Andanças Juninas

28/06/2015 11:09:21 por Eugênio Nascimento em Colunas

Esmeraldo Leal dos Santos  -  Mestre em Ciências Sociais e Secretário da Agricultura, Desenvolvimento Agrário e da Pesca do Estado de Sergipe


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Na ida para uma reunião, no município de São Domingos, em plena noite de Santo Antônio, lembrei da uma viagem que fiz com meus pais à casa dos meus avós, num desses dias dos santos juninos. O percurso era do município de Simão Dias ao povoado São Francisco, que na época, era situado no município de Paripiranga e hoje pertence ao município de Adustina, no Sertão da Bahia.

A parte inicial da viagem era desnuda e desabitada. Da corrente do Caiçá  ao posto da alta e fria Paripiranga, só se via as “luzes” das fazendas Mercador e Tavares/Chora Minino. A viagem começou a ganhar vida ao enveredarmos pelas “matas” do Coité  e subirmos rumo ao Sertão. Destaco algumas coisas marcantes: a claridade exuberante das fogueiras no escuro da noite sertaneja, a fumaça que entrava junto com as vozes e os forrós dos rádios AM na cansada "marinete" .

Nessa noite, a lua lutava contra as esperançosas nuvens do comemorado inverno. Era estrada de chão, e a marinete parecia embalada pelas músicas do forró. Luiz Gonzaga e o Trio Nordestino disputavam para ver quem vencia o ronco da sedenta máquina a diesel. Através dos vidros embaçados, eu procurava obedecer ao velho Lula, que dizia: “olha pro céu meu amor. Vê como ele está lindo” . Porém, meu olhar o traia pela ilusão das barrocas (poças) d’águas que, ora se espremia entre as nuvens para roubar o reflexo reluzente das estrelas e ora me apresentava os reflexos incandescentes das fogueiras. Essas imagens, sons e cheiros fizeram com que as longas léguas  parecessem mais curtas.

A penúltima parada da marinete foi na padaria da pequena vila do Sítio da Conceição, onde desceram alguns caneludos para subir o cheiro de canela dos bolachões. -Eita, que ainda dá água na boca! Só descemos algumas varas  depois, exatamente na encruzilhada do tanque do antigo povoado “Galo Assanhado”. 

Depois de trocarmos alguns boas-noites, seguimos a pé, em direção ao São Francisco. A estrada se estreitou e as léguas se encompridaram. Minha mãe colocou uma sacola na cabeça e meu pai pôs outra no ombro. Eu... não me recordo se carregava algo, além de mim! Lembro das sandálias “havaianas” que, vez ou outra, soltavam os “cabrestos” com o peso do selão que insistia em fazer parte do meu corpo. Também me lembro que uma vez pisava firme na claridade das poças, achando que eram pedras, e outra pisava com leveza nas pedras que fingiam ser poças. Era uma verdadeira loteria da ilusão ótica, promovida pela lua quase encoberta do sertão chuvoso.

Meus pais não tinham a mesma dificuldade! Minha mãe pisava firme porque parecia conhecer cada palmo do chão. Já meu pai, com a sua botina de couro e com solas de pneus, pisava manco por natureza. Aliás! Herdei essa pisada dele. A pressa dava o ritmo da caminhada. E, passo a passo, ultrapassávamos as casas batizadas com nomes e sobrenomes: -“Essa é de Zé de Sinhô. Será que sua mulher já pariu? ” Dizia minha mãe. -“Só pode!” Dizia meu pai. 

Na maioria desses casebres, vazados pelas frestas luminosas dos candeeiros ou do fogão de lenha, havia guardiões barulhentos e magros. Um deles teve seu latido ligeiramente contido, ao ouvir a voz do dono: “Quiieto, viludo. Oxente! Se oriente rapaz!!!”.

As vozes continuavam festivas e se entrelaçavam aos choros dos anjinhos recém nascidos e aos chocalhos dos bodes. Eram verdadeiras sinfonias, regidas pelo Rei do Baião e seus poucos concorrentes. Casa aqui, casa acolá, e as ladainhas eram as mesmas. A única casa que destoou foi a da curva do cata-vento. Pois era uma fazenda “e não morava um fio de Deus para contar a história”. Nela, só se ouvia o lamento do chiado da hélice que insistia em desperdiçar a preciosa água.

Saímos do rumo do Povoado São Francisco e partimos para enlameada estrada da Lagoa dos Ninhos. Em quase todo momento, abeirávamos os aceiros equilibrando-nos entre as barrocas sangradas d’águas e as macambiras de pontas espinhentas pisadas por outros andarilhos.
Entre uma poça e outra, minha mãe lembrava de todos os nativos e suas quase incestuosas relações de parentescos: Dóda, Zé de Bié, as negas de Vicente, Zeinha, etc. 

Essas histórias fincavam na memória, na mesma intensidade das luzernas  e ajudavam na travessia, amenizando a tirania das léguas. Aos poucos, essas cantilenas se misturavam ao cheiro cada vez mais forte “de casa”. Não me refiro ao cheiro das flores de “velande” , nem dos estrumes da ruminante vaca estrela, nem dos milhos já assados, espalhados nos banguelos sabugos do final da festa. Era da terra adubada por “imbigos”  enterrados pela tradição e do suor que demarcava o torrão familiar.

Passávamos pelas casas do bodegueiro Silvânio e do sóbrio bêbado Bio, pela entrada da roça da quixabeira e pelas ruínas da “casa velha” , pela casa de Tia Grande (Tia/avó, “moça velha” que vivia da roça e da rústica olaria) e pelo curral de vara que se emendava ao grande terreiro da casa dos meus avós maternos. 

As fogueiras que nos guiaram no começo da viagem, aos poucos perdiam o seu vigor. A última, e mais esperada, já não passava de cinzas, carvões, brasas e alguns fios de chamas que insistiam em lutar contra o orvalho. Essa mistura de tons se espalhavam pelo selão batido do terreiro e formavam uma trêmula aquarela. 

Nenhuma recepção. A não ser das curiosas corujas, do levantar das orelhas do cachorro “tubarão” e das vozes murmurantes, que se esconderam no silêncio para ouvir os batidos dos chinelos nos cortes de pedras do batente ralado. - “MÃE!”, prefixou minha mãe. O silêncio tentou segurar os murmúrios e exclamações. De repente, uma das corajosas mulheres interroga: - “É MARIA?”. - “SIM” respondeu a mulher menina. Dito isso, abrem a parte superior da porta e convida para entrar pela parte mais importante da casa, a cozinha. 

De fato, em tempos de chuva, as partes mais importantes da casa de um sertanejo é o acolhedor alpendre, durante o dia, e a aconchegante cozinha, durante a noite. Já em tempos de seca, o alpendre é o mirante das nuvens desejadas; e a cozinha tem o desesperante gosto da hora famélica. Como o tempo era bom, a cozinha tinha cheiro de toucinho assado na brasa gorda. Eita, que recepção! “O cheiro bom” , sentido por Luiz Gonzaga, quando viu seu Januário. Cheiro de saudade!

Quando a porta de baixo se abriu, foi tanta "bença"  e aperto de mão que o calor do "fogo" de lenha tinha muito menos graus. – “Bença Padinho e bença madinha”, pedia eu aos meus avós. – “Bença Tia Dade” , e mais uma dezena de tios e tias. – “Deus abençoe”, respondeu o coral... – “Estão com fome?”, perguntou a minha avó, para concluir o momento sagrado.Perdão! – “Desculpem-me os modos”. Como pude adentrar no recinto, sem apresentar as cumeeiras  da casa. A primeira a me abençoar foi minha madrinha/avó Anfrísia. Uma caboca vaidosa e docemente sisuda. Cabelos apertando a cabeça para expor o rosto e olhos vivamente acastanhados. Uma mão apoiada nos “quarto” , destacando o vestido solto e florido, e a outra segurando a chaleira de ferro quente.

Logo em seguida foi a vez do meu avô/padrinho Pedro Galdêncio. Alto e com uns dez centímetros curvados pela lida. Pele avermelhada pela secura do sol. Olhos azuis translúcidos. Um sorriso largo, mostrando o prazer da chegada. Os Cabelos brancos e encardidos das poucas águas e das muitas poeiras e com duas pequenas entradas marcadas pela sobra do chapéu de palha e pelas rugas aradas pelo tempo. As mãos ressecadas de calos e os dedos entrevados de tanto labor. Os pés, sempre descalços, rachados e com os dedos desunidos e engolindo as unhas. Trajava a mesma calça surrada e com as “bocas” dobradas, no estilo carregador de banguê  e com o cós amarado cegamente com um cipó de imbira . Uma camisa amarrada nas pontas, para enganar os botões e com o bolso caído para expor a “fartura”. 

Não vou apresentar os outros membros da prole porque seriam muitas linhas de histórias. Mas faço questão de apresentar o cenário da cozinha, que se mistura com a rústica estética dos personagens. Peço que aguce a visão e todos os sentidos para não perder a riqueza dos detalhes dos tão poucos objetos. 

Começarei pelo fogão à lenha, que apesar de estar encostado na parede, feita de meio adobo e meio reboco, parecia estar no centro da cozinha. Nele, algumas toras de lenha penetrando o forno e expulsando chamas pelas bocas, para aquecer o ambiente. Repousando em cima da chapa, algumas panelas de alumínio e de barro esquentando a rapa da canjica, do mungunzá e do arroz doce, muito doce. Disputando as bocas, um caldeirão com os milhos do “munturo”  e uma chaleira de ferro, com o café saborosamente ralo e doce, que minha avó brindava nos copos. 

Bem acima do fogão, havia uma vara com pedaços de toicinho, piabas, titelas de passarinhos, tripas, buchos, e outros miúdos da criação socializada pelos vizinhos.

Vez ou outra minha avó apartava as pipocantes espigas de milho assadas e os suculentos e derretidos pedaços de toucinhos para sacudir uma tampa e aumentar as chamas e a fumaça que se misturavam aos cheiros que aromatizavam o ambiente.Nas outras paredes, escuras de fumaça e pretas de desenhos de carvão, havia uma fileira de potes amarrados nas bocas e “encanecados” pela mercê da sede; uma pequena quistaleira  com algumas canecas de vidro e de alumínio; uma prateleira com latas de óleo, açúcar, café e farinha. Tudo isso, sustentado pelo piso de barro queimado e coberto por um teto de varas e telhas empretecidas. Sem contar ainda o banco de madeira, que ligeiramente foi cedido às visitas para que todos, de cócoras, formassem a grande roda de prozas, recheadas de histórias reais e mitologia, mentiras e fofocas. 

No centro dessas conversas ficava sempre o meu avô, que interrompia as histórias do cotidiano para falar das suas experiências odisseicas e performáticas. A exemplo de: Os milagres das santas missões, sua fuga do bando de Lampião, os sobreviventes da guerra de Canudos, o Imperador Carlos Magno e os Doze Pares de França , e tantas outras. Oh saudade!Qualquer dia desses sentaremos numa grande roda para relembrarmos outras histórias! Agora, dormirei embalado pelas lembranças do som roco do rádio e a voz aguda e romântica da minha tia, recitando “O Pavão Misterioso” :  Eu vou contar uma história / De um pavão misterioso / Que levantou vôo na Grécia / Com um rapaz corajoso, / Raptando uma condessa / Filha de um conde orgulhoso. 

Bom São Pedro! 
 

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