Implante capilar

26/04/2015 18:58:58 por Kleber Santos em Coluna José Lima
José Lima Santana
Professor do Departamento de Direito da UFS

O causo eu conto como o causo se deu. Alguém já disse isso. E eu digo o mesmo. Afinal, causos não são criados. São contados. Às vezes, claro, com umas pinceladas de verniz, para lustrar o dito cujo. Vernizinho de avaluemos, coisa de pequena monta.

Antônio Aurelino de Bastos Pereira. Eis o nome do suplicante. Boêmio, tocador de violão, namorador, deu-se mal por ter dado em cima de uma jovem senhora há pouco casada, porém sibite como ela só. O maridão, desses de pança de barril, sujeito sebento, mas brabo que nem caninana soube do arrastar de asas de Totoinho, como era chamado. Aliás, Totoinho de Zé Leleco. Zé Leleco era o pai. O maridão correu dentro de Totoinho de revólver em punho, no bar de Euvaldo. O tocador de violão escapou, e pernas pra que as quero, papocou no oco do mundo. Bandeou-se para o Rio de Janeiro, onde morava uma irmã, que trabalhava na TV Rio. Ih, faz tempo! Na Cidade Maravilhosa, Totoinho andou tocando em barzinhos, em cabarés da Lapa e, assim, foi-se fazendo como instrumentista, até chegar ao Cassino da Urca. E o danado era bom mesmo. Fez carreira e amizades. Por lá recebeu em santo matrimônio uma jovem, filha de um coronel do Exército. Logo, veio o golpe militar e o coronel subiu a general. O sogrão tornou-se um dos milicos da chamada linha dura. Àquela altura, Totoinho já tinha se endireitado na vida. Não era mais de aventuras amorosas, ao menos do conhecimento da mulher e do sogro general. 

Ditadura é ditadura, embora alguns incautos, dentre eles jovens, que não sabem nada dos tempos de chumbo, gritam pregando a volta do regime da tortura e do escambau. O sogrão general conseguiu uma colocação para o genro artista numa empresa do governo. Lá ele fez carreira. Mudou para Brasília e acabou como técnico do Senado. Ele se aposentou anos depois que o general já tinha batido os coturnos e um pouco depois que os milicos voltaram para a caserna. Aposentado, voltou para o Rio, onde moravam três de seus filhos. Pai de cinco filhos e avô de oito netos, Totoinho viu, para o seu desespero, a mulher, Dona Quitéria, ser vencida pelo câncer. Às vezes, o tempo e a convivência moldam as pessoas. Totoinho moldara-se à vida de casado, aos rigores da mulher, que comandava a família com pulso firme. Sentiu-se desamparado. As portas para novo casamento estavam abertas e pretendentes não faltavam. Todavia, Totoinho não se aqueceu para novo matrimônio. Andou macambúzio por uns tempos. Os filhos e as filhas pouca assistência lhe davam. Andou pelos cantos da casa. Mergulhou em depressão. Socorreu-lhe um médico amigo, morador no mesmo prédio, na Rua Barata Ribeiro, esquina com a Rua Paula Freitas, em Copacabana. 

Refeito da depressão, criou novo ânimo para a vida e começou a cuidar-se. Dentre os cuidados, procurou um dermatologista, para fins de rearranjos capilares. A vasta cabeleira da mocidade dera lugar à calvície. Acertou para fazer um implante capilar. Os cabelos grisalhos ganhariam um reforço. E ganharam. Não é que a cirurgia estética foi de lascar? Milhares de fios implantados com extrema perícia. A cabeleira de outrora parecia ter voltado, quase completamente. Os fios implantados em nada diferiam dos fios naturais. Grisalhos por grisalhos. E a cirurgia não foi paga pelo Senado como outras o foram. Totoinho, ou melhor, o novo Totoinho começou a frequentar uma academia, na Av. Nossa Senhora de Copacabana, pertinho de casa, entre as Ruas Siqueira Campos e Figueiredo de Magalhães. Fez novas amizades. De uns tempos para cá, os filhos e netos passaram a procurá-lo com maior frequência. Família, enfim, feliz. Faltava-lhe uma companheira. Os filhos incentivavam.  

Eis que, numa tarde, na Confeitaria Colombo, na Rua Gonçalves Dias, centro do Rio, degustando os famosos acepipes ali servidos, que já encantaram Deus e o mundo, incluindo-se a rainha da Inglaterra, ele conheceu uma mulher encantadora, que lhe causou rebuliço no coração carente de aconchego. Coincidência: ela era de Aracaju. Conversaram. Trocaram amabilidades. Trocaram telefones. Jantaram na noite seguinte. Casaram-se três meses depois, na Igrejinha do Santo Antônio. E Totoinho retornou ao seu Sergipe, que ele jamais esqueceu, pois nordestino da gema não se esquece do seu pedaço de chão. Ele era apaixonado por praia. A orla da Atalaia lhe cativou. Os bares da Sarney, a água quente de nossas praias, tão diferentes das águas das praias do Rio, o forró eterno do Cariri, tudo isso aliviou a saudade do Rio. De vez em quando, ele e a nova esposa iam à cidade de suas duas paixões, além da família: o Flamengo e a Estação Primeira de Mangueira. Em baixa ou em alta, para ele o Flamengo e a Mangueira não tinham rivais. Ele sempre dizia, quando o Flamengo perdia um jogo: “O Flamengo não perde; apenas adia a vitória”. Fazer o quê? 

A nova esposa, Dona Francisca, que ele chamava Kika, era aposentada do serviço público, funcionária graduada que fora. Como ele, era viúva, porém sem filhos. A irmã dela, Dona Efigênia, também viúva, mas já pela terceira vez, os maridos, coitados, morreram todos de ataque cardíaco, era metida no espiritismo, embora só frequentasse casas não recomendadas pelos adeptos de Alan Kardec. Eram casas de pessoas que se diziam espíritas, mas que nada sabiam da doutrina kardecista, professando uma mistura de tudo, mas que resultava em nada. Assim era, por exemplo, Dona Anita Timbaúba, minha vizinha, católica de fachada e que levava a vida a tapear os incautos, dizendo-se espírita e “botando mesa”. Não era. Eu também não sou, ao contrário, sou católico, por convicção e não por convenção, mas respeito a todos de quaisquer crenças. Aos direitos dos outros se seguem os meus deveres. 

Ora, ocorre que Totoinho deu para ter umas visões noturnas. Uns sonhos meio doidos, uns pesadelos. Aparecia-lhe um senhor cadavérico, reclamando-lhe o que seriam seus. Dizia a visagem: “Vim buscar os meus cabelos”. Foram duas ou três semanas nesse batido. Totoinho, que, quando criança, tinha medo de almas penadas, entrou em parafuso. O que seria aquilo? Pronto. Dona Efigênia tinha a resposta na ponta da língua. Os cabelos implantados em Totoinho pertenceram a alguém que devia ter morrido. Daí os sonhos e pesadelos. O defunto descabelado viera reclamar o que lhe pertencera. O sujeito devia ter vendido ou doado os cabelos antes de morrer, mas, agora, buscava o que era seu, para ter descanso. Dona Efigênia pediu para abrir mesa, em uma das casas que frequentava. Foram umas três sessões, às quais Totoinho recusara-se a comparecer. Mas Dona Kika fora no lugar do marido. Nenhum contato, porém. Dona Efigênia argumentou que o espírito do antigo dono de parte da cabeleira de Totoinho somente faria contato no Rio de Janeiro, na clínica onde fora feito o implante. Dona Kika acreditou. Totoinho, não. De qualquer forma, os sonhos e pesadelos sumiram em pouco tempo. Alívio total.

Carnaval de 2013. Totoinho e Dona Kika foram ao Rio de Janeiro. Iriam à Sapucaí, para torcer pela Estação Primeira. No domingo, Totoinho amanheceu morto. Dona Kika quase morreu também ao vê-lo teso na cama, os olhos esbugalhados e uma expressão de horror no rosto. Na cabeça faltavam os cabelos implantados.  

O causo eu conto como o causo me foi contado. Sem mais nem menos. 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 26 e 27 de abril de 2015. 

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