Roberto Cabrini, Jesus e Zaqueu

07/06/2015 19:32:33 por Kleber Santos em Coluna Kleber Santos
Kleber Santos*

No último domingo (31), o SBT mostrou através do programa Conexão Repórter, com Roberto Cabrini, a máfia das propinas oferecidas por empresários para se beneficiar nas licitações da merenda escolar de dois municípios sergipanos. Esta semana, o repórter voltou ao estado e deverá mostrar novas irregularidades envolvendo empresários e gestores públicos. Não preciso citar nomes, mas posso chamá-los de "Zaqueu".

Este nome não deve ser estranho para muita gente. Para refrescar a memória, há alguns anos, uma música do cantor Régis Danese estourou nas paradas de sucesso do país iniciada com a letra "Como Zaqueu quero subir...", e cujo coro era cantado em alto e bom som: "Entra na minha casa, entra na minha vida...", referindo-se a Jesus.

O judeu Zaqueu, publicano (cobrador de imposto), vendeu os seus serviços para os exploradores dos próprios judeus: os romanos. Foi fiscal de renda do inimigo. Cobrava os altos impostos e o benefício aos judeus era mínimo em relação ao capital que iria para o Império Romano, sem contar que deve ter recebido propina de muitas pessoas para pagarem menos imposto. A história mostra que era uma prática comum aos que exerciam esta função. Não é à-toa que os cobradores de impostos eram vistos com maus olhos pelo povo.

Depois da matéria de Roberto Cabrini, vi muitos internautas julgando ferozmente os denunciados. Sentenças pesadas foram dadas pela opinião pública. Somos especialistas em julgar as pessoas. Temos que cobrar a justiça sempre. O próprio Jesus, no Sermão do Monte, diz: “Feliz é aquele que tem fome e sede de justiça”. Até aí perfeito! Contudo, o que chamo a atenção é que existe uma linha tênue em julgar o próximo sobre algo e estarmos praticando a mesma coisa. Na reportagem, a denúncia foi de suborno e exploração social e econômica. Mas existe também este mesmo jogo em diversas áreas como profissional e emocional.

No primeiro âmbito acontece quando o empregado recebe por muito menos do que é cobrado pelo empregador. Cobra-se muito do material humano e em troca dá biscoitinhos e um pouco de leite, isto é, um salário aquém do que é justo. No emocional, dá-se quando um homem ou uma mulher se entrega de corpo e alma numa relação, mas não recebe do outro na mesma medida e o que sobra é mendigar carinho. É quando um tem a visão de ser do outro para sempre e o outro apenas explora aquele momento de entretenimento emocional. Explorador de corações é que o ocorre. Enfim, os exemplos são inúmeros. Boa parte das relações sociais é hipócrita, assim como os internautas julgadores que postam no Facebook.

Com Zaqueu, a solução deu-se no bendito dia do encontro com a “verdade” ou, como queira, com Jesus. Afinal, Ele mesmo se define: eu sou o caminho, a VERDADE e a vida. Logo, o encontro com Jesus sempre é o encontro com a verdade, e por tabela, todo encontro com a verdade é um encontro com Jesus, ainda que esteja com a roupagem de um repórter.

Pelo lado do baixinho Zaqueu, ele reconheceu os erros. Jesus entrou não somente na casa daquele publicano, mas também na vida dele e nunca mais foi o mesmo. De pronto, Zaqueu soube o que fazer: “Senhor, eis que dou aos pobres metade dos meus bens, e se em alguma coisa eu defraudei, roubei de pessoas, eu restituo quatro vezes mais”. E Jesus devolveu: "Hoje, entrou salvação nesta casa".
Existem dois tipos de salvação: a do futuro, relacionada à quando Jesus vir pela segunda vez, conforme o Evangelho de João, capítulo 14; e a do presente, que acontece instantaneamente na vida de todo aquele que se rende ao Evangelho de Cristo, às suas boas novas, ao modo de vida que Jesus disse que, realmente, era vida, e não apenas existência.

O fato é que houve uma conversão na vida de Zaqueu. Ajudar os pobres e necessitados, segundo o Novo Testamento, é como se limpa dinheiro sujo. Houve mudança de mentalidade seguida de atitudes corretas. Daí, não ter sido necessário prendê-lo por aqueles erros.

Bom seria, se todos aqueles confrontados com a “ verdade do seu erro” assumisse o pecado, mudasse o pensamento e comportamento. Mas quem quer se deparar com a verdade? Quem quer ter suas estruturas mudadas e as feridas saradas? E pior que isso: quem quer ser julgado taxativamente pelos outros ao assumir um erro? Sim, nós quase nunca propomos cura para o próximo. É mais fácil apontar os erros dos outros.

Só sei que quanto mais vejo uma reportagem como a do Conexão Repórter mais eu fico apaixonado por Jesus e percebo como sou tão diferente dele e preciso melhorar. Isto porque a Bíblia diz que Ele andava com “publicanos e pecadores”; e Ele “entrou na casa de Zaqueu”. Ele fez questão de criar laços com aqueles que “não são dignos moralmente de amizade”. Foi o próprio Jesus que escolheu. Optou em querer se aproximar de Zaqueu. Foi Jesus que disse na sequência: “O Filho do homem (ele) veio buscar e salvar os que estavam perdidos”.

Meu desejo sincero é que esse texto pare nas mãos daqueles que sabem que são exploradores e que fazem suborno. Quero dizer que se houve jeito para Zaqueu é porque tem jeito para todo mundo. O Evangelho alcança a todos. Já diz o ditado: o importante na vida não é como se começa, mas como se termina. Ter a paz de uma consciência honesta é melhor do que ter uma mesa casa farta, mas passar à noite em claro depois de assistir uma reportagem de Roberto Cabrini. É isso!

*Co-editor deste blog, jornalista e pós-graduado em jornalismo cultural (kleber.sergipe@gmail.com)

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