O reformador social que não deu certo

Afonso Nascimento  -  Professor do Departamento de Direito da UFS


Qual é a real estatura política de João de Seixas Dória (1917-2012)? Refletindo sobre a sua vida política, tenho a impressão de que foram criados certos exageros sobre ela. Considero que alguns desses exageros surgiram de esforços para homenageá-lo e que outros derivam do fato de ter sido apeado, manu militari, do poder pela ditadura militar. No segundo caso, coisa semelhante ocorreu em relação a militantes da esquerda armada e desarmada que foram transformados em heróis – mesmo aqueles que lutavam mesmo pela troca de uma ditadura de direita por outra de esquerda. Certamente, esse não foi o seu caso.

 

Quem foi João de Seixas Dória? Ele foi um membro das classes proprietárias rurais tradicionais sergipanas, nascido em Propriá. Essa sua alta origem social, permitiu-lhe frequentar as melhores escolas das elites baianas do seu tempo como o Colégio Antônio Vieira e o Colégio Maristas, bem como a Faculdade de Direito da Bahia. Em entrevista que me concedeu, não consegui entender por que razão decidiu transferir-se para Niterói onde concluiu seus estudos jurídicos. Nesse tempo, aderiu ao integralismo. Depois disso, ele resolveu voltar a Salvador e ali trabalhar como advogado. Mas não praticou a advocacia por muito tempo. Recebeu e aceitou o convite para exercer um posto político, como secretário de governo, na prefeitura udenista de Aracaju.

 

O referido convite partiu de ninguém mais, ninguém menos, que Leandro Maciel, a principal liderança da União Democrática Nacional (UDN) que, em seguida, lançou-o e o elegeu deputado estadual. Para que o leitor tenha uma ideia do contexto partidário dos anos 1950, a UDN era um dos três partidos da aristocracia rural sergipana, ao lado do Partido Social Democrático (PSD) e do Partido Republicano (PR). Seixas Dória não ficou satisfeito com um mandato. Na eleição seguinte, foi reeleito para o mesmo posto. Como parlamentar estadual por dois mandatos (1947 e 1950), teve um desempenho muito ativo na tribuna e na imprensa.

 

Antes de lançar-se na política nacional, trabalhou em outra ocupação que facilita o ingresso na política (por conta do uso da fala, como também é o caso da advocacia): fez radialismo político. Lançando-se candidato deputado federal, foi eleito sem dificuldades. Nos dois mandatos exercidos (1955 e 1959), tornou-se, inegavelmente, um político nacional, defendendo causas e bandeiras de seu partido conservador e golpista, a UDN, mas que também sustentava teses consideradas progressistas para o seu tempo como o nacionalismo, entre outras. Fazia parte do alto clero da política brasileira. As suas habilidades como orador de alto nível abriu portas políticas para aquele homem público de pouco mais de um metro e meio de altura, chegando, naqueles tempos turbulentos, ao cargo de vice-líder do seu partido, sendo muito assediado pela imprensa nacional e animando dois blocos parlamentares, a saber, a Frente Parlamentar Nacional e a Bossa Nova da UDN.

 

Com esse seu brilho parlamentar em Brasília, pensou que isso lhe dava as credenciais para candidatar-se a governador de Sergipe. Recebeu um “não” do chefe partidário Leandro Maciel, que tinha outros planos. Insatisfeito com o veto, não desistiu. Foi persuadido a fazer parte de um esquema político mediante o qual se filiava ao PR e, com o apoio decisivo do PSD, o partido que combatera como deputado estadual e federal, Seixas Dória concorreu e ganhou a eleição para a governadoria estadual. Com essa vitória, alcançou o auge de sua carreira política. O que queria fazer? Tinha planos de um verdadeiro reformador social católico, ao adotar para si, como projeto de governo, as “reformas de base” de João Goulart que, para Sergipe, incluíam uma agenda que vinha sendo ignorada desde o fim da escravidão e da introdução da República, a saber, reforma agrária bem moderada (nas beiras de estradas estaduais e federais), erradicação do analfabetismo, etc.

 

Eleito governador, ali estava um descendente direto das elites oligárquicas falando outra língua social e política diferente daquela usada por seus pares de origem – da mesma forma que o fazendeiro sul-rio-grandense e presidente da República, o outro João, o Goulart. Em Sergipe, isso provocou a ira das classes proprietárias rurais como, de resto, no Brasil inteiro. Seixas Dória tinha se tornado comunista, por adotar essas novas bandeiras? Ele fundamentava a imperiosidade dessas reformas sociais no catolicismo que tinha aprendido em casa e nas escolas de Salvador. Em discurso fundamentando essa sua escolha, ele dizia não ter nada a ver com o marxismo e com o comunismo ateu e que na sua religião encontrava bases doutrinárias mais abrangentes para implementar essas reformas sociais em Sergipe.

 

Nos quatorze meses em que foi governador, passou parte de seu tempo viajando e emprestando seus recursos oratórios às causas defendidas por ele, Jango, Miguel Arraes, entre outros. Tinha noção da complicação em que se havia metido? Participou, inclusive, do famoso comício no Rio de Janeiro em março de 1964, que selou a sua sorte e a de seus correligionários. Aí veio o golpe militar, perdeu o emprego de governador, foi mandado como preso político para Ilha de Fernando de Noronha, na costa de Pernambuco, e mais tarde foi libertado através habeas corpus. Na prisão não sofreu torturas e coisas do gênero. Para mim, o momento mais importante de Seixas Dória como político foi, já sabendo que estava perdido, fez pronunciamento ao povo sergipano dizendo-se ser contra a quebra da legalidade institucional e em seguida ter recusado o mesmo emprego de governador sob a condição de apoiar o novo regime político. Aí ele adquiriu a estatura de um verdadeiro estadista.

 

Como era um homem rico, penso que Seixas Dória deveria ter acabado sua carreira política naquele ponto. Mas ele quis mais. Ao recuperar os seus direitos políticos, filiou-se ao MDB e logo em seguida ao recém-criado PMDB. Eram outros os tempos. Candidatou-se duas vezes a mandatos federais e sofreu duas derrotas eleitorais. Na condição de suplente, concluiu um mandato federal. Da mesma forma que não tivera bases sociais para as reformas pretendidas no começo dos anos 1960, Seixas Dória não tinha base eleitoral para eleger-se. Disso resultarão os dois fracassos eleitorais seguidos. Diferentemente dele, Miguel Arraes foi eleito duas vezes governador de Pernambuco.

 

Com a via eleitoral complicada, terminou a carreira política como secretário do conservador presidente José Sarney, antigo companheiro e compadre da velha UDN e, em Sergipe, foi secretário dos transportes de dois governadores sergipanos, ou seja, Antônio Carlos Valadares e João Alves Filho. Além disso, usou o seu declinante capital político para ocupar, juntamente com parentes, espaço em empresas estatais. Seixas Dória soube entrar na política, mas foi incapaz da fazer a leitura correta da nova realidade política para saber sair da política. Da primeira vez saiu do poder pela força das armas e da segunda pela rejeição dos eleitores. O único político candidato a reformador social da história política sergipana, Seixas Dória merecia ter tido um fim político melhor.

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