O homem revoltado

25/06/2013 19:11:34 por Eugênio Nascimento em Coluna Clóvis Barbosa

Clóvis Barbosa - Blogueiro e con selheiro do TCE-SE
 

Albert Camus (1913-1960), jornalista, escritor, romancista, ensaísta, dramaturgo, ex-comunista e filósofo franco-argelino, reconhecido pela Academia Sueca com o Nobel de Literatura de 1957, autor de uma obra vasta onde se destaca O estrangeiro, O Mito de Sísifo, Estado de sítio, A queda e A peste. Ele também escreveu o polêmico livro O homem revoltado que, à época do lançamento, em 1951, recebeu as mais pesadas críticas do mundo intelectual francês, principalmente do romancista e filósofo Jean Paul Sartre, seu amigo até então. O pau quebrou na moleira de Camus, acusado de ser um direitista inveterado, cão nazista, proxeneta do imperialismo e tantos outros adjetivos. Camus não reagiu aos ataques, mas os seus estudiosos justificaram a reação à sua obra pelo momento apaixonante do socialismo. Negar a prática criminosa stalinista naquele momento era ir de encontro à revolução. Mas todos sabem que toda obra de Camus contém as presenças do absurdo e da revolta. Não era nenhuma novidade. Só que, diferentemente de determinadas práticas filosóficas, ele pretendeu discutir e colocar o homem no mesmo patamar de equidade e de respeito mútuo. Qual o sentido da existência humana? Esse é o tema explorado em toda a sua obra, principalmente em O homem revoltado, onde exemplos bíblicos, da literatura e da filosofia, extraídas das obras de André Breton, Hegel, Saint-Just, Marques de Sade, Nietzche, Jean-Jacques Rosseau, Pierre Naville, Dostoiévski, além das escolas do niilismo, surrealismo e existencialismo, são colocados de forma a justificar as suas teses. Esta obra é considerada por muitos como uma das mais importantes do século XX. Dentro dessa perspectiva é que Camus entende que o homem revoltado é aquele que se contrapõe à ordem de quem o oprime e reage quando sente que não deve ser oprimido. Sumaria o seu texto naquele silogismo de René Descartes: “Eu me revolto, logo existimos”. 

 

A propósito dessa reviravolta do povo brasileiro, gritando nas ruas contra o aumento da passagem dos transportes, da classe política, dos sindicalistas, dos gastos com a copa e da melhoria dos serviços nas áreas da educação e saúde, soa como providencial conhecer o pensamento de Camus e do seu homem revoltado: “A revolta é o ato do homem informado, que tem consciência de seus direitos”; “O indivíduo não pode aceitar a história tal como ela ocorre. Ele deve destruir a realidade para afirmar o que ele é, não para colaborar com ela”; “(...) a verdadeira revolta é criadora de valores”; “Se não há natureza humana, a maleabilidade do homem, na verdade, é infinita”; “O escravo, na verdade, não está ligado à sua condição, ele quer mudá-la. Ele pode, portanto, educar-se, ao contrário do senhor; o que se denomina história não é mais que a sequência de seus longos esforços para obter a liberdade real. (...) A história identifica-se, portanto, com a história do trabalhador e da revolta. Não é de admirar que o marxismo-leninismo-stalinismo tenha tirado dessa dialética o ideal contemporâneo do soldado-operário”; “É por isso que o ateísmo e o espírito revolucionário são apenas as duas faces de um mesmo movimento de liberação. Essa é a resposta à pergunta sempre formulada: por que o movimento revolucionário se identificou com o materialismo em vez de se identificar com o idealismo? Porque subjugar Deus, fazer dele um escravo, é o mesmo que destruir a transcendência que mantinha o poder dos antigos senhores, preparando, com a ascensão dos novos, os tempos do homem-rei”. “Um décimo da humanidade terá direito à personalidade e exercerá a autoridade ilimitada sobre os outros nove décimos. Estes perderão a sua personalidade, tornando-se uma espécie de rebanho, restritos à obediência passiva, sendo reconduzidos à inocência primeira, por assim dizer, ao paraíso primitivo, onde, de resto, deverão trabalhar”.

 

As manifestações espontâneas do povo brasileiro que estão ocorrendo em várias cidades brasileiras levam-nos a uma reflexão profunda. Acostumamos a pensar que somente os formadores de opinião são os donos da verdade histórica, isto por serem os detentores do conhecimento. O povo seria um mero espectador, que não pensa não opina. Ele só tem dever, principalmente o de trabalhar para manter os privilégios desse grupo que se apoderou do sistema. O aumento das tarifas do transporte coletivo foi o sinal para sua eclosão. Mas não foi a razão principal. O Brasil é um país cheio de contradições e de ilogicidade. Há um pacto nas elites, aí incluídos os novos donatários do poder, aqueles que só enxergam o própro umbigo, para quem o Estado não é o instrumento para o estabelecimento do bem comum, mas o de manutenção de seus privilégios. Essa explosão social espontânea (não me refiro aos baderneiros, pois, para esses aproveitadores a repressão policial), mas àqueles que estão cansados de serem objeto da história e de assistirem passivamente a impunidade que corrói o tecido social, os gastos astronômicos com obras faraônicas, os empréstimos milionários a países em situação de risco, a corrupção, a roubalheira, a violência, a intolerância, o péssimo transporte público, as obras superfaturadas, a leniência governamental em relação a gestão pública, as concessões inexplicáveis, saúde e educação precárias, o ócio remunerado das greves no serviço público sem respeito à cidadania, a ruim prestação do serviço público e a falta de compromisso da classe política com a ética e o respeito ao mandato que lhe foi outorgado. Aqui pra nós, as elites donatárias do poder estão recebendo um recado claro: o povo nas ruas está cansado de ser enganado. Não aceita mais o discurso do futuro, que é, como bem diz Camus, “a única espécie de propriedade que os senhores concedem de bom grado aos escravos”.

 

O que está acontecendo no Brasil, diferentemente das primaveras estrangeiras em países ditatoriais, é que não há uma estratégia clara ou qualquer comando organizado que vise um fim preciso. Os políticos fracassaram? Nós fracassamos? Fica o grande desafio: o da possibilidade de fazermos uma reflexão, antes que o movimento se transforme numa primavera de verdade.

 

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