Síndrome da impunidade

29/09/2013 12:48:38 por Eugênio Nascimento em Colunas

Antônio Ponciano Bezerra - Professor do Departamento de Letras da UFS

                           Infelizmente, as linguagens e as línguas se prestam para velar o mal, a violência, os crimes. O mau uso de palavras, de expressões e de instrumentos gramaticais pode glorificar ou degradar pessoas e seus atos. A simples troca (ou escolha, consciente ou por ignorância) de uma partícula linguística, como a preposição, desfigura atos humanos ou escamoteia (mascara) violências praticadas pelo homem (espécie humana), em sociedade.

                         Há visíveis diferenças entre as expressões: “dona de casa”  e “dona da casa”, “objeto de conhecimento” e “objeto do conhecimento”. A responsabilidade por essas diferenças de sentido, nesses enunciados, atribui-se, indubitavelmente, à seleção e uso das duas modalidades da preposição. É, exatamente, a mesma diferença que se evidencia no “bom uso”, oral ou escrito, da língua portuguesa por segmentos da mídia local. O melhor exemplo desses desmandos linguísticos encontra-se em matérias jornalísticas que se referiram ao lamentável episódio ocorrido na Universidade Federal de Sergipe, em 19 de agosto, que culminou com o assassinato (a morte) da servidora Danielle Bispo Santos, dentro dos muros dessa instituição de ensino superior.

                       Manchetes e outras chamadas de jornais e mídia falada e televisiva bradaram: “O assassinato da UFS”, “O crime da UFS” e outras propostas ‘informativas’ semelhantes, tão estúpidas e maléficas que nada ficam a dever ao ato de violência a que se referem. Ao lado dessas pérolas da ignorância, acompanha o truísmo, que já não é grande recurso linguístico, agora, aparece transformado em um perverso chavão: “ausência de segurança da UFS”. Todas em destaque, todas ganharam privilegiados espaços jornalísticos.

                      Numa rapidez que desafia a velocidade da luz, apressados intérpretes dos males, chagas e mazelas sociais não poupam a sua mente classificatória e espontânea em que instintos violentos e criminosos são reduzidos, solenemente, à expressão romântica “ato passional”. As adjetivações atendem a esses desvãos, turvam o ato violento do autor do crime, conduzem o foco da ação criminosa para o espaço, o lócus, onde o crime aconteceu  e a concretização do ato se deve à falta de segurança no local. Na minha época de estudante, essa ilogicidade era conhecida por raciocínio de jerico. Crime é signo de violência independente das formas adjetivais que podem cercá-lo, como recurso para abrandar a punição ou dar asas à impunidade, essa velha senhora cujo peso e força superam, na sociedade brasileira,  a justiça, políticos e presidente da República. Vive-se, aqui, o sombrio e imperioso lema: “mate que a impunidade garante”.

                     As universidades são espaços livres, plurais, abertos, públicos que lutam, diuturnamente, por sua sobrevivência. Nenhuma mídia, falada ou escrita, cometeu a ousadia de referir-se a um crime recentemente acontecido, no espaço físico de um quartel, e também qualificado de “passional”, com uso de expressões do tipo “o crime do quartel”, “o assassinato do quartel” ou mesmo “ausência de segurança do/no quartel”. Esses acintes foram evitados, silenciosamente poupados. Os motivos são fáceis de deduzir. Com certeza, faltou-lhe topete. Não são poucos os casos de mutilações, distorções, descontextualizações e inversões do que falamos e informamos em entrevistas que, depois de editadas, nos chegam reduzidas a desinformações, dando margem a processos por danos morais. Exceções existem, mas não são poucas as vezes que repórteres ‘tensionam’ ambientes de entrevistas e tratam muito mal seus entrevistados, como recentemente fui alvo. São os mesmos “profissionais’, às vezes, em lugares diversos, que trocam as preposições (apesar das inúmeras assessorias e aulas de ‘não morda a língua’, insistem em regar a mente com cosméticos ou outras substâncias alienantes) e transformam o ‘amador’ na ‘coisa amada’ (entenda-se: o crime, o criminoso, pelo local do crime), bem “melhor” que Camões.

 

 

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