Quem matou Zé Marmelada?

01/03/2015 11:38:42 por Kleber Santos em Coluna José Lima
José Lima Santana
Professor do Departamento de Direito da UFS


Não fui eu. Vou logo avisando. Eu não fui nem suspeito remoto. Até porque eu só tinha 10 anos de idade quando ele morreu. Apareceu morto no quintal da casa, afastada e desocupada, de Tibúrcio do Amarante, com um sorriso discreto nos lábios. Morto sorrindo? Mangando da cara dos bestas? Pois foi. Assim mesmo. Taí uma situação que nunca me saiu da memória. Lembro-me como se fosse hoje. O sol ardendo no início de uma tarde de dezembro, bem pertinho do Natal. Foi um alvoroço danado ali no subúrbio Tabaquinho. Gente como formiga em correição queria ver o morto. Ou melhor, o sorriso do morto. Eu nunca vi um defunto tão visitado por causa de um sorriso. Sorriso mais enigmático do que o da Mona Lisa. “Ô Pedrinho Pirulito, você que é um sujeito andado e amolengado, diga-me cá uma coisa: você já viu um defunto com um sorriso misterioso como Zé Marmelada? Seja sincero!”. E Pedrinho respondeu na bucha: “Bem. Eu acho que não. E ainda por cima, um defunto que foi defuntado, que foi assassinado... Nunca vi não”. Assassinado, se é que foi, mas sorridente. Não tinha explicação para tal sorriso.

Antes que os leitores e as leitoras fiquem impacientes comigo, vou logo dando o serviço sobre quem era Zé Marmelada. Era José Simplício das Neves Pereira, filho de Pereirão das Porteiras, este, filho, neto e bisneto de bons e afamados dedos no gatilho, e de jamais negarem fogo. Mas isso foi nos tempos de muito para trás. Zé Marmelada não puxou aos seus ascendentes. Nunca sequer possuiu uma arma de fogo. Era um cabra do bem. Fiscal da Prefeitura. Viúvo sem filhos. Rezador em sentinelas e novenas. Amigo e companheiro em partidas de gamão do padre Fonsequinha. Os dois eram os maiores campeões da cidade naquela modalidade de jogo de tabuleiro. Pronto. Dei o serviço. Eu hoje não estou para enrolar, não. Quer dizer, não estou para não enrolar muito. Deus seja louvado, agora e sempre!

“Ah, mundo ingrato! Ah, mundo velho enganador!”, costumava dizer Zé Marmelada, quando alguma coisa desandava para ele ou para algum conhecido. Se o mundo pode ser ingrato com algumas pessoas, ou a vida pode sê-lo, eu não estou certo. Mas, se for, com certeza o fora com ele. Fora sim. Casado de novo, viu a mulher morrer de parto e a filhinha recém-nascida morreria oito dias depois. Ele não haveria de casar novamente. Viveria sozinho o resto de sua vida. E cuidaria com um zelo extremado da sepultura da mulher e da filha. Ele mesmo, com a ajuda de um parente, que era pedreiro, levantou a carneira azulejada, onde um dia também haveria de repousar.

Algum leitor ou leitora acha que eu estou enrolando? Se por acaso acha, desculpe-se. Não estou não. Só estou querendo situá-los no contexto da vida e da morte de Zé Marmelada. Ah, lembrei-me agora de explicar como José Simplício adquiriu a alcunha de Zé Marmelada. Quando era menino, ele gostava de jogar bola, de bater uma peladinha no campo improvisado de chão duro lá no Tabaquinho, que, por oportuno, eu informo que agora se chama Loteamento Grandeza. Toda vez que ele se sentia lesado numa jogada, que o juiz improvisado não marcava nada que lhe favorecesse, ele berrava: “Marmelada!”. Pronto. Ficou Zé Marmelada.

No peito de Zé Marmelada, um tiro. Um furo na camisa branca manchada de sangue. Um discreto filete de líquido vermelho e viscoso escorreu pela camisa. Por baixo da camisa, porém, o filete era enorme. Uma poça de sangue formou-se no chão, ao lado esquerdo do defunto sorridente. Intrigante sorriso. A polícia, que naquele tempo, ou seja, há 50 anos, não tinha preparo técnico nenhum, mas era diligente, principalmente naquele momento em que o delegado era o tenente João Bispo, jovem talentoso, que se tornaria coronel e comandante da Polícia, e que não descansou para tentar esclarecer o caso. Quem teima em ler os meus pobres escritos domingueiros deve estar ansioso para saber quem matou Zé Marmelada. Chegarei lá.
O delegado João Bispo ponderou os fatos. Colheu alguns dados. Analisou a cena do crime. Ouviu depoimentos preliminares, antes de abrir o inquérito. Mandou recolher o corpo, levando-o à sala do distrito sanitário municipal, sob os protestos de familiares do morto. Afinal, quem aquele delegadozinho pensava que era, para impedir a família, irmãos e sobrinhos, de prantear o defunto, de cuidar do corpo? Nenhum delegado, pelo que o povo se lembrava, jamais fizera aquilo. Apesar das contrariedades familiares, e do disse-que-disse do povaréu, o jovem tenente encarregou o farmacêutico Juvêncio de fazer o laudo de exame cadavérico. O laudo saiu. Aparentemente, nada que pudesse esclarecer aquele assassinato. Ou suposto. A única evidência: o tiro fora desferido à queima roupa. Não havia recursos técnicos que pudessem elucidar o caso. Só restava mesmo liberar o corpo para o velório e o respectivo sepultamento. A sentinela foi muito concorrida. Zé Marmelada era muito bem quisto. Além disso, rezara em incontáveis sentinelas. Era chegada a sua hora de receber as rezas, as excelências, que, na língua grossa do povo, eram ditas “inselenças”.

A morte de Zé Marmelada não foi desvendada. Nenhum indício. Nenhum suspeito. Nada. O delegado encerrou o inquérito e o encaminhou ao Fórum. Todavia, não se deixou convencer daquele suposto homicídio. O padre Fonsequinha confidenciara ao delegado que Zé Marmelada andara apreensivo com alguma coisa. Algo parecia lhe afligir. Mas, embora tentasse algumas vezes, ele não conseguira arrancar nada. Uma sobrinha do morto tivera a mesma impressão. Nada além daquilo. O delegado não tinha elementos para pedir a reabertura do inquérito. Um ano se passou.

Na noite da missa de um ano, o caso seria, enfim, desvendado. Zé Marmelada jurou diante do cadáver da mulher, a quem ele amou como se deve amar a pessoa com quem se partilha a vida, que jamais amaria outra mulher. Nenhuma outra tocaria as cordas invisíveis do seu coração. Para nenhuma outra ele colheria rosas orvalhadas no seu pequeno jardim. Dos lábios de nenhuma outra ele haveria de colher mel, como colhera dos lábios de sua amada. E assim ele o fez. Nunca mais olharia para outra mulher. Contudo, nos seus últimos meses de vida, ele esteve a ponto de quebrar a jura. Estava de cabeça virada por causa de Ana Flora, sua vizinha novata. Uma tentação. Aquela morena azucrinava a sua cabeça e o seu coração. Ele entrou em apavorante angústia. Não poderia quebrar a jura de amor eterno. Escreveu uma carta. Pediu ajuda ao compadre Salvador a quem entregou a carta com uma recomendação. No quintal da casa vazia de Tibúrcio, que se mudara para a capital, ele deu cabo da própria vida, usando um abafador improvisado para abafar o estampido do tiro do revólver recentemente adquirido para aquele fim. Usou luvas para não deixar resíduos de pólvora. O único tiro que dera fora para tirar de sua vida a angústia e o tormento. Para tirar a própria vida. Antes, o compadre não conseguiu lhe demover. Mas, cumpriu o prometido, que era desfazer os indícios do suicídio, para que o padre Fonsequinha pudesse celebrar a missa de corpo presente, pois suicida não tinha direito a esse regalo espiritual. Ele não queria que a sua alma penasse na escuridão. Salvador entregou a carta ao padre, logo após a missa de um ano, no confessionário. Pela letra, o padre confirmou a autenticidade da carta em que Zé Marmelada confessava o suicídio que iria perpetrar. Salvador não fora cúmplice do suicídio. A carta era clara. O padre não podia fazer nada. Recebera a carta em confissão. Caso encerrado.

(*) publicado no Jornal da Cidade, edição de 1º e 2 de março de 2015

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