Balancear produção e consumo

29/09/2013 20:49:19 por Kleber Santos em Coluna Ricardo Lacerda
Ricardo Lacerda

As taxas modestas de crescimento econômico dos países ditos emergentes, inclusive o Brasil, nos últimos três anos tão somente refletiram os desdobramentos da crise financeira internacional deflagrada em 2008. Quando, a partir de meados de 2011, as economias dos países centrais, depois de uma melhoria temporária, mergulharam na recessão pela segunda vez ou abortaram uma retomada ainda muito incipiente, deixou de ser razoável esperar que os países emergentes pudessem manter taxas elevadas de crescimento, contra tudo e contra todos.

Com diferenças de alguns trimestres, e em graus um pouco mais ou um pouco menos acentuados, praticamente todos os países emergentes de alguma expressão econômica apresentaram forte queda nos ritmos de expansão do PIB em relação ao período anterior à crise. E não poderia ser diferente. 

É assim um tanto fora de propósito a capa da semana passada da revista britânica The Economist indagando se o Brasil havia posto a perder a oportunidade de alcançar um novo patamar de desenvolvimento econômico e social. A capa é no mínimo injusta com o Brasil. 

Retomada

Mesmo em um ambiente econômico internacional ainda muito débil, a economia brasileira vem apresentando aceleração na taxa de crescimento do PIB, desde o segundo trimestre de 2012. É muito provável que no terceiro trimestre de 2013 a retomada arrefeça um pouco, mas isso não significará a sua interrupção e sim que a recuperação, frente a um quadro externo ainda muito desfavorável, não vai se nem em ritmo muito acelerado, nem uniforme.

E do ponto de vista social, a experiência recente do país na erradicação da pobreza extrema e de ascensão da Classe C é modelo para os demais países em desenvolvimento. As reiteradas vezes com que tem freqüentado nos últimos anos a capa da revista britânica já evidenciam a nova importância assumida pelo Brasil no cenário mundial.

Longo prazo

Mas quero me fixar no longo prazo. Afastada temporariamente a ameaça da reversão dos estímulos monetários pelo Federal Reserve, o Brasil ganhou tempo para fazer com mais determinação os ajustes necessários para assegurar a sustentabilidade de suas contas externas no longo prazo.

Nos doze meses encerrados em agosto de 2013, o déficit na conta de transações correntes do Brasil com o mundo alcançou US$ 80,3 bilhões, se situando 63% acima do resultado de um ano antes. Esse déficit representa o quanto o país está recorrendo ao exterior para cobrir o excesso da demanda sobre a produção. 

Essa rápida deterioração da conta de transações correntes nos últimos doze meses pode ser atribuída em sua quase totalidade à queda abrupta no saldo da balança comercial, que passou de US$ 23,0 bilhões nos dozes meses encerrados em agosto de 2012 para US$ 2,5 bilhões em agosto de 2013.

É provável que parcela considerável dessa redução no saldo do balanço comercial tenha se dado por conta do atraso na contabilização de importações de gasolina, o que apenas indica que a queda, apesar de menos acelerada, iniciou-se alguns meses antes.  

Ainda que a mudança mais recente no patamar do déficit de transações correntes tenha se iniciado no segundo semestre de 2012, em relação direta com o novo agravamento do cenário internacional, desde o final de 2006 a demanda por consumo e produção no Brasil vem sendo financiada por meio de aporte de recursos externos.

O gráfico apresentado relaciona o saldo da conta de transações correntes em doze meses como proporção do PIB, desde o ano de 1970.  Grosso modo, os períodos em que a curva se encontra acima do eixo, o Brasil acumulou poupança externa, como proporção do PIB, e nos períodos, mais freqüentes, em que elevou o peso da poupança externa para financiar o consumo e a produção ou pagar compromissos anteriores, a curva se encontra abaixo do eixo.

O boom exportador brasileiro do inicio dos anos 2000 propiciou a obtenção de saldos positivos na conta de transações correntes até 2007, que se consubstanciou no acúmulo de reservas internacionais pelo país.

De lá para cá, de forma crescente o país vem ampliando a dependência de recursos externos para financiar a produção e o consumo, em proporção que vem dando seguidos saltos desde 2010, sintoma de que as medidas adotadas pelo governo nos últimos dois anos para rebalancear a produção e o consumo ainda estão longe de surtirem os efeitos necessários.

Câmbio e investimento

O recurso à poupança externa para financiar o desenvolvimento é padrão para os países periféricos, mas o déficit em transações correntes somente é sustentável a médio prazo quando ele favorece mais a produção e as exportações do que o consumo e as importações. 

Nesse sentido, a depreciação do câmbio e o incremento dos investimentos para ampliar a capacidade produtiva e superar os principais gargalos da infraestrutura são fundamentais não apenas para incentivar a indústria interna, são uma necessidade da própria sustentabilidade de longo prazo do país, por mais que trocar consumo por produção não seja simpático aos eleitores.



*Professor do Departamento de Economia da UFS e Assessor Econômico do Governo de Sergipe.
Artigos anteriores estão postados em http://cenariosdesenvolvimento.blogspot.com/

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