Carta do Caribe (I) - Um mojito com Hemingway

29/09/2013 16:04:38 por Eugênio Nascimento em Coluna Clóvis Barbosa

Clóvis Barbosa - Blogueiro e Conselheiro do TCE-SE

 

Isla San Cristóbal de la Habana. 2013. A cidade começa a escurecer. Saio do Iberostar, hotel localizado no Parque Central. Fico em dúvida. E agora? Onde eu marquei o encontro com Ernest Hemingway? No Floridita, ali no Bispo, esquina do Monteserrate ou na Bodeguita del Medio, no Empedrado? Bem, resolvi ir ao Floridita, que estava próximo. Fui logo assediado por supostos guias e por uma prostituta. Consegui me desvencilhar. Se Hemingway não estivesse lá deixaria recado e me dirigiria ao Bodeguita del Medio. Aquele encontro era importante para mim, pois tinha algumas dúvidas a respeito de fatos ocorridos na época da geração perdida que habitou os anos 20 do século passado em Paris. Ao chegar no Floridita ele não estava. Falei para um funcionário do restaurante que se ele chegasse aguardasse o advogado brasileiro com o qual ele marcara o encontro, pois eu iria ao Bodeguita del Médio. De logo, o barman perguntou-me se Hemingway tinha marcado tomar um daiquiri ou um mojito. Respondi-lhe automaticamente: um mojito. E ele me disse, se foi um mojito, então ele está na Bodeguita del Medio. Gracias, disse-lhe e tomei o rumo do Empedrado, uma rua estreita na Havana velha. O assédio foi duro por parte de guias e prostitutas, inclusive duas meninas de 13 ou 14 anos. Consegui chegar ao local. Ele estava no bar saboreando um mojito. Apresentei-me e ele me convidou para irmos ao interior do restaurante. Sentamos numa mesa. Ao lado, tinha uma mesa reservada para dois clientes famosos: o poeta cubano Nicolás Guillén (1902-1989) e o cantor americano Nat King Cole (1919-1965). O restaurante tem em suas paredes de três andares fotos de famosos, como uma do próprio Hemingway ao lado de Fidel. Até o nosso presidente Lula estava lá. Vários autógrafos nas paredes, desde a do Comandante Fidel, passando por Hemingway, Nicolás Guillén e Salvador Allende. Um grupo musical entra cantando “Hasta siempre comandante”, uma homenagem do compositor Carlos Puebla a Che Guevara.

Atento, observo o autógrafo deixado por Salvador Allende, ex-presidente chileno: “Viva Cuba libre. Chile espera. 28 junio 1961”. Torno meus olhos para os olhos de Hemingway e pergunto-lhe sobre o mojito. Ele chama o barman que diz sobre a sua receita: “Em um vaso de 8 onzas, ½ cucharadita de azúcar y ½ onza de jugo de limón. Añadir hojas de hierba buena y 3 onzas de agua gaseada. Macerar el tallo (sin danar las hojas). Anadir 2 o 3 cubitos de hielo y agregar 1 ½ onza de ron Havana Club 3 años. Revolver y ... listo para beber”. Peço um para mim. Solicito cambiar o açúcar por um edulcorante. O barman não deu a mínima e preparou o meu mojito com açúcar mesmo. Começamos a conversar sobre diversos personagens e modo de vida da época. Chegamos a Francis Scott Fitzgerald e sua vida conturbada com a mulher Zelda Sayre. Hemingway foi amigo do casal. Viveram nos anos 20 do século passado em Paris numa época em que Fitzgerald já era famoso. Já tinha lançado “Este lado do paraíso”, o seu primeiro romance, e “Os belos e malditos”. Estava para lançar aquela que seria uma de suas maiores obras: “O grande Gatsby”. Em duas horas e meia de conversa, falou-me dos defeitos e virtudes daquele que seria consagrado como um dos maiores escritores americanos do século XX. Ria ao me contar a viagem que fizera de carro com ele por toda a França e de um fato curioso. Na época ele morava num sobrado de nº 29 da Rue des Saints-Pères, hoje funcionando a Brasserie L’Escorailles. Fitzgerald o procurou nesse endereço onde, à época, funcionava o bistrô Michaud’s. Estava muito nervoso. Ao sentar-se, Hemingway foi imediatamente inquirido: “Você acha que eu tenho um pau pequeno?” Sobre o por qeê da pergunta, Fitzgerald disse que tinha tido mais uma briga violenta com Zelda e ela lhe dissera que ele não prestava nem para fazer amor, dada a pequena dimensão do seu membro. Hemingway tentou acalmar Fitzgerald, mas esse só se convenceu quando exibiu o seu pênis para o seu interlocutor e recebeu como resposta: “Olha, meu caro, fique sabendo que seu pau é do tamanho do seu talento literário”.

 

Saio da ficção e entro na realidade. Um amigo rabugento me manda um SMS e pede para eu comprar uma dessas obras do poeta cubano Heberto Padilla: “Las rosas audaces” (1949), “El justo tempo humano” (1962), “Fuera de juego” (1968), “Provocaciones” (1973), “El hombre junto al mar” (1981) ou “Um puente, uma casa de piedra” (1998). Saio do La Bodeguita del Medio, entro em várias livrarias e começo a desconfiar que Padilla era um poeta maldito para os cubanos. Mas encontro num “sebo” El justo tempo humano, 1ª. Edição, num estado deplorável, já em fase de decomposição. Pergunto o preço. “35 cuc”, diz o vendedor. Ofereço 10 cuc, e ele me responde que o livro não foi roubado. Ao que rebati, “coincidência, o meu dinheiro também não” e me retirei. Passei a ser um observador da vida cubana e do comportamento ético daquela gente. As dificuldades ainda são inúmeras, mas o país padece de uma doença crônica que ataca também outros países que teimam em manter um sistema onde os desiguais são tratados em igualdade. E onde a burocracia é institucionalizada e, ao contrário das intenções e das inúmeras determinações de suas lideranças, especialmente de Fidel e do seu irmão Raul, as coisas não acontecem. Para se ter uma ideia, de 16 a 18 de abril de 2011 aconteceu o Sexto Congresso do Partido Comunista Cubano, com a participação de mil delegados. Durante a discussão, 32 deliberações foram tomadas para aplicação imediata, sendo a sua maioria de caráter econômico e social. Apesar de mais de dois anos de sua realização, a maioria das teses ali aprovadas não foi aplicada, o que contribui para uma situação de revolta cada vez maior em setores populares. O direito de crítica ao sistema é louvado pela cúpula de poder, mas os responsáveis pela gestão do sistema transformam em retórica essas orientações. Ao assumir, Raul Castro disse que “Não vamos deixar de ouvir a opinião do cidadão por temer o escândalo que a imprensa internacional arma a cada vez que alguém faz uma crítica aqui”.

 

O cineasta Guevara Valdés, no VII Congresso da União de Escritores e Artistas de Cuba, realizado em abril de 2008, dizia que “O pior inimigo das revoluções é a ignorância, que pode ser a conversão da ideia em ritual, palavrório e cerimônia”. Fidel Castro, nessa sua lucidez extraordinária, teve a coragem de advertir em discurso na Universidade de Havana, em 2005, que, “Se o imperialismo não conseguiu derrubar a revolução, os cubanos poderão fazê-los, por seus erros e omissões”. Cuba, com a sua revolução que marcou a história do século XX, é o símbolo dos desejos dos povos da América Latina e do Terceiro Mundo. Ela não pode sucumbir.

 

Comentários (1)

francisco em 02/10/2013 às 16:58h
Muito boa a parte relativa à ficção. Melhor ainda a realidade cubana. Infelizmente, a revolução não deu certo para o seu povo.
Parabéns ao articulista pelo estilo.
Francisco

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