As fontes do crescimento

26/04/2015 18:51:08 por Kleber Santos em Coluna Ricardo Lacerda
Ricardo Lacerda
Professor do Departamento de Economia da UFS

Em período de baixo crescimento, acompanhado de cortes de gasto público, dissemina-se uma atmosfera de ansiedade associada à incerteza em relação às perspectivas da economia brasileira. Em situação de recessão duradoura que acomete as economias avançadas e findou contaminando as perspectivas de crescimento das economias emergentes por meio de diversos canais de transmissão é natural que as pessoas se questionem quais seriam os vetores que poderiam impulsionar à recuperação da nossa economia.

Cenário externo

Algumas considerações são necessárias para dimensionar o tamanho de nossas dificuldades e os horizontes de nossas perspectivas. No cenário externo, apesar da aceleração do crescimento norte-americano, o quadro ainda é de baixo dinamismo nas principais economias. Mesmo que as agências multilaterais venham reiterando que o pior da crise da zona do euro teria passado, a verdade é que não há segurança sobre tais vaticínios que já se revelaram equivocados em anos anteriores. 

Os relatórios de tais agência apontam que países e bancos europeus teriam reduzido a vulnerabilidade relativa a dívidas problemáticas, mas não há até o momento sinais de crescimento robusto da economia do euro. Assim como não há, no curto prazo, muito o que se esperar em termos de reaceleração do crescimento chinês ou de recuperação no Japão, cuja economia encontra-se adormecida há muitos anos. 

Em síntese, se nada atrapalhar as economias avançadas deverão acelerar moderadamente nos próximos anos, lideradas pelo crescimento da economia norte-americana e apoiadas pela adoção de política monetária expansiva na zona do euro. Na projeção do FMI, o potencial de crescimento das economias avançadas aponta para taxas médias anuais de crescimento de 1,6% entre 2015 e 2018.

Tal cenário externo restringe as possibilidades de que a retomada do crescimento brasileiro possa ser impulsionada por um drive de exportações movido pela melhoria dos termos de trocas, mas isso não significa que o comércio externo não possa desempenhar papel importante na medida em que a depreciação recente do real impacte os termos de competitividade da produção interna, tanto no mercado doméstico quanto no exterior.

Cenário interno

Não há obstáculos internos de monta que impeça a economia do país de seguir em frente, após o equacionamento de algumas questões básicas. Os desajustes nas contas públicas estão sendo enfrentados e os desequilíbrios do balanço de pagamento não guardam proporção com o que já se enfrentou no passado. Enfim, há tempo para fazer os ajustes, desde que haja determinação para tal.
 
Alguns fatores internos deverão delimitar as possibilidades de retomada do crescimento. Entre os mais importantes, julgo que devem ser elencados os efeitos do ajuste fiscal sobre a demanda corrente e os ganhos de credibilidade que podem proporcionar e o desenlace da crise da Petrobras e a continuidade da expansão dos investimentos na cadeia de petróleo e gás. 

Duas outras questões também me parecem decisivas para alavancar os investimentos e deixar para trás o impasse que imobiliza o país. A primeira é a retomada dos leilões de concessão de infraestrutura que poderá viabilizar a expansão de empreendimentos importantes, tanto em termos de geração de emprego e renda quanto pelos efeitos que geram pela abertura de fronteiras de crescimento e pela elevação da produtividade. 

O segundo fator diz respeito ao encaminhamento satisfatório da situação energética, em comparação a situação atual de estrangulamento de oferta e de preços proibitivos do suprimento emergencial. A normalização do nível dos reservatórios e a ampliação da oferta de energia a custos mais baixos podem conferir ganhos extraordinários ao país que, somados à queda dos preços do petróleo, equivaleriam a um deslocamento para baixo na curva de custos de produção, além de liberar renda das famílias. 

Os ciclos expansivos

A deflagração de um ciclo expansivo depende de alargar os fatores de oferta, quando não há ociosidade dos recursos produtivos, que restringem fisicamente o potencial de crescimento. Depende igualmente de um ou mais impulsos pelo lado do dispêndio que arrastem e multipliquem a demanda efetiva na economia. Frente ao nível de endividamento das famílias e da restrição fiscal é difícil imaginar uma expansão autônoma do consumo.

Na ausência de ociosidade de recursos ou na vigência de restrições fiscais e no balanço de pagamento, que é o nosso caso, os investimentos privados e públicos deverão liderar a expansão do gasto, concorrendo simultaneamente para superar os limitantes físicos do lado da oferta e injetar poder de compra na economia, ao tempo que estimulam a expansão do dispêndio corrente das famílias e do governo. Tal como em um modelo autoalimentado do tipo acelerador-multiplicador. 

Para finalizar, vale a pena indagar sobre os fatores que mantêm as economias das regiões Norte e Nordeste crescendo a ritmos próximos a 3% enquanto as demais regiões se encontram em estagnação já há alguns trimestres. O Gráfico apresenta as trajetórias das taxas de crescimento do Indice de Atividade do Banco Central (IBC) para o Brasil e para o Nordeste no acumulado de doze meses e as taxas de crescimento trimestral em relação a iguais períodos do ano anterior. 

Nos doze meses encerrados em fevereiro a economia do Nordeste cresceu 3,6%. Na série trimestral, em relação ao mesmo trimestre do ano anterior, percebe-se que a economia vem desacelerando desde dezembro do ano passado. Ainda assim no trimestre encerrado em fevereiro de 2015  o IBC-R NE se situa 3,1% acima de fevereiro de 2014. Nas duas séries, o IBC-BR apresenta resultados negativos em fevereiro de 2015.

A resposta mais adequada, provavelmente, é a de que tais regiões ainda se beneficiam do impulso anterior de expansão da renda interna que alimentou a realização de investimentos em busca do atendimento do poder de compra aumentado e que não há segurança que manterão taxas de crescimento tão robustas por muito tempo. Ainda assim, a manutenção de tais taxas de crescimento em um cenário interno adverso serve para ilustrar as possibilidades de um novo ciclo expansivo, após o período de ajuste.



* Ricardo Lacerda é também Assessor Econômico do Governo de Sergipe.
**Artigos anteriores estão postados em http://cenariosdesenvolvimento.blogspot.com/

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