O tambor

26/04/2015 18:46:33 por Kleber Santos em Coluna Clóvis Barbosa
Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE
 
Não estou nem aí para o que a direita fala do alemão Günter Grass, falecido recentemente, e autor do romance “O tambor”. O que me interessa em Grass é o seu personagem Oskar Matzerath. A tese defendida por ele é que Adolf Hitler não foi o único culpado da aventura do Estado alemão na Segunda Guerra Mundial, quando onze milhões de pessoas entre eslavos, poloneses, ciganos, homossexuais, deficientes físicos e mentais, judeus, testemunhas de Jeová, foram assassinadas, num dos episódios históricos que mais envergonham a humanidade. As sementes plantadas por Hitler só atingiram o ápice graças ao apoio incondicional da sociedade alemã, dos seus cidadãos. Se olharmos os grandes acontecimentos históricos veremos que o povo, na sua maioria e estupidamente, sempre esteve apoiando o lado errado. Foi assim nas ditaduras de Salazar, em Portugal, de Franco, na Espanha, de Mussolini, na Itália, nas da América Latina, da África e dos países de regime totalitário. No Brasil, tanto os regimes de exceção de Vargas, nas décadas de 1930/1940, como o governo militar iniciado em 1964, só sobreviveram pelo apoio civil que tiveram.  Em “Amnésia, repressões, mitos: como se conta o passado após uma ditadura”, artigo do professor Bruno Groppo constante no livro “1964: 50 anos depois, a ditadura em debate” (Editora Edise, Aracaju, 2015), consta que “Uma das questões mais difíceis de enfrentar após o fim de uma ditadura é a do consenso de que esse regime se beneficiava no seio da população, em vez de discuti-lo abertamente. Prefere-se, geralmente, esquivar-se dele, negá-lo ou reformulá-lo. A dificuldade vem do fato de que as ditaduras, ainda que sejam por definição sistemas fundados sob a violência, não podem se manter por muito tempo no poder somente por esse meio, e têm necessidade também de um certo consenso. Até porque elas pretendem sempre governar em nome de um conjunto mais vasto (o povo, a nação, uma classe) e não podem renunciar a essa ficção,  destinada a legitimá-las. O consenso que elas obtêm pode ir da adesão entusiasta à aceitação passiva, passando por uma larga gama de atitudes intermediárias”.

A tese de Günter Grass e de seu personagem Oskar Matzerath não é novidade. É justamente o óbvio que preferimos ignorar. Mas, por ter dito isso, o romance “O tambor” causou furor na Alemanha quando lançado em 1959. Tal o incômodo, que o livro foi queimado em várias cidades alemãs. No Brasil, muitos que se serviram da ditadura e que se destacaram na sua preservação, ocupando os mais importantes cargos, foram servis escudeiros de um regime que torturava e assassinava cidadãos nos seus porões. Hoje, passam a imagem de democratas extremados, que nada teriam a ver com a ditadura. Têm sim! A ditadura militar só sobreviveu por 21 anos graças ao apoio e às benesses recebidos por esse grupo de políticos e outros membros da sociedade civil que assinaram embaixo de todas as atrocidades praticadas contra a cidadania e a liberdade de expressão. Essas pessoas nunca tiveram e ainda não têm compromisso com o processo democrático. Para elas, o Estado não é instrumento de transformação social, mas de realização de seus próprios objetivos pessoais. Não interessa a elas que haja fome, miséria e injustiça. São pessoas que nunca se extasiaram diante de um crepúsculo, ou como diz Ingenieros, “nem tampouco gostam de passear com Dante, rir com Moliére, tremer com Shakespeare ou assombrar com Wagner; nem mesmo emudecem diante de David, da Ceia ou do Partenon”. Essas pessoas estão aí “botando pra quebrar” e se servindo de outra alcatéia, aquela formada pelo homem que passa a vida vivendo em rebanho, pensando com a cabeça dos outros e incapaz de formar juízo próprio. Pois bem, José Saramago, o grande escritor lusitano, no seu livro “Ensaio sobre a Cegueira”, não poderia ter sido mais feliz na escolha da epígrafe de sua obra: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”. Ele nos apresenta uma narrativa emblemática: projeta o leitor para uma comunidade em que os habitantes vão, paulatinamente, perdendo a visão, numa autêntica “viagem ao inferno”, no dizer do compositor, violonista, crítico literário e musical Arthur Nestrovski.

No inferno, contudo, todos os personagens se encontram e se descobrem, numa verdadeira desmistificação da hipocrisia. Não adianta: quem é ruim, será ruim, quem é bom, será bom, se é que este vai para o inferno. Aliás, a leitura míope dessa realidade encontra seu arcabouço traçado pela Bíblia. É só ver a Segunda Carta aos Coríntios, capítulo 11, versículo 14, quando o apóstolo Paulo nos ensina que não deveríamos nos impressionar com falsos enviados do Messias, ao ressaltar que a existência desse tipo de gente “não é de admirar, pois até Satanás pode se disfarçar e ficar parecendo um anjo de luz”. Quem acompanhou as manifestações ocorridas recentemente em várias capitais brasileiras teve a oportunidade de assistir o triunfo da hipocrisia, enquanto arte de amordaçar a dignidade. Evidente que naquela multidão havia pessoas de boa-fé, que lutavam contra a corrupção, a favor da melhoria da saúde e da educação públicas. Ao mesmo tempo, havia aqueles, os “enviados do Messias”, bradando como xerifes da sociedade, eleitos ninguém sabe por quem, acompanhados de uma turba de agiotas, filhos de corruptos, aposentados por invalidez do serviço público no pleno exercício de atividades laborais, enfim, uma multidão de gente que se merece. Nem criativos são. Um grupo criou o slogan “Basta”, outro o “Fora”. Não sabem (ou fingem não saber) que estas foram as senhas utilizadas pelos militares para instalação da ditadura no país. Aliás, a história é contada por Carlos Heitor Cony (Folha de São Paulo, Terça, 14.04.2015, p. A-2-Opinião): “Na manifestação do último domingo (12), em São Paulo, vi em algumas faixas, verdes e amarelas, amarradas na testa de duas jovens, duas palavras terríveis: Basta! E Fora! Por sinal, dois títulos dos editoriais do ‘Correio da Manhã’ em 1964, que foram considerados pelos historiadores, a senha para a derrubada do presidente João Goulart e o golpe militar daquele ano. Golpe logo transformado numa ditadura que durou 21 anos, que, além de sufocar a liberdade de todo um povo, produziu mortes e torturas violentas, desaparecimentos até hoje não explicados, tutela sobre a justiça, censura contra a imprensa e as artes em geral”.

Não sei se a humanidade faliu, mas como dizia Woody Allen, mais do que em qualquer época, ela está numa encruzilhada. Um caminho leva ao desespero absoluto. O outro, à total extinção. Vamos rezar para que tenhamos a sabedoria de saber escolher. Eu tenho insistido muito em trazer para reflexão nesses meus ensaios temas ligados à filosofia, ética, política, sociologia e, sobretudo, sobre o comportamento humano e sua terrível falta de memória e de conhecimento da nossa história. Repito Oskar Matzerath em O tambor: “Até o papel de parede tem uma memória melhor que a dos seres humanos”.

Post Scriptum: 
Duas grandes mulheres
Duas grandes amigas

Segunda-feira, 13, mês de abril. O dia foi terrível para mim. Logo cedo acordava com uma triste notícia: o falecimento de uma amiga-irmã, Maria Helena Domingues Garcia, minha querida comadre Leninha. Uma amizade de mais de trinta anos. Acompanhei todas as suas vitórias e ela as minhas. As alegrias de seu concurso para professora do Departamento de Medicina da UFS, a sua posse na Academia Sergipana de Medicina, as noites de poesia e música, o amor dedicado aos meus filhos. Era uma pessoa de uma solidariedade espantosa, com quem se podia contar nas horas difíceis. Mulher extraordinária, esposa apaixonada, mãe dedicada, irmã-mãe e pai, filha saudosa de pais queridos. Nela se fazia verdade o que Nietzsche dizia: “o que fazemos por amor, sempre se consuma além do bem e do mal”. Leninha era uma mulher inteira no que fazia e tinha no amor a grande arma em todas as relações que mantinha. Era grande até nas divergências. A morte que lhe extinguiu enquanto humana, com certeza sucumbiu diante do amor que, nela, era divino e supremo. Pessoana como eu, recitava os poemas de Fernando Pessoa e seus heterônimos com uma beleza que emocionava. Este poema, que ela fez para a mãe, poderia ter sido feito para ela própria: “Esse amor em valsa é teu! / Devolve o passado qual flor / Que, de repente, volta a brotar, te devolvendo a vida, / Pois se és poesia, jamais morreste, querida.”

O dia me reservava nova surpresa. Na madrugada, ainda estava no velório de Leninha, acompanhando o sofrimento do seu esposo Eduardo e de seus filhos Eduardinho e Patrícia. Repentinamente,  chega ao velatório um novo caixão. As luzes se acendem e o letreiro começa a anunciar o nome do falecido: Juçara Fernandes Leal de Melo, a quem eu conheci na velha Faculdade de Direito da Rua da Frente, retratada acima. Uma dor fina toma conta de mim. Levanto-me e vou ao encontro do caixão e de dois jovens que o acompanhavam. Era um seu sobrinho e a namorada. Olho Juçara e vejo seus cabelos brancos. Toco-os e um filme começa a passar em minha mente. Juçara, minha professora de Direito Penal, minha amiga de muitas viagens pelo Brasil afora em busca de experiências em complexos penitenciários, como os de Itamaracá, em Pernambuco, Pedra Preta, em Salvador e tantos outros do nordeste brasileiro. Nunca me esqueço dos seus conselhos e do cuidado que ela tinha comigo nos anos de chumbo da ditadura militar. Achava que eu poderia cair a qualquer momento nas garras da repressão. “Você precisa se formar e se dedicar à sua profissão. Deixe momentaneamente essa vida clandestina de comunista”. Comigo, ela conheceu Ivan, futuro marido e pai de seus filhos. Foi a vez de eu cobrar dela o devido cuidado, mas terminei servindo de cupido para aquele romance que se iniciava na capital baiana. Interessante é a vida. Vinícius tinha razão... a vida não é brincadeira. A vida é a arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida. Pegava em seus cabelos e me perguntava: Por que eu nunca mais tinha visto Juçara? 20, 30 anos? Adeus Leninha! Adeus Juçara! Adeus meninas! Obrigado por tudo! 

*Clóvis Barbosa escreve quinzenalmente, aos domingos.

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