As paixões e as pensões

29/12/2013 19:01:14 por Eugênio Nascimento em Colunas

José Lima Santana - Professor do Departamento de Direito da UFS

 

 

 

 

            Ignacio, com “g” e sem acento, é o seu nome. Andejou por alguns estados da federação até arranchar-se de vez em Sergipe. Viera, como que tangido pela seca, tais os retirantes de Graciliano Ramos. Mas ele não tem nada que faça lembrar o vaqueiro Fabiano, marido de Sinhá Vitória, pai dos dois meninos e dono da cachorra Baleia, o mais humanizado animal da nossa literatura. Não, Ignacio é um nordestino predestinado para as letras, para a poesia, para o sonho. E de sonho em sonho, acabou no pesadelo das pensões. Casamentos acabados, mulheres ávidas por sugá-lo. Pobre Ignacio, que andava de peito aberto, com o coração feito presa fácil, deixando-se seduzir aqui e ali.

            Tarde de segunda-feira. Ignacio estava atarefado na repartição pública federal na qual trabalha desde que fora tangido para o pequenino estado. Onde achara paz. Onde achara motivos para a poesia. Onde achara inspiração para abrir-se à possibilidade de novas pensões. Calma, Ignacio! A vida não é feita apenas de possibilidades reais ou virtuais de abertura para novas aventuras amorosas, para novos compartilhamentos, para contínuas e ocasionais vidas a dois. Não, a vida é muito mais do que isso. A vida precisa ser feita de paz, sobretudo. A vida não é um simples lampejo, como a luz piscante dos vagalumes. A vida é como um rio, que está sempre passando. Ora sereno, ora quebrando-se em cachoeiras. Naquela tarde, Ignacio precisava de ajuda para discernir algumas providências a ser tomadas. Discutiu, divergiu, convergiu adiante e tomou as decisões que deviam ser tomadas. E eis que se lembrou das pensões que continua pagando. Amou demais e em demasia paga pensões. Aliás, o seu holerite (eu detesto essa palavra, preferindo o vocábulo contracheque, ou contrachoque, quando a remuneração é minguada) parece uma colcha de retalhos: pensão para A, pensão para B, pensão para C... A remuneração bruta de Ignacio não é minguada, mas é vazada pelas pensões. Acionar a Justiça para reduzi-las? É o caminho. Mas ele é generoso. Prefere continuar pagando, embora nem todas as ex-mulheres continuem tendo a necessidade de receber. Coração e mente de poeta, quem poderá entender? Sendo assim, sofre Ignacio! Continue a sofrer até que o masoquismo se entranhe de vez em seus nervos, se lhe for possível entranhar-se mais. O dinheiro das pensões não lhe faz falta? Deve fazer, mas ele é um exímio economista doméstico. A remuneração líquida é contada tin-tin por tin-tin. E acaba dando para tudo. Quem tão bem controla as finanças, não controla o coração, esse músculo danado que é o centro da vida humana, na compreensão judaica, como consta do Velho Testamento. Ignacio está ficando velho, mas o gás que lhe sobra ainda dá para tecer poesias. Para louvar as mulheres de sua vida, que lhe deixaram marcas e que ainda lhe arrancam nacos. C’est la vie!

            Ignacio recebe um telefonema do exterior. É a chefe (seria melhor dizer “chefa”, como “presidenta”?) dele, que está em lua de mel (?) pras bandas do hemisfério Norte. Ele a substitui. Trocam palavras. Ignacio ri. A chefa estilosa da terceira idade saboreia o “Retorno de Jedi” (é preciso lembrar a série de filmes “Guerra nas Estrelas”, Episódio VI). Só os íntimos sabem o que isso significa. Boa sorte para ela! Um colega abusado, metido a ser loroteiro de fala e escrita, apelidou-a de “velhinha pedófila”. É que ao seu redor trabalha uma equipe de jovens bacharéis devidamente capacitados para o necessário assessoramento. Sem dúvida, uma boa equipe de trabalho. Ela ri das presepadas do colega loroteiro. Pois assim mesmo deve ser a vida: levada a sério, quando deve ser séria, e levada no bom humor quando é preciso relaxar. Ah, como é bom relaxar! E a depender do tipo de relaxamento... Basta lembrar o conselho dado por certa ministra. Lembram? Que coisa, hein? Ministra desbocada...

            Fim de ano. Foi-se 2013. Que venha 2014! E virá fumegando. Serão tantos eventos, tantas coisas, que tem tudo para arder. Vai ser um ano danado. E para Ignacio, como será o ano novo? Mais poesia, mais sonhos, mais pensões? Deus é mais!

            Aproveitando a deixa, eis o poema “Amor”, de Fernando Pessoa, dedicado a Ignacio, a sua chefa e a todos que amam:

“O amor, quando se revela, / Não se sabe revelar. / Sabe bem olhar p'ra ela, / Mas não lhe sabe falar. /// Quem quer dizer o que sente / Não sabe o que há de dizer. / Fala: parece que mente... / Cala: parece esquecer... /// Ah, mas se ela adivinhasse, / Se pudesse ouvir o olhar, / E se um olhar lhe bastasse / P'ra saber que a estão a amar! /// Mas quem sente muito, cala; / Quem quer dizer quanto sente / Fica sem alma nem fala, / Fica só, inteiramente! /// Mas se isto puder contar-lhe / O que não lhe ouso contar, / Já não terei que falar-lhe / Porque lhe estou a falar...”.

E por que não cantar com Vinicius de Moraes e Toquinho a canção “Como Dizia o Poeta”? Vale a pena:

 “Quem já passou por essa vida e não viveu / Pode ser mais, mas sabe menos do que eu / Porque a vida só se dá pra quem se deu / Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu / Ah, quem nunca curtiu uma paixão nunca vai ter nada, não / Não há mal pior do que a descrença / Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão / Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair / Pra que somar se a gente pode dividir / Eu francamente já não quero nem saber / De quem não vai porque tem medo de sofrer / Ai de quem não rasga o coração, esse não vai ter perdão / Quem nunca curtiu uma paixão, nunca vai ter nada, não”. Está vendo, Ignacio? Paixão rima com pensão.

Para finalizar, esta belíssima página de Carlos Drummond de Andrade, intitulada “Não deixe o amor passar”:

 “Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida.
Se os olhares se cruzarem e, neste momento, houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu.
Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante, e os olhos se encherem d’água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês.
Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Deus lhe mandou um presente: o Amor.
Por isso, preste atenção nos sinais - não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: o AMOR”. É isso aí, Ignacio!

Que 2014 seja um ano de SOLIDARIEDADE, JUSTIÇA, PAZ, FELICIDADE e AMOR para os nossos leitores e as nossas leitoras! Que DEUS nos abençoe e nos ilumine! E quem NELE não acredita, siga em paz, contemplando flores e estrelas.

 

 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 28 e 29/12/2013. Publicação neste site autorizada pelo autor. 


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