O homem que amava os cachorros (II)

30/03/2014 19:50:59 por Eugênio Nascimento em Coluna Clóvis Barbosa

Clóvis Barbosa - É blogueiro e conselheiro do TCE-SE

Pois é! Comecei a falar de Ivan, o veterinário de Havana e seu encontro com o homem que passeava com os seus cães, e passei a divagar sobre os meus cachorros, sobretudo, sobre a minha experiência stalinista. Volto atrás. Esse encontro entre Ivan e seu personagem enigmático serve de mote para o escritor cubano Leonardo Padura construir um romance histórico que vem sendo elogiado pela crítica mundial, cujo título é o mesmo do presente ensaio. O livro tem 585 páginas e foi lançado no Brasil pela Boitempo. Sobre ele, o The Times, afirma que “Leonardo Padura confirma seu status como o melhor escritor de ficção policial em língua espanhola, um digno sucessor a Manuel Vázquez Montalban”. Para o Le Fígaro, “uma narrativa de tirar o fôlego, uma obra prima”. O El Correo Español, diz que é “um romance que exala a experiência narrativa dos bons contadores de histórias”. O El Mundo considera a obra “um excelente romance, rico em sugestões sobre a condição humana e sobre o nosso mundo que vão além da estória narrativa direta”. Nunca uma obra de um escritor cubano, pós-revolução, foi tão bem aplaudida como esta de Padura que, diga-se, não se trata de um dissidente do regime cubano. Mas também não é um livro com o simples objetivo de divertir o leitor.

Além de recontar uma das histórias que abalou o mundo na época (o assassinato de Trotski a mando de Stalin por um homem de esquerda), o catalão Ramón Mercader, que foi acolhido na ilha por Fidel após o evento, Padura consegue, também, pintar o retrato de Cuba na atualidade, ainda com problemas crônicos e inúmeros desafios. Aqui neste espaço, no fim do ano passado, escrevi uma série com quatro ensaios sobre Cuba, intitulados Carta do Caribe (I a IV) e ali tive a oportunidade de fazer uma avaliação crítica da realidade cubana a partir da minha visita à ilha no mês de setembro. Na oportunidade, falei da necessidade de se acelerar as reformas em Cuba com mais participação popular e ouvindo o conjunto da sociedade. Um grande debate teria que ser aberto antes do pior acontecer. Cuba e o sonho do socialismo não devem perecer. Fazia, também, um alerta, citando Albert Camus, na sua obra O homem revoltado, que cria uma metáfora que se aplica bem ao que está acontecendo no país cubano: o arco se verga e a madeira geme. No auge da tensão, alçará voo, em linha reta, uma flecha mais inflexível e mais livre. Citei até uma advertência feita pelo próprio Fidel em palestra na Universidade de Havana em 2005: “Se o imperialismo não conseguiu derrubar a revolução, os cubanos poderão fazê-los, por seus erros e omissões”.

Ao lado da contribuição que Padura dá à compreensão de vários fenômenos ocorridos no século XX, onde se destacam o período estalinista, as revoluções cubana, espanhola e russa, ele constrói um romance audacioso, sem, evidentemente, ali encontrar, uma profunda reflexão teórica sobre os temas. Mas, como diz Frei Betto, “Este romance é como um espelho retrovisor que permite ao leitor mirar, com olhos críticos, as contradições do socialismo e por que a morte de Trotski, decidida por Joseph Stalin, contribuiu para favorecer a queda do Muro de Berlim e o desaparecimento da União Soviética”. O conteúdo da obra nos leva a fazer algumas reflexões, até sobre a experiência democrática que o Brasil vem vivenciando, após a ditadura militar. Por várias vezes, em vários ensaios e fragmentos publicados neste espaço, tenho alertado sobre a necessidade de cada vez mais abraçarmos a idéia da democracia como um valor universal. Se a ditadura é o regime de desrespeito às leis, às instituições e às liberdades civis, a democracia faz o caminho inverso. O respeito às normas e às instituições é o mais importante passo para a solidificação de uma sociedade que tende a avançar no campo da civilidade, da solidariedade e do respeito mútuo. Como diz Bobbio, “o estar em transformação é seu estado natural”.

Tzvetan Todorov, em sua obra “Os inimigos íntimos da democracia”, emite um enfático alerta sobre a capacidade que tem a democracia de engendrar seus próprios inimigos. Não se pode varrer para debaixo do tapete a crise que vive a nossa democracia representativa. A classe política tem que repensar o seu comportamento. A instituição partidária não respeita a vontade da maioria, mas a de sua cúpula. É preciso entender que há um desencanto com os resultados apresentados pela representação política. O mundo econômico, sempre ávido pelo lucro fácil, pela concentração de riqueza e pela manutenção dos seus privilégios, acha que nada tem a ver com o processo de sedimentação do processo democrático. O corporativismo desenfreado, sempre em busca de melhoria de suas condições de sobrevivência, dá, também, a sua contribuição e, o que é pior, de forma atabalhoada, não importando se está desgostando ou não a quem quer que seja. Enfim, todos querem ter razão e fazem da manipulação das palavras o seu tacape, que muitas vezes volta-se contra ele próprio. E transformam em realidade a máxima de Millor Fernandes, que conceitua: “Democracia é quando eu mando em você. Ditadura é quando você manda em mim”.

Retratos da Vida – Os três porquinhos

Huginho, Zezinho e Luizinho, três irmãos que tinham um mesmo amor: o Fluminense Football Club (não admitiam o aportuguesamento). Ainda imberbes, quando eles apontavam no Cacique Chá, normalmente em véspera de jogo do tricolor carioca, chamavam atenção dos frequentadores. Adentravam em fila rigorosamente obedecendo a idade cronológica, com o mais velho sempre na frente. Eram impecáveis nas vestimentas. Quando o uniforme tinha a camisa listrada, o calção e o meião sempre eram brancos. Quando a camisa era branca com golas verde e vermelha o calção e meião também eram brancos. Não, não calçavam chuteiras, mas tênis, sempre brancos. O mais velho bebericava sempre uma cerveja preta e os demais pimpolhos guaraná. Nenhum assunto, que não fosse o Fluminense, a sua história, os grandes jogadores poderia ser objeto de conversa naquela mesa. Quando um torcedor desavisado partia para denegrir o Fluminense, ipso facto, os três se levantavam e a um só côro, diziam, sempre com a mão no coração ao lado do escudo, num entrosamento sonoro que faria inveja a qualquer grupamento militar: “Fluminense, meu eterno amor. É por isso que eu canto, que visto este manto, orgulho de ser tricolor”. E arrematavam com o início do seu hino: “Sou tricolor de coração / Sou do Clube tantas vezes campeão / Fascina pela sua disciplina / O Fluminense me domina / Eu tenho amor ao tricolor / Salve o querido pavilhão / Das três cores que traduzem a tradição: / A paz, a esperança e o vigor. / Unido e forte pelo esporte, / Eu sou é tricolor”. Sempre ao terminar, o mais novo, Luizinho, com a sua língua presa, gritava: “É Lamartine Babo, porra!”, referindo-se à letra da música. O tempo passou, o Cacique Chá acabou. Levou com ele a história daqueles meninos, hoje homens importantes da vida sergipana.

Clóvis Barbosa escreve aos domingos, quinzenalmente.

Comentários (1)

Jeferson Fonseca de Moraes em 31/03/2014 às 13:41h
Gosto muito do escritor quando escreve no linguajar do povo. Uma beleza... Relembrei o Cacique dos velhos tempos, quando as esquerdas ali se reunião na ingenuidade de mudar o mundo substituindo Ditaduras por outras. Que bom que as Ditaduras sejam todas iguais das quais não se guarda saudades.S

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