí vai. Até parece que furar a fila é a regra e a exceção é respeitá-la. O desrespeito à fila aparece como sinônimo de desigualdade entre as pessoas, o que vale para quem fura a fila, para quem está na vez e deixa alguém furar fila e para quem está do outro lado do balcão. Significa isso dizer ainda que o tempo de um é vale mais que o do outro ou então, por alguma outra razão cultural e de poder, aquele que está atrás pode passar na frente daquele da vez.

 Nessa fase de minha vida agora enquanto "deficiente físico", eu e pessoas como eu temos de lidar com esses problemas quase que diariamente, no trabalho ou fora. Na UFS, muitas vezes fui designado para dar aulas no primeiro andar das didáticas, o que me obrigava a subir escadas que sequer tinham corrimãos. Hoje já não acontece mais. Aliás, a UFS melhorou muito em termos de atenção a pessoas com dificuldades: elevadores serão instalados pelos prédios do Rosa Elze, corrimãos foram colocados no percurso das escadas, as calçadas têm pisos rugosos para orientar quem não têm visão, rampas estão espalhadas para o acesso a escadas, etc. Falta dar um atendimento especial a estudantes com "deficiências" desde o vestibular até a conclusão de seus cursos.

 Tempos atrás, depois que decidi que não queria dirigir mais carros, resolvi ir ao trabalho tomando ônibus. Teoricamente, era a coisa mais fácil do mundo. Embora não exista até hoje ônibus direto do Terminal da Atalaia até o Terminal da UFS, a operação parecia não colocar problemas. Tomaria o ônibus na Atalaia, desceria no Terminal do Dia ou da Rodoviária Nova e, "rapidinho", estaria na UFS de São Cristóvão. Na prática, porém, a coisa foi bem outra, pois não existe fila em nenhum dos terminais. Mesmo entrando pela porta da frente no terminal de partida, eu era carregado nos braços e pés da multidão em todos eles, subindo ou descendo do ônibus - como técnico cujo time de futebol que ganha um campeonato. Eu não sei como acontecia, mas, sem perceber, eu subia e descia "sem fazer o menor esforço". Por conta disso, tomei a decisão de ir trabalhar de "transporte escolar" ou de táxi. O leitor percebeu a importância da fila para "deficientes" e "normais"?

 Semelhante problema eu encontro com filas quase todos os meses quando vou pagar contas no meu banco todo o mês. Existem duas senhas, uma para "normais" e outra para "deficientes" ou "prioritários".  É assim que acontece. Depois de pegar senha, você entra e senta aguardando ser chamado. A fila dos "normais" funciona mais rapidamente, mas  os empregados do banco se esquecem de chamar os "deficientes". Até que resolvo me levantar e perguntar por que as senhas de pessoas como eu e Lucas Aribé não são chamadas. Aí, o funcionário me faz furar a fila porque fui reclamar, me fazendo passar na frente de outros "deficientes" que chegaram antes de mim. Eu digo que não é assim e que façam a coisa certa. Adianta? Mais tarde, quando estou sendo atendido na minha vez (eu ou qualquer outra pessoa), vem o gerente ou algum alto funcionário e estende para o caixa a conta de algum outro cliente que, por alguma razão, tem direito a furar a fila. Ou então chega o empresário ou o mensageiro de alguma loja do shopping center com o seu malote de dinheiro e literalmente fura a fila numa boa.

 Como introduzir ou reforçar entre nós a cultura do respeito à fila? Não sei, mas não tenho dúvida de que esse negócio de cultura é muito mais sério do que os velhos marxistas imaginavam. Observo que muitas vezes as pessoas se revoltam e armam um barraco em bancos e outros lugares porque estão sendo preteridas - coisa que "equivale" a um quebra-quebra por conta de atrasos dos trens no Rio e em São Paulo. Depois, a padrão cultural de furar a fila é restaurado. Mais leis (o velho populismo legislativo brasileiro resolve?) para dizer o que as pessoas sabem que é errado? Multas para os prestadores de serviços? Maior cobrança dos órgãos encarregados desse tipo de fiscalização? Não tenho resposta, mas acho que seria bom começar educando as elites brasileiras. Penso assim porque, certa vez morando no Rio de Janeiro, Chico Buarque, o grande compositor, furou a fila em que estava numa padaria do Leblon e Leandro Konder, um grande filósofo marxista, furou igualmente uma fila em que eu estava numa papelaria que fica ao lado da PUC, sem o menor pudor. (publicado originalmente no Jornal da Cidade)

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